DO FUNDO DA MEMÓRIA (final): Quem realmente mandava

Carlos Chagas

Quase 50 anos nos separam de 1964, não propriamente o ano em que o Brasil se dividiu, porque dividido já estava, mas o ano da ruptura explícita do país em duas metades. O diabo é que duas metades artificiais, falsas, levadas ao confronto desnecessário por força das circunstâncias e, mais do que delas, por maliciosa manobra das elites econômico-financeiras nacionais e internacionais.

Porque até hoje vende-se a impressão de que a partir de 1964 o Brasil rachou entre civis e militares, estes usurpando o poder e impondo a ditadura, aqueles vilipendiados, afastados de cena e condenados, primeiro, ao marasmo, depois à discordância, e, desta à resistência e à vitória, 21 anos depois, com o afastamento das Forças Armadas da cena política.

Na verdade, não foi nada disso, ou isso expressou apenas a casca enganadora de um conteúdo muito diferente.

Porque tanto a sociedade civil quanto a militar tinham e tem a mesma origem e o mesmo destino. Formam uma só unidade. Pensam igual e possuem objetivos idênticos. No caso, a preservação da nação, de nossa soberania e de nosso território. A presença do Estado como agente regulador das relações econômicas e sociais, fator maior da distribuição da igualdade entre a população. Mais ainda, a construção de uma realidade mais equânime e projetada para o futuro. A distribuição da riqueza nacional em termos solidários.

Era isso o que pretendiam os civis depostos pelos militares, como foi isso o que perseguiram os militares que depuseram os civis.

Fala-se do povo. Porque foram as elites as responsáveis pela ilusória e trágica divisão cultivada até hoje, inflada pela truculência com que os militares se comportaram, tanto quanto pela irresponsabilidade anterior ou a reação posterior, muitas vezes desmedida, com que certas parcelas do poder civil reagiram. O que menos importa, hoje, é saber quem nasceu primeiro, se o ovo ou a galinha.

Na verdade, era e é outra a verdadeira divisão que as referidas elites buscaram e buscam ocultar. Utilizaram os militares, há quase 50 anos, como as mãos do gato, para tirar as castanhas do fogo. Hoje, utilizam a sociedade civil, que rotulam de libertária, para obter os mesmos fins. Quais? A satisfação de seus interesses, a preservação de seus privilégios e a concentração de renda cada vez maior, em suas mãos. A prevalência de uma casta de ricos cada vez mais ricos e de uma massa sempre maior de descartáveis premidos pela indigência, o desemprego, a fome e a miséria. Civis e militares.

Por ironia, foram os militares que, no poder, ainda conseguiram preservar as linhas mestras de nossa existência como nação. Como foram os civis que, ultrapassando a ditadura, viram-se enganados e ludibriados, obrigados a aceitar o modelo cruel que nos assola cada vez mais, neoliberal, globalizante ou o que seja, responsável pela nossa débacle como sociedade independente e organizada.

Tremerão as elites no dia em que o Brasil conseguir quebrar a casca desse confronto anterior, real e justificável pela argumentação dos dois lados. Estará desfeito o muro que nos separa, artificialmente mantido como forma de alimentar a ambição e os privilégios das minorias responsáveis pelo aumento da indigência, do desemprego, da fome e da miséria.

Eleito pela indignação diante de tamanha farsa, o governo do PT encontra-se iludido por essas mesmas elites, responsáveis pela preservação do modelo que há anos nos assola, feito de falsas verdades absolutas como a de que não poderia ser diferente, já que a inflação alcançaria patamares insustentáveis, o dólar chegaria à estratosfera, o risco-Brasil nos sufocaria e os investimentos externos desapareceriam – levando-nos à desagregação.

É mentira. A desagregação está aí mesmo, expressa no objetivo oculto que nos vem sendo imposto. A quebra da soberania, a alienação do patrimônio público, a transformação do trabalhador em apêndice desimportante do processo econômico, a perda sistemática do poder aquisitivo dos salários, a supressão dos direitos sociais, a prevalência do setor especulativo sobre o setor produtivo, a avidez do capital-motel que chega de tarde, passa a noite a vai embora de manhã, depois de haver estuprado um pouco mais nossa economia, a transformação do Brasil em mero exportador de riqueza, mais do que necessária ao nosso desenvolvimento, a submissão aos ucasses internacionais – tudo isso e muito mais continuam alimentados pelos esqueletos do passado.

Mudará tudo no dia em que civis e militares se conscientizarem de estar sendo enganados e vilipendiados pela quadrilha neoliberal e dita globalizante, mesmo ao preço da cicatrização de feridas anteriores.

Haverá que encerrar estas desimportantes considerações como preliminar para os quase cinqüenta anos da eclosão do movimento militar, em 2014. Provavelmente surgirão condenações dos dois lados. Dos militares, julgando-se ofendidos pelo reconhecimento dos excessos que seus antecessores praticaram. Dos civis, que sofreram e sentem-se no direito de cobrar reparações até o fim dos tempos.

Paciência, o passado não se deu ao trabalho de passar para ser esquecido. Não nos dirá o que fazer, mas precisamente o contrário. Sempre mostra, o passado, aquilo que devemos evitar. Coisa que até agora não conseguimos, por força de quantos pretendem impedir o futuro.

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