Do jeito que as coisas estão indo, quem corre o risco de ser preso são os delegados da Polícia Federal que desbarataram o espantoso esquema de corrupção no Turismo.

Carlos Newton

Alguma autoridades governamentais, incluindo a própria presidente Dilma Rousseff, mexeram numa casa de marimbondos, ao condenar a Operação Voucher, empreendida pela Polícia Federal para desbaratar a corrupção que se instaurou no Ministério do Turismo.
Insatisfeita com o que classificou de “exageros” da Operação Voucher, a própria presidente Dilma Rousseff tomou a iniciativa de exigir que o ministro José Eduardo Cardozo, da  Justiça, cobrasse explicações da Polícia Federal sobre o uso de algemas nas prisões realizadas pela instituição.

A presidente Dilma Rousseff chamou de “acinte” a forma pela qual a Polícia Federal conduziu a operação. A seus interlocutores, disse ter visto excessos e, por isso, deu ordem ao titular da Justiça para responder de forma enérgica. Segundo a Folha apurou, ela ficou “furiosa” ao ver, logo pela manhã, a foto de um dos detidos chegando algemado a Brasília.

Tratava-se do secretário-executivo do Ministério do Turismo, Frederico Silva da Costa, até agora tido como o principal líder do esquema de desvios de verba no Ministério do Turismo e que inclusive ensinava aos dirigentes de ONGs e empresários as maneiras mais eficazes de fraudar as verbas públicas, que provêm do dinheiro do povo, ou do cidadão-eleitor-contribuinte, como costuma dizer o inigualável Helio Fernandes, que tanta falta faz a esse blog e ao grande debate nacional que ora se trava.

O vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB), cujo currículo inclui a atividade de professor de Direito Constitucional, com quatro obras publicadas, sentenciou que houve “exageros da Polícia Federal nos últimos acontecimentos em Brasília, acrescentando que, segundo ele, “pegou muito mal se colocar algemas nos suspeitos das irregularidades”.

O vice-presidente reclamou da falta de “provas robustas” contra os presos na Operação Voucher. “Evidentemente que os exageros dos últimos acontecimentos, que são notórios, não surgiram de uma coisa gravíssima. De vez em quando eu ouço que há provas robustas. Mas cadê as provas robustas?” – reclamou Michel Temer, durante solenidade de filiação do ex-governador Luiz Antonio Fleury Filho ao PMDB.

Pois o jurista Michel Temer perdeu uma boa oportunidade de ficar calado, pois foi imediatamente desmentido pelo procurador da República no Amapá, Celso Leal, que garantiu serem “robustos” os índícios de crimes, tanto assim que está dando entrada a pedido de bloqueio dos bens dos envolvidos em desvios de verbas do Ministério do Turismo.

Temer tem suas razões para atacar a Polícia Federal. Mas ainda há quem se lembre de que, na Operação Castelo de Areia, que investiga corrupção envolvendo a construtora Camargo Corrêa, seu nome é citado 21 vezes em listas apreendidas da contabilidade paralela da empresa. O atual vice-presidente também é citado como beneficiário na Operação Caixa de Pandora, que investiga o chamado “Mensalão do DEM” no Distrito Federal, na gestão do governador José Roberto Arruda, cassado por corrupção. Mesmo com esses antecedentes, Temer foi indicado para a chapa de Dilma como vice e acabou eleito, vejam só a que ponto chegou a política nacional.

Agora, o poderoso vice-presidente apenas aproveitou a oportunidade para tentar dar um troco à Polícia Federal, sem pensar que isso pode lhe custar muito caro, provocando novas investigações sobre o telhado de vidro dele.

Já a presidente Dilma Rousseff mostrou imaturidade e falta de experiência política, criticando uma importantíssima ação policial que deveria ser louvada por ela, se é que realmente pretende fazer a tal faxina no governo. Antes de apontar erros dos delegados e agentes, ela primeiro deveria demonstrar total apoio à operação, fazendo depois então a ressalva de que houve exagero no tocante às algemas, mas sem fazer disso um cavalo de batalha.  

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PF AMEAÇA FAZER GREVE

Delegados e peritos da Polícia Federal não aceitam as críticas do governo de que houve exageros na Operação Voucher. Em comunicado no qual ameaçam cruzar os braços se não tiverem suas reivindicações atendidas – que incluem o fim dos cortes orçamentários e da terceirização, além da retomada dos concursos públicos – os delegados e peritos aproveitaram para dizer que as críticas “repercutiram negativamente entre essas duas carreiras”.

“A Polícia Federal já está sofrendo com a agenda econômica do governo (cortes orçamentários), não pode ser pautada também pela sua agenda política – disse o presidente da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF), Bolivar Steinmetz. E além da ADPF, assinam o comunicado a Federação Nacional dos Delegados de Polícia Federal e a Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais.

A consequência desses ataques à Polícia Federal pode ser auspiciosa. Certamente, a partir de agora a corporação vai agir ainda com mais rigor no combate ao crime organizado na administração pública, e ninguém sabe bem aonde isso vai parar.  

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VEJA UMA PROVA “ROBUSTA”

A mais “robusta” prova até agora colhida incrimina o secretário-executivo do Ministério do Turismo, Frederico Silva da Costa, segundo homem na hierarquia da pasta e tido como o principal chefe da quadrilha que dominava o Ministério do Turismo.

Sua audácia era tamanha que ele conversava abertamente ao telefone com outros envolvidos nos golpes. Numa das conversas gravadas com autorização judicial, o secretário-executivo ensina ao empresário Fabio de Mello como usar o endereço de um prédio imponente para dar credibilidade a uma de suas empresas envolvidas nas fraudes investigadas na Operação Voucher.

Segundo a denúncia, a empresa de Mello foi contratada pela ONG Ibrasi (Instituto Brasileiro de Desenvolvimento de Infraestrutura Sustentável) para simular a prestação de serviços financiados pelo ministério.

– Pega um prédio moderno aí, meio andar, fala que tá com uma sede que está em construção – disse Frederico na gravação.

– A gente tem um prédio de três andares, grande – responde Fábio.

– Mas o importante é a fachada. Tem que ser uma coisa moderna que inspira confiança em relação ao tamanho das coisas que vocês estão fazendo – insiste Frederico.

Ao colher o depoimento do ex-secretário-executivo do ministério, o procurador da República Celso Leal perguntou se Frederico costumava orientar outros empresários a usar artifícios para receber dinheiro do ministério. O secretário usou o direito de permanecer calado e não respondeu nem esta nem outras perguntas. Ia dizer o quê?

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