Distribuição de renda, vergonha para o Brasil

Pedro do Coutto

Nosso país, infelizmente, encontra-se em situação extremamente desconfortável no cenário mundial em matéria de distribuição de renda. Segundo estudo da ONU, divulgado pela repórter Carolina Brígido, O Globo de 23 de julho, ocupamos a terceira pior posição, ao lado do Equador e abaixo – vejam só os leitores – até de Uganda. Na América do Sul, perdemos disparado para a Argentina, e também para o Chile e o Uruguai. E – deduz-se – se estamos mal no campo da distribuição, pior ainda no plano da concentração. Sem dúvida. Uma coisa leva à outra, pois não existe débito sem crédito. Se alguns acumularam é porque muitos perderam.

Não se trata de recorrer à dialética marxista. Ao contrário. Trata-se de colocar o problema sob o ângulo cristão. A desigualdade social é muito maior no Brasil. Basta dizer que 50% dos quase 59 milhões de domicílios que possuímos não são atendidos por rede tratada de esgotos. O déficit habitacional está em torno de 12 milhões de moradias, equivalendo a praticamente 50 milhões de pessoas. O salário mínimo é baixíssimo em comparação com os de países mais desenvolvidos. O salário médio, também: segundo o IBGE, 1 mil e 300 reais por mês.

Qual a explicação para o fenômeno tão negativo? Afinal de contas, o Brasil está entre as dez maiores economias do mundo com um Produto Interno Bruto anual de 2 trilhões de dólares. Mas não conseguimos sólida distribuição, compatível com o crescimento demográfico. E o prefeito do Rio, Eduardo Paes, ainda quer despender 3,5 bilhões com a demolição do viaduto da Avenida Rodrigues Alves. A explicação para o elenco de contradições que nos envolvem começa por um fato incontestável: os salários brasileiros perdem para a inflação anual, exceto casos singulares de algumas classes.

Mas os juros pagos pelo governo para girar a dívida mobiliária foram elevados há poucos dias para 10,5% a/a. Os índices de inflação para o período junho de 2009 a junho de 2010, de acordo com o IBGE, é de 4,8%. A renda só pode se concentrar, é claro. E estou falando dos juros governamentais. Os cobrados pelos bancos e pelo comércio são, em média, calculando por baixo, de 4% ao mês. Como é possível um absurdo desses? Não existe paralelo no mundo.

Na mesma edição de 23, O Globo publicou também no caderno de economia, matéria assinada por Marta Beck focalizando, com base em dados que obteve na Secretaria do Tesouro Nacional, que nos primeiros seis meses deste ano a dívida mobiliária foi elevada em 115 bilhões de reais, passando a alcançar o montante de 1 trilhão e 612 bilhões. Em números redondos. Percentualmente avançou 7,7%. A inflação do semestre – diz o IBGE – ficou em 3,1%. Ocorreu assim um crescimento real de 4,6%.

O processo concentrador – que é o posto da distribuição – começa aí. Diante dele, fica difícil, segundo o professor Marcelo Nery, da Fundação Getúlio Vargas, poder traduzir  qual o caminho que percorreu para concluir, em sua pesquisa, que nos últimos doze anos 32 milhões de brasileiros saíram da pobreza e conseguiram ingressar nas classes médias. Não dá. Nem na classe média inferior, nem na intermediária, muito menos, o que atingiria as raias do absurdo, da classe superior. Não há aparentemente, como. É só colocar as taxas inflacionárias acumuladas de um lado, o índice de desemprego de outro, e o reajuste dos salários no vértice do triângulo. Vamos aguardar o esclarecimento.

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One thought on “Distribuição de renda, vergonha para o Brasil

  1. Nosso país historicamente tem problemas de corrupção, acumulo de riquezas por grupos dominantes e atualmente em pleno seculo 21 mostra-se incapaz de promover reformas sociais verdadeiras como o problema da distribuição de renda que ainda não melhorou como deveria,Temos politicos incompetentes ,uma educaçao de baixa qualidade e o acesso dos pobres a vida no brasil melhora de maneira muito lenta, a miséria ainda não foi e talvez nunca será abolida porque os problemas se esbarram em grupos e minorias que não dão aminima para o povo,mesmo assim ainda existe jeito de mudar a realidade darealidade dadesigualdade no Brasil

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