Do poder e seus demônios

Sandra Starling

Tento acompanhar as manifestações de rua. E procuro também ficar atenta ao que pode ocorrer com a intromissão na crise de aproveitadores históricos. Afinal, vivi o pré-64 como membro da direção do Sindipetro-MG e, por tal motivo, fui cassada em 11 de maio de 1964.

Não tenho lastro suficiente para enfrentar discussões eruditas. Tenho, porém, a vivência de momentos de nossa história e devo tentar contribuir para perceber melhor o que nos aflige.

A maior parte dos textos que li contém lacunas históricas graves. A principal delas, creio, o esquecimento de que a redemocratização no Brasil se deu através de uma “transição conservadora” e que muitos problemas ainda se devem ao fato de que a Constituição cidadã foi uma colcha de retalhos: manteve intacta a concentração de arrecadação no governo federal, em curso desde a reforma tributária de Roberto Campos. Não reviu, portanto, o pacto federalista em um de seus pilares mais importantes (autonomia financeira); práticas hoje consideradas entraves se devem a controles da reforma administrativa do Decreto-Lei 200/67; e a distorção da representação parlamentar, que priorizou o Norte e o Centro-Oeste, feita por Geisel. Para citar apenas esses exemplos.

ESTATUTO DA TERRA

Também erram os que atribuem os avanços sociais apenas à Carta de 1988: esquecem-se de que o Estatuto da Terra e que o voto dos analfabetos (ainda que apenas no plano municipal) foram criações de Castelo Branco: o primeiro, não aplicado, boicotado pelos ruralistas e muito mais avançado do que os dispositivos sobre a questão agrária consagrados nessa Constituição. O voto dos analfabetos, na proposta de Castelo, foi derrotado no Congresso e introduzido (na verdade, reintroduzido) não em 1988, mas em 1985. A maior parte dos direitos sociais de 1988 não é autoaplicável, e alguns dormiram na gaveta até de seu próprio autor (como a única emenda feita pelo constituinte Lula, que previa a substituição do FGTS pela proibição de demissão imotivada).

Desqualificar a juventude que lotou as ruas, por serem “coxinhas” que ganham seu carro aos 18 anos e assim contribuem para a imobilidade urbana, é esquecer que foram também milhares de jovens ricos (“radicais chiques”) que ajudaram a fundar o PT, porque, naquela época, muitas universidades que eles frequentavam não formavam para subir na vida, mas para tentar beneficiar o país.

O que provocou o entupimento das ruas foram os subsídios concedidos pelos governos petistas. Dizer hoje que o PT sempre lutou por uma reforma política não corresponde à verdade: o partido nunca levou a sério essa reforma e se omitiu no auge da popularidade de Lula e Dilma. Ademais, a liberação de qualquer amarra legal ao sistema financeiro foi feita no ano de 2003 (Emenda Constitucional 40).

Portanto, nem tudo se deve às políticas decididamente neoliberais de FHC: demônios, infelizmente, frequentam todas as siglas partidárias quando passam a querer ficar mais de 20 anos no poder. (transcrito de O Tempo)

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3 thoughts on “Do poder e seus demônios

  1. Qual é o fato gerador de tanta instabilidade política e social ?

    A impressão é que o continuismo da mesmice, em suas três versões, oposição, situação e gollpismo (e seus agregados e tentáculos, inclusive midiáticos), sem interesse em elaborar e desenvolver projetos novos e alternativos a tudo isso que aí está e sempre esteve, enquanto dínamos da instabilidade política e social que lhes convém e lhes garante acesso ao poder, em sistema de rodízio, à moda tudo e qualquer coisa por poder e dinheiro, continua nos tratando a todos como debilóides, massa de manobras, de olhos nas pesquisas, como de costume, crentes de que não existe outra opção além delles: oposição, situação e gollpismo (agregados e tentáculos), e de que somos incapazes de gerar uma Mega-Solução a tudo isso aí, desprendida e independente dos mesmos de sempre, travestidos em novas epidermes porém com a mesma mentalidade antiga,que os faz jovens-velhos, politicamente falando. Portanto, urge ousarmos lutar para mudar o perfil do político no Brasil e no mundo e resgatarmos o sentido da Política, como propõe a Meritocracia Eleitoral, capaz de dar um tempo a esse modello tribal de luta pelo poder que aí sempre esteve, de nivelar por cima os resultados eleitorais e dar estabilidade longeva ao país, e, sobretudo, à sociedade poder trabalhar, planejar e viver em paz em tantos solavancos por conta da guerra tribal pelo poder. O laço já está jogado no pescoço do dito cujo, falta apenas a sociedade ajudar o HoMeM a puxar a corda.

  2. Muito bom o seu artigo. Levemente discordo quando fala das manifestações recentes predominantemente constituidas de “coxinhas”. Quem estava nas ruas era a classe média vilipendiada e com suas organizações sociais tradicionais (sindicatos, organizações de base, etc) no controle da situação governista. Na realidade, quem estava ali era a sociedade civil mais esclarecida, principalmene, que não aguentava mais ver suas insatisfações nas ruas. Felismente, a tecnologia mais uma vez foi a causadora da revolução. E que revolução. Há que se fazer ainda essa leitura mais aprofundada. Não é que sejamos os primeiros, mais foi muito bem copiada de outras sociedades recentemente.

  3. Ainda com relação ao texto anterior, onde se lê “não aguentava mais ver suas insatisfações nas ruas” leia-se “não aguentava mais não ver suas insatisfações nas ruas”. E, é claro, felizmente e não felismente.

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