Dirceu tentou ajudar Erenice, mas ela meteu os pés pelas mãos

Pedro do Coutto

No encontro que manteve terça-feira com petroleiros, na Bahia, manchete principal da edição de quarta-feira de O Globo, José Dirceu afirmou  textualmente que o PT terá mais influência no governo com Dilma Roussef do que a que possui no governo Lula. Acentuou que Lula é maior que o Partido dos Trabalhadores, deixando no ar, tacitamente, a afirmação de que Dilma não é. O fato é que Dirceu, este homem fatal, expressão usada por Nelson Rodrigues, fez o pronunciamento tentando atrair o debate político para si, desviando assim a atenção da opinião pública a respeito do episódio Erenice Guerra.

Mas na hora em que falava, acontece, não soube que, ao mesmo tempo, a própria chefe da Casa Civil divulgava nota publicada com destaque pela Folha de São Paulo, culpando o candidato José Serra pelas acusações desfechadas contra ela e seu filho, Israel Guerra. Impressionante e indisfarçável campanha de difamação – acrescentou Erenice, que ainda relutava em pedir demissão.

Em matéria de falta de habilidade, esta foi total. Pois na verdade as acusações partiram da Revista Veja que circulou à tarde de sábado, ampliadas com depoimentos adicionais nas edições de domingo de O Globo, O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo. Erenice Guerra, ao acusar alguém, deveria ter acusado a Veja, o empresário Fábio Baracat e o coronel Eduardo Artur Silva. Mas não. Alvejou Serra e assim deu a entender que a Veja praticou o ataque a mando do candidato do PSDB.

José Dirceu, entretanto, prosseguiu além do erro de Erenice. Cometeu uma série de equívocos, alguns propositais, outros nem tanto, movidos pela dimensão do seu ego. Por exemplo: ao falar a respeito da vitória de Lula em 2002, disse ganhamos a eleição quando pusemos José Alencar como candidato a vice. Atribui-se desta forma um papel decisivo no desfecho de oito anos atrás, na medida em que recorreu a plural abrangente. Não parou aí, claro. Aproveitou a deixa para atacar José Sarney e Renan Calheiros, lembrando que em 2002 o PMDB apoiou Serra indicando para vice a deputada Rita Camata. Ele fez isso, estou certo, no sentido de prolongar a confusão e assim amortecer o impacto do torpedo chamado Erenice. Queria prolongar a discussão, receber críticas e manifestações der todos os lados. Neste ponto cometeu um erro, este grave.

Além de sua alusão inicial evidentemente desagradar o presidente da República, passou-lhe despercebido que Lula mandara a Polícia Federal abrir inquérito contra Israel Guerra. Com isso, indiretamente, forçou Erenice a pedir afastamento ou demissão. Não podia ser outra a atitude da ministra, uma vez que foi levantada clara suspeita sobre a situação de seu filho. Mas o ex-deputado, que perdeu o mandato em 2005 no escândalo do mensalão, e até hoje espera julgamento de STF, embora a denúncia do Ministério Público tenha sido aceita pelo ministro da Joaquim Barbosa em 2007, não desejou apenas esquentar a batalha. Não. Resolveu ferver o ambiente e generalizar o estouro da pólvora. Atacou o ministro Ayres Brito, do Supremo, por sua opinião favorável à vigência mediata da lei Ficha Limpa, provocando-o e estendeu a provocação à Imprensa ao declarar que ela atua com excesso de liberdade.

Empolgado com seu próprio desempenho aos petroleiros, ao sentir a presença de jornalistas, daí o enorme destaque que O Globo deu à matéria, acrescentou em tom heróico ligado à sua personalidade: eles (os conservadores) me cassaram em 2005, e, em 2008, em conluio com a Polícia Federal, o Ministério Público e o Judiciário (referindo-se ao STF) tentaram me prender. O capítulo de Freud sobre o ego idealizado aí entrou em cena. Não fosse o segundo erro de Erenice, que enfim se demitiu (ou foi demitida?) Dirceu teria multidões emocionadas como platéia.

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