Discurso desconexo, contraditório e improvisado por Bolsonaro não convenceu nem os apoiadores

Charge do Nando Motta (Arquivo do Google)

Tânia Monteiro
Estadão

O presidente Jair Bolsonaro tinha um discurso pronto para rebater didaticamente as acusações feitas pelo ex-ministro da Justiça Sérgio Moro, na sexta-feira, dia 24. Preferiu ignorar tudo e partir para o improviso, apostando em um tom emocional. Na avaliação de interlocutores do presidente, ele se perdeu nos fatos, disse frases desconexas e acabou agravando a crise política.

Um documento breve, feito sob medida para desmentir “ponto a ponto” aquela espécie de delação premiada de Moro, seis horas antes, estava nas mãos de Bolsonaro. Num dos trechos, o texto citava um telefonema do presidente ao então diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, por volta de 22h20 da quinta-feira.

“A PEDIDO” – Na ocasião, o delegado teria sido informado que sua demissão seria publicada “a pedido” no Diário Oficial do dia seguinte. De acordo com esses relatos, Valeixo concordou com a solução sugerida.

A frase “o senhor não vai me chamar de mentiroso” foi encaixada no discurso justamente por isso. Ao falar de improviso – lendo apenas uma parte do pronunciamento —, Bolsonaro chegou a contar a conversa com Valeixo, mas sem a precisão considerada necessária, como o horário do diálogo, por exemplo.

FALOU DEMAIS – Um dos ministros que ajudaram na preparação do discurso disse que o presidente falou demais. “Não era o combinado. Ele acabou se perdendo”, lamentou o auxiliar, que pediu anonimato.

O objetivo era mostrar que Bolsonaro nunca interviu na Polícia Federal, como disse Moro, e, ainda, que o ex-ministro havia sido desleal. O presidente, no entanto, acabou divagando sobre questões que não tinham qualquer relação com o momento político.

VÍTIMA – Ao se apresentar como vítima do sistema, ele citou, por exemplo, até mesmo um processo enfrentado por sua sogra por alteração de documento, a passagem de uma avó da primeira-dama Michelle pela prisão, por tráfico de drogas, e as aventuras de Renan Jair, seu filho 04.

Para interlocutores do Palácio do Planalto, a divulgação de mensagens trocadas pelo WhatsApp entre Bolsonaro e Moro “sangraram” ainda mais o governo. Na avaliação de ministros, o alerta enviado pelo presidente a Moro, indicando interesse em substituir Valeixo por causa de um inquérito contra aliados bolsonaristas, acabou recrudescendo a crise.

FUGA  – Auxiliares do presidente ouvidos pelo Estado admitiram que a saída do ex-juiz da Lava Jato  provocou fuga de apoiadores que não pertenciam ao chamado bolsonarismo “raiz”. Alguns deles reclamaram, no entanto, da  “deslealdade” de Moro em divulgar conversas privadas, mesmo considerando que o presidente o empurrou para fora do governo. No Planalto o sentimento é o de que houve “traição” por parte de Moro.

Além de lamentar o pronunciamento de improviso feito por Bolsonaro para rebater as acusações de Moro, a equipe do presidente argumenta, no entanto, que tudo piorou após a divulgação das mensagens, na noite de sexta-feira, pelo Jornal Nacional, da TV Globo. O Estado também teve acesso às conversas pelo aplicativo.

ANTAGONISTA – No diálogo virtual, Bolsonaro envia a Moro uma reportagem do site “O Antagonista”, mostrando que a Polícia Federal está “na cola” de “10 ou 12” deputados bolsonaristas que teriam organizado as manifestações do último dia 19, em defesa da intervenção militar.

“Mais um motivo para a troca”, escreveu Bolsonaro, numa referência à saída de Valeixo. Moro respondeu que essa investigação está a cargo do ministro do Supremo Tribunal Alexandre de Moraes, e não da PF.

ALFINETADAS –  Ministros que estavam ao lado de Bolsonaro durante o pronunciamento também viram alfinetadas em quem continua no governo. Chamou a atenção dos presentes o fato de o presidente ter dito e repetido uma queixa que costuma fazer em reuniões ministeriais: as informações não chegam até ele, que precisa ir direto à fonte para saber o que está acontecendo.

A referência foi considerada uma indireta para o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, que tem sob sua batuta a Agência Brasileira de Informações (Abin). Detalhe: a direção da Abin está com Alexandre Ramagem, indicado para assumir o comando da Polícia Federal. As ligações de Bolsonaro para Ramagem são frequentes.

O estrago provocado pela forma como Moro saiu do governo foi comparado, guardadas as proporções,  àquele feito pelo então ministro da Cultura Marcelo Calero, hoje deputado federal. Calero deixou o governo de Michel Temer, em 2016, após divulgar conversas gravadas no gabinete presidencial.

DEMISSÕES – Bolsonaro também sugeriu, naquele pronunciamento, que podem vir outras demissões, o que deu margem para interpretações de que novas crises virão. No Congresso há rumores de que o ministro da Economia, Paulo Guedes – hoje bastante enfraquecido — pode ser a próxima “bola da vez”.

O Planalto continua monitorando a repercussão do confronto entre Bolsonaro e Moro, principalmente nas redes sociais. Nessa guerra de versões, porém, o presidente está em desvantagem, já que a maior parte da população ficou ao lado de Moro, como mostram os últimos levantamentos de opinião.

30 thoughts on “Discurso desconexo, contraditório e improvisado por Bolsonaro não convenceu nem os apoiadores

  1. Pelo q eu entendi o superintendente da PF estava com problema no aquecedor da piscina, chamou o INMETRO que decidiu trocar os taximetros do RJ por causa da Mariele que recebeu a ligacao do porteiro dizendo que o Paulo Guedes que ia dar uma facada no Bolsonaro porque tava com inveja do Dudu que pegava todo mundo do condomínio.

  2. a mídia impressa se uniu contra JB pois as verbas “cala-bocas” acabaram.
    não editam nada em prol do País senão a pretensa intenção de destruir o Governo.
    são os interesseiros que se enriqueceram enquanto o País era saqueado pelo lularápio e anta sapiens.

  3. Pelas manifestações nas redes sociais, a decepção com o ex-ministro Sergio Moro é muito grande. Esta queimado com a esquerda e agora com a direita.

    Sua possível candidatura pelo PSDB no futuro ficou praticamente inviável. Quem votaria em um candidato que pode largar o barco a qualquer hora? Que apunhala pelas costas? Ou que pode vazar uma conversa particular com um desafeto para a impren$a hiena a qualquer momento?

    O discurso pode ter sido sem pé nem cabeça para a impren$a, mas o povo entendeu. E para o Presidente e o governo, isso é o que importa.

    • Prezado Eliel, sou Servidora Publica e sei o que é ter de engolir sapo uma vez que nem sempre temos como provar algo de errado que um superior faz de forma material , apenas de forma “informal”…como falas entre duas pessoas apenas…Ocorre que perante um tribunal nao vale como prova se eram apenas entre duas pessoas….
      Lamentavelmente o nosso Presidente…em quem eu votei inclusive, pois acreditei que faria diferente e que combateria a corrupção…na minha mera e i nsignificante observacao sou apenas mais uma entre os 7 a 8 bilhoes de pessoas na terra, percebi que Ele, só tem dois interesses….se reeleger…e cuidar dos filhos…que inclusive estao o levando a derrocada…sou do tipo que votei no PT e falo do PT porque confiei e nao confio mais…votei no Bolsonaro e nao voto mais…ele ja demonstrou a que veio…e asim farei com qualquer um outro que vier e nao honrar o povo que o escolheu por um voto democrático e quem tem uma imensa força …ah se povo soubesse desta força…torço pelo país.
      O proprio Presidente nao esta preocupado com seu povo …demonstrou isto com posturas desumanas perante ao povo diante da Pandemia….falas como” alguem vai ter que morrer”…. Se acontecesse com um dos seus, tenho certeza que nao repetiria esta frase nunca mais…e tamanho o seu descaso que trocou de Ministro da Saude no auge da doença….está mesmo preocupado com seu povo?
      Abraços
      Suely

      • Prezada Suely Matos,

        Tenho sido um comentarista que pede sempre pela presença feminina na TI.

        A inteligência, sagacidade, argúcia, a sensibilidade da mulher é admirável, e se faz necessária quando o assunto fica restrito ao homaredo, um bando de presunçosos e arrogantes.

        A mulher entra como catalisadora de impulsos e reações nada úteis e apropriadas quando os impasses se formam entre os homens, que partem inexoravelmente para a agressão e insultos.

        Obrigado pelo teu comentário, que concordo em gênero, número e grau, com as palavras nele empregadas.

        Abraço.
        Te cuida!

        • Grata Bendl,
          Estou muito triste com o que esta acontecendo no mundo e duplamente no nosso País…vamos orar para nao perdermos o equilíbrio diante do que sequer imaginamos que irá acontecer com a humanidade…
          Grata mais uma vez …
          Abraços
          Suely

      • Prezada Sueli, obrigado pelo seu comentário.

        Concordo com você que as palavras usadas pelo presidente durante esta crise não foram as melhores. Sinceramente eu acredito que o Presidente não queira a morte de ninguém.

        Durante esta crise, eu o vejo tentando resolver os problemas causados pelo virus e os da economia para evitar o desemprego, simultaneamente. Não vejo problema nisso.

        O presidente pode errar muito, como ele mesmo admitiu várias vezes, mas acerta muito também. Infelizmente os acertos não são reconhecidos.

        Um abraço!

    • Moro deu entrevistas para o Roda Viva em 20/01/20 e no Pânico em 27/01/20. Em ambas entrevistas o ex-ministro disse que O PRESIDENTE NUNCA INTERFERIU NAS INVESTIGAÇÕES DA POLÍCIA FEDERAL e agora no seu discurso de saída diz o contrário, que tentou interferir sim, várias vezes. Então a pergunta que não quer calar: Quando o ex-ministro mentiu? No Roda Viva, no pânico ou discurso de saída?

  4. Vejam o que diz a deputada Carla Zambelli, em entrevista ao Datena, na internet.
    “ Moro foi covarde e decepcionante “.
    Ela é afilhada de casamento do Moro.

    • Albuquerque Lima,

      Por favor!
      Tu tens declarado, assim como faço o mesmo, que o congresso deve ser fechado porque um antro de venais, ladrões, vagabundos, irresponsáveis, e criticas ferozmente Maia e Alcolumbre.

      Agora tu me vens com uma deputada alegando que Moro fora covarde e decepcionante, NO ENTENDIMENTO DELA??!!

      Che, a meu ver, a Carla mais ainda enalteceu Moro, pois acontece sempre o contrário do que a cambada de parlamentares quer dar a entender.

  5. Não existe demissão a pedido. Valeixo foi exonerado a pedido. Exoneração a pedido pode ser apedido do diretor geral da PF ou do Presidente da República que o nomeou. O presidente usou o instituto correto. A autora do artigo esta falando besteira e com nítida má fé.

    • Errado.
      Não adianta querer misturar situações distintas.

      O “a pedido” é quando houve um pedido formal, documentado, oriundo do próprio servidor.
      Quando não consta o “a pedido”, é porque não houve esse pedido do próprio servidor .
      É o que está na LEI nº 8.112:

      Art. 35. A exoneração de cargo em comissão e a dispensa de função de confiança dar-se-á: (Redação dada pela Lei nº 9.527, de 10.12.97)
      I – a juízo da autoridade competente;
      II – a pedido do “próprio” servidor.

        • Tem que se indagar ao exonerado, Maurício Valeixo, se ele apresentou seu “pedido” de exoneração ou não.

          Caso não o tenha feito, a publicação no Diário Oficial, dessa forma, caracteriza o crime de falsidade ideológica (art. 299 do Código Penal) praticado por quem assinou o ato, ao inserir, em documento público (Diário Oficial da União), essa “declaração falsa”, para alterar a verdade do fato.

          E não se tratará de mero engano, já que o próprio Bolsonaro, na coletiva de 6ª feira, disse que telefonara para o Valeixo para lhe dizer que iria sair publicada no Diário Oficial a exoneração deste, com o trecho “a pedido”.

          Foi uma determinação, uma imposição, de Bolsonaro, de que iria ter que ser assim.

          O depoimento de Valeixo dizendo o que realmente aconteceu poderá ser a prova testemunhal do crime.

          O ato publicado no Diário Oficial será a prova material, com a indicação da autoria do crime (assinatura de Bolsonaro).

          • Até o momento não houve por parte do exonerado qualquer pedido de retificação quanto ao descrito na publicação do D.O. com a exoneração “a pedido”, De certo que não há como duvidar do que está escrito até prova em contrário.
            Grato pela atenção

  6. A batata da família Bolsonaro está assando em banho maria por acusa da pandemia.
    Quem diria que Bolsonaro iria se agarrar a ala do centrão que está, envolvida em corrupção para salvar o seu mandato?

  7. Não obstante ter confirmado o que Moro tinha dito na parte da manhã,o discurso de Bolsonaro foi tão aleatório, desfocado nos fatos, delirante e tão desviado da verdade e mal dito quanto este “interviu” na Polícia Federal que dona Tania Monteiro escreveu no seu texto (6º parágrafo)..

  8. SOSSEGUEM, LEÕES E LEOAS, pensem no lado bom da coisa. Consta que Bolsonaro fará uma nova cirurgia intestinal, e quem sabe desta feita os médicos consigam ligar corretamente as artérias e, de repente, ele passe a raciocinar com a cabeça.

  9. Uau nem com a ajuda dos robôs o boçal está ganhando do Moro, ele está perdendo fieis nas redes sociais. O estrago causado pelo Moro afundou de vez o governo do boçal. Agora este Titanic vai começar a afundar devagarinho, aí contando com a permanência no Posto Ipiranga no ministério, hoje sem mais coelhos para tirar da cartola. A coisa promete, promete ficar mais feia ainda.

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