Do turfe ao futebol, uma sucesso imprevisvel

Carlos Chagas

Para quem ainda cultiva o desvalido esporte do turfe, seno na reta final, entra a sucesso presidencial na reta oposta. Dilma Rousseff no decolou, ao menos como precisava. Seus mentores vo adiando o tempo da virada: agora esticaram para maro a chegada da candidata aos 20% das preferncias nas pesquisas, mas j esto preparados para sustentar que junho ser o ms das decises. Jos Serra marca passo um pouco abaixo dos 40% e assusta os tucanos por no haver crescido depois da retirada de Acio Neves do preo, por enquanto infenso a compor a chapa com o governador paulista. O favorito tambm no tirou vantagem da indeciso de Ciro Gomes. Acresce que os votos escapulindo do ex-ministro da Integrao Nacional no irrigaram a floresta de Marina Silva.

A chave para se decifrar o enigma chama-se PMDB, fracionado depois que o presidente Lula rifou Michel Temer como candidato a vice da companheira. Srgio Cabral volta a ser uma hiptese, ouve-se falar de Hlio Costa, mas um prefere ficar no governo do Rio e outro, conquistar o governo de Minas. Henrique Meirelles parece carta fora do baralho, Edison Lobo no tem nada de bobo. Quem se beneficia da confuso Roberto Requio, j tendo colocado na rua a procisso da candidatura prpria, capaz de aglutinar os diversos setores conflitantes do partido. Inclusive Orestes Qurcia, que s fica com Jos Serra se Requio refluir, valendo o mesmo para Jarbas Vasconcelos.

Em suma, e mudando do turfe para o futebol, a verdade que embolou o meio campo sucessrio. No h certeza de que a popularidade ampla do presidente Lula poder transferir-se para Dilma Rousseff. A cautela de Jos Serra faz supor dificuldades de a eleio ser decidida no primeiro turno, bem como a evidncia de que, no segundo, tudo pode acontecer.

O Poder e a tica

Vem de tempos imemoriais a concluso de que as leis constituem inveno dos fortes para continuarem a governar os fracos. Assim como, no reverso da medalha, a evidncia de que os fracos inventaram a tica para limitar o poder dos fortes.

A verdade pode estar no meio dessas duas paralelas que o presidente Lula manobra melhor do que ningum. Seu governo , ao mesmo tempo, dos fortes e dos fracos. Das elites, que privilegia como nenhum outro governante antes dele, e das massas, cujas necessidades atende de forma jamais registrada na Repblica.

O primeiro-companheiro alcanou uma situao difcil de ser imitada, emergindo da a pergunta que no quer calar: acontecer o que quando seu sucessor, qualquer que seja, inevitavelmente quebrar esse ponto de equilbrio?

As elites, felizes com o Lula, desconfiam de Dilma Rousseff, apesar dela jurar vinte vezes por dia que seu governo ser de continuidade. Da mesma forma as massas olham de vis para Jos Serra, no obstante ele estar a quilmetros de distncia do modelo tucano de governar, expresso por Fernando Henrique.

Tanto faz quem se eleja, contar com a hostilidade dos derrotados, num grau muito maior do que aquele hoje encenado pelas oposies de mentirinha.

Quem garante que no fundo dessa crise eclodida em torno do decreto dos Direitos Humanos no repouse a intransigncia das Foras Armadas diante da hiptese de prestar continncia a uma ex-guerrilheira? Ou que as esquerdas lideradas pelo PT, a CUT, o MST e afins iro comportar-se diante do governo Serra com a mesma tolerncia e at subservincia como se comportam diante do governo Lula?

A concluso fica por conta de quem quiser, e de quem vier…

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