Do heroísmo à bobagem

Carlos Chagas 

Um dos slogans no protesto-monstro de quinta-feira, em todo o país, foi a exigência de tarifa-zero para os transportes coletivos, depois da retumbante vitória do recuo das autoridades diante do reajuste anterior. As manifestações passaram, assim, do heroísmo dos últimos dias à bobagem que embriagou os manifestantes.

Claro que seria o ideal se ninguém precisasse pagar passagens de ônibus, trens  e metrôs.  Como maravilhoso também seria ao motorista abastecer seu carro nas bombas e despedir-se do frentista apenas com um “muito obrigado”.  Por que não encher o carrinho do supermercado sem passar no caixa, ou renovar o guarda-roupa numa loja de modas sob o aceno  do vendedor para voltarmos sempre?

Nem no Nirvana, sequer em Xangri-Lá, seria admissível uma situação assim. Até no Céu teremos a obrigação de adorar  a Deus, imagine-se aqui em baixo se tudo funcionar sem retribuição.

Fora exceções, a turma de empresários dos transportes coletivos constitui uma máfia igual à dos piores tempos da Sicília. Exploram ao máximo motoristas e trocadores, negando-lhes direitos trabalhistas.  Impõem horários de trabalho acima da resistência humana, deixam suas viaturas caírem de podre e exigem do poder público constantes reajustes nas passagens.  Além, é claro, de contribuir com muito dinheiro para as campanhas eleitorais  daqueles que pouco depois autorizarão os aumentos.

Estão gargalhando, os donos das empresas de transporte. Sabem que um  fantasioso sucesso da campanha pela tarifa-zero só determinará  a  ida deles  aos cofres públicos para receber pelo funcionamento de suas frotas, sem as dificuldades de contar moedinhas e  imprimir bilhetes.

Sempre haveria a hipótese da estatização de todo o sistema de transportes coletivos, que se tornariam propriedade do Estado, mas sabemos como  essas atividades funcionam, quando passam à alçada do poder público. Ficam piores.

Sendo assim, melhor fariam os manifestantes da atual temporada de protestos que voltassem a pôr os pés no chão. Resistir a reajustes na maior das vezes abusivos, e conseguir revogá-los, é um ato de heroísmo.  Clamar por tarifa-zero,  uma bobagem…

PRIORIDADE PARA OS QUE VÃO VOAR

No fim da tarde de quarta-feira,  Paulo Paim presidia a sessão do Senado, achando-se inscritos para ainda  discursar pelo menos doze senadores.  Foi quando o bravo representante do Rio Grande do Sul  escorregou, pois começou a recomendar aos colegas que se sucediam na tribuna para serem  breves. A razão era que os últimos da fila precisavam viajar. Tinham marcados seus vôos para fora de Brasília, não podiam perdê-los. Melhor que perdesse o conteúdo de seus pronunciamentos.

Note-se que era quarta-feira, dia em que Suas Excelências deveriam ficar em Brasília, já que chegam nas terças e somem nas quintas. Que não viajassem, se suas comunicações eram importantes. Ou que não discursassem, se não  eram.  Por essas e outras é que o fator de credibilidade do Congresso continua em queda livre.

UM PROGRAMA ALTERNATIVO

Se for para acreditar em certas lideranças dos manifestantes dos últimos dias, que pregam uma verdadeira revolução no país, vão algumas sugestões:

“Dobrar imediatamente o valor do salário mínimo, ou melhor, multiplicá-lo por três.

Limitar salários e vencimentos no serviço público e na empresa privada a no máximo cinco salários mínimos,  devido a todos, funcionários, trabalhadores e diretores.

Proibir que despesas pessoais de proprietários de empresas ou altos funcionários sejam pagas com recursos das empresas ou do serviço público. Só os salários e vencimentos constituirão  suas fontes de renda.

Extinguir a Receita Federal com base no princípio de que salário não é renda e de que ficam proibidos  rendimentos sem trabalho, como dividendos de ações, aluguéis ou aplicações em títulos de qualquer espécie.

Estatização imediata de bancos e empresas financeiras, com proibição de remessas de lucros para o exterior e de quaisquer quantias destinadas a investimentos e especulações  lá fora, bem como o repatriamento obrigatório de bens e recursos de cidadãos brasileiros ou residentes no Brasil, para formação de um fundo destinado a obras sociais. Sob pena de prisão e trabalhos forçados para os infratores.

Estabelecimento da cogestão em todas as empresas privadas ou públicas, com base na proporção de cinco trabalhadores para cada antigo proprietário ou diretor, dispondo aqueles do direto de veto, e estes, da prerrogativa de obedecer, sob pena de demissão.

Coletivização da terra, exceção das propriedades familiares limitadas  a um hectare, criando-se fazendas estatais dirigidas por técnicos do governo,  encarregadas de gerir a produção e assumir a direção dos agronegocios.

Estatização dos hospitais e escolas  particulares, tornando-se gratuitas as prestações de serviços, as matrículas e as mensalidades,  extinguindo-se o lucro nas atividades médicas e educacionais, bem como nacionalizar os laboratórios fabricantes de remédios, a serem fornecidos gratuitamente à população.

Fim das terceirizações, devendo todas as atividades relacionadas com o poder público serem exercidas diretamente pelo governo.

Subordinação do Judiciário à Procuradoria Geral da República, com poderes para determinar e revogar  sentenças, bem como afastar juízes suspeitos de insurgir-se contra a nova ordem.   Estabelecimento de prisão perpétua para autores de crimes hediondos, rol onde se acrescentam os crimes de corrupção e formação de quadrilha.”

Em  suma, os jovens que se interessarem por  um programa revolucionário poderão conferir essas e outras sugestões num livrinho de poucas páginas, mas um livraço em termos históricos, intitulado “Dez Dias Que Abalaram O Mundo”, de autoria do jornalista americano John Reed…

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7 thoughts on “Do heroísmo à bobagem

  1. De cara o jornalista desqualificou a reivindicação mais que justa do trabalhador e qualquer cidadão ter transporte de graça. Ele se esqueceu que aqui se paga impostos de países socialistas como os escandinavos. Impostos que tiram até a comida do povo, incidindo sobre alimentos e remédios. O jornalista não sabe que o cidadão, a maioria é pobre, vai a uma padaria e em vez de sair com quase 2 pães, leva apenas um.
    É, jornalismo assim não tem jeito.

  2. O Carlos Chagas não precisa de ninguém para enterrá-lo. Ele está sozinho fazendo isso.
    Quanto a PRESTES; ALTO LÁ!!!
    Peço ao Darcy para informar-se sobre O Cavaleiro da Esperança. Não pretendo alimentar debates sobre o nosso Dom Quixote, mas a vida e a trajetória de Prestes nada tem a ver com o super sanguinário Stalin, muito menos com o “comunismo” que este monstro praticou e deformou a compreensão de tudo.

  3. Carlos, parei de ler quanto o Sr. comparou tarifa zero a gasolina e comida Zero. abastecer seu veículo não é uma necessidade básica; ônibus sim, para ir à escola, trabalho. Se o SUS, mesmo mal das pernas, é “gratuito”, assim como as escolas e universidades, por que não o transporte? Por favor. Desqualificar a insatisfação das pessoas já é feio; com argumentos asquerosos e preconceituosos é insultar a inteligência das pessoas e tentar vencer no grito.

    P.S.: com todo respeito, bobagem é sua postura, pois duvido que fez algo de concreto pela população, até o momento.

  4. O que digo sobre a Intentona Comunista?
    Assassinos mataram pessoas … dormindo!!! Isto é História, registrada inapelavelmente!!!
    Não posso aceitar isso como defesa de qualquer regime ou modo de imposição de qualquer doutrina, por mais maravilhosa que seja no papel – como todas as demais doutrinas.
    A Comuna de Paris, grande motivadora de Karl Marx, foi um dos mais expressivos movimentos pela Liberdade e Direitos dos Trabalhadores!!!
    Prestes foi um idealizador, um sonhador que buscava a modificação de como se fazia política no Brasil. As eleições eram fraudadas, roubadas, o Feudalismo imperava (como ainda impera, agora com outras denominações) e fortunas eram construídas com o dinheiro roubado ao povo.
    Prestes percorreu 27 mil kms do território nacional, buscando a transformação de tudo. Ora, em meio a uma guerra, há violências e atrocidades. Lampião mesmo! Percorreu cidades e matou muita gente, achando que estava libertando todo um povo da bandidagem que via e existia. Antonio Conselheiro, outro bravo brasileiro!!!
    Todos, vivenciando suas utopias,cometem seus erros: mais graves e criminosos … outros menos graves. Muitas vidas foram e são (e serão) perdidas, na busca de um sistema que contemple a igualdade, fraternidade e liberdade. Para uns … o Comunismo é o ideal. Para outros … o Capitalismo é o melhor. Outros mais … creem que o Socialismo é a redenção dos povos, diante da maior falência dos países, em conjunto, em todos os tempos.
    Me diga!!! Em que ESTE sistema que aí está, é melhor do que os outros??? Milhões morrem de fome e sede, já não há liberdade, os assassinatos são cometidos com o consentimento das leis!!!
    Então … eu muito aprecio os que se embrenharam nas selvas da Vida, buscando uma luz que … acabaram não encontrando. Deram suas vidas e … não conseguiram o que desejavam.
    Morte? Tortura? É o que temos. Muitos erros, cruéis e monstruosos erros foram cometidos em nome de ideiais maravilhosos. A Intentona Comunista foi uma barbárie, assim como são barbáries as práticas dos bancos, por exemplo, que nos roubam, torturam e matam, dando-nos a sensação de que estamos acordados. Deram-nos uma injeção … adormecemos … lavaram nossas mentes … e lá vamos nós, morrendo sem nada tentar para nos livrar desta hedionda situação.
    As “intentonas” massacram e matam, desde sempre. Mas … de quando em quando … surge alguém que tenta, mesmo que atabalhoadamente, nos livrar disso. Hoje … o que temos? Um povo dizendo que vai morrer, sim, mas que morrerá acordado, lutando contra a intentona que o impuseram.
    Saudações, Darcy.

  5. A SOLUÇÃO PARA OS TRANSPORTES?! BEM UMA PAÍS ONDE NÃO É INVESTIDO EM TRANSPORTES DE MASSA NUNCA VAI SE DESENVOLVER. EXISTEM PROJETOS ENGAVETADOS COMO O TRANSPORTE DE CABOTAGEM, O TREM SEM RODAS DA UFRJ, ÔNIBUS DE HIDROGÊNIO E POR AÍ VAI! O LOBBY DOS MAGNATAS PARA EXPLORAÇÃO INCOMENSURÁVEL. QUEREM GANHAR EM DÓLAR E PAGAR OS FUNCIONÁRIOS EM REAL.

  6. Senhores,

    -Se alguém falar em melhoria do transporte público sem fazer referência às palavras metrô/trêm/ferrovia, não dê ouvidos, pois não passa de um MENTIROSO ou apadrinhado político/fantoche de alguma montadora…

    -Quanto às manifestações, os tições estão em chamas, mas espalhados desordenadamente pelo país. Só está faltando aparecer alguém de tino para juntá-los todos…

    Aí, então, teremos uma bela fogueira!

    Abraços.

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