Discurso de Bolsonaro contrário às recomendações da OMS poderão isolar o país, afirmam especialistas

País perdeu o status de uma nação que privilegiava a cooperação

Simone Kafruni
Correio Braziliense

Ao negar a necessidade de distanciamento social e, mais do que isso, desobedecer as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), passeando e provocando aglomerações em Brasília, o presidente Jair Bolsonaro manchou a já combalida imagem do país no exterior.

Para especialistas, a fatura do discurso contrário às orientações com bases científicas não será barata e o Brasil corre o risco de sofrer um isolamento comercial por conta da falta de controle sanitário. Nem mesmo a mudança de tom no último pronunciamento aliviou as críticas internacionais.

BOLA FORA – A imagem do país lá fora começou a se desfazer com a política ambiental do governo Bolsonaro — ou a ausência dela — em relação às queimadas na Amazônia. A falta de diplomacia nas relações com a China agravaram o quadro.

Porém, nada foi tão contundente quanto a insistência do presidente em negar a gravidade da pandemia de coronavírus. Para piorar, Bolsonaro insiste em comemorar o golpe militar. Tanto que  diversas entidades de direitos humanos apresentaram denúncia contra o governo brasileiro na Organização das Nações Unidas (ONU) por conta do comportamento do chefe do Executivo.

ISOLAMENTO – “Nunca, antes, o país esteve tão isolado diplomaticamente”, alerta André Reis, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “Bolsonaro está em isolamento internacional, porque pouquíssimos países ignoram a pandemia”, diz.

Segundo ele, o negacionismo é de origem da direita antiglobalista, cujo principal defensor é Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, a quem Bolsonaro imita. “Eles têm ranço contra organismos internacionais. Veem ameaça em qualquer órgão da ONU, como é o caso da OMS, desprezam a atividade científica e divulgam informações falsas ou distorcidas”.

RECUO – No entanto, Trump recuou e ampliou o período de quarentena. “Vamos ver como Bolsonaro se comporta. Seria o momento de recuar também, mas ao que parece, dobrou a aposta”, lamenta o especialista. Para ele, há um repúdio internacional ao presidente brasileiro.

“As críticas são pesadas quanto ao comportamento pessoal dele diante da crise. Em resumo, a comunidade internacional acredita que Bolsonaro não está preparado para enfrentar a crise. Por isso, enfrenta isolamento, tanto dentro do governo quanto no cenário internacional”, avalia.

IMPACTO – O efeito é o encolhimento do Brasil. “Hoje, o país não tem capacidade de influenciar nada, isso tem impacto no comércio exterior, porque provoca afastamento de importantes compradores e investidores”, considera Reis.

A segunda questão, segundo o professor, é sanitária, um dado muito importante em relações comerciais. “Se o Brasil se mostrar descontrolado sanitariamente, vai perder espaços nas exportações. Corre o risco de um isolamento comercial”, sentencia.

ACHISMOS  – Para Juliano da Silva Cortinhas, professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), a postura do presidente é lamentável. “O comportamento diante de um assunto de vida ou morte dos cidadãos se baseia nos achismos e visões incorretas do mundo. Isso pode trazer consequências muito graves”, avalia.

O professor alerta para o isolamento de Bolsonaro, inclusive das associações que apoiavam seu governo. “Há um distanciamento interno das Forças Armadas. Do ponto de vista externo, a imagem é ruim desde que o presidente assumiu, porque o chanceler Ernesto Araújo não colabora em nada”, destaca.

DUPLA CRITICADA – Cortinhas alerta que os dois — Bolsonaro e Araújo — são indivíduos muito criticados no meio internacional por posturas contrárias aos direitos humanos e ao meio ambiente. “Desde que Bolsonaro assumiu, o país perdeu o status de cooperativo, de uma nação que privilegiava a cooperação. Hoje, o Brasil é unilateral, um país que não respeita o conhecimento científico”, lamenta.

As atitudes do presidente, segundo o professor, demonstram sua inépcia para o cargo, sua incapacidade de conduzir o país. “Eu vejo que existe um cálculo por trás das suas afirmações. Ele tentou se capitalizar politicamente com o discurso de proteger o interesse dos mais pobres, garantindo empregos. Diante da gravidade do coronavírus, foi um grande erro de leitura. Perdeu muito apoio nas redes sociais, se deu conta de que a tacada foi errada, mas não sabe como corrigir”, assinala.

APOIO – A paralisação da economia não é uma opção, conforme o professor André Cunha, da UFRGS. “Vai parar. O governo tem que tentar minimizar os custos e apoiar as famílias. Ao negar tudo, a imagem que fica, fora e dentro do país, é de falta de sintonia com a realidade”, avalia.

Para ele, o governo de Bolsonaro corre o risco de implosão interna. “Os ministros não obedecem, os governadores, também não. E o mundo está observando isso. A imagem é de um país sem liderança.”

O professor explica que os comandantes da área econômica estão desmontando o Estado, em um momento em que a presença estatal é muito mais necessária. “Os sinais são confusos, falta coordenação. As instituições existem, mas precisam de comando competente e eficiente. Em nenhuma área isso está ocorrendo. O mundo está vendo um presidente contra o seu povo”, resume.

AÇÃO DESCOORDENADA –  No entender do professor de Economia da UFRGS André Cunha, do ponto de visto de econômico, o Brasil está agindo de forma descoordenada e tímida. “O FMI (Fundo Monetário Internacional) tem um site onde atualiza as políticas adotadas pelos países. Há exemplos positivos de países liberais, como o governo se diz ser”, afirma.

Segundo ele, na Inglaterra, o governo promete pagar salários de até 2,5 mil libras, o que é um valor acima da média no país. “E a Inglaterra tem um governo pró-mercado”, lembra.

4 thoughts on “Discurso de Bolsonaro contrário às recomendações da OMS poderão isolar o país, afirmam especialistas

  1. A dona OMS dizia que a máscara não era importante para a população no dia a dia.
    Como as pessoas começaram a produzir máscaras, agora a OMS diz que é imprescindível.

    Em 30/01/2020 quando o Trump restringiu as viagens de chineses para os EUA a dona OMS disse:
    “O Comitê não recomenda nenhuma restrição de viagem ou comércio com base nas informações atuais disponíveis.”
    Depois que os anjos chineses assumiram que o covid era incontrolável a dona OMS falou que podia restringir.

    Vamos aguardar o que a mamãe OMS dirá amanhã para seus filhinhos fazerem.

  2. Então tá!
    Tudo isso nesta peroração jornalistica é segundo alguém.
    Segundo fulano, segundo sicrano e segundo qualquer um que saiba jogar um rato morto dentro da sopa dos outros.
    Segundo eu, a máquina de sujar reputações é perenemente apontada para o Brasil e seu governo, e segundo eu ainda, num arroubo de paralaxe cognitiva o Brasil não está prestando pra nada, só quem está bonito na fita é a China e seus chinófilos adoradores de um vírus amorcegado.

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