Dois em um

Sebastião Nery

Voltando de Londres, depois da renúncia à Presidência da República em agosto de 1961, Jânio surpreendeu mais uma vez o país lançando-se candidato ao governo de São Paulo contra Adhemar de Barros e José Bonifácio Nogueira, candidato de Carvalho Pinto.

Jânio saiu numa campanha forte, responsabilizando as “forças terríveis” que haviam levantado um muro diante de seu plano de governo. O slogan do publicitário, depois deputado, João Dória era a síntese do esquema da campanha: “A renúncia foi uma denúncia”.

Ademar, contido a duras penas pela sua assessoria política e publicitária, mudou o velho tom, bonachão mas duro. Não atacava Jânio, não falava na renúncia, pregava a paz e a tranquilidade para um Estado ainda traumatizado pelo gesto do ex-presidente, que deixara o país e sobretudo São Paulo deserdados pela renúncia.

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ADEMAR

A campanha ia chegando ao fim. Jânio crescendo nas prévias eleitorais, Ademar impaciente, mas obedecendo ao staff. No comício de encerramento, em São Carlos, explodiu. Deixou de lado os conselhos e o projeto de discurso discutido com a assessoria e voltou ao velho tom, direto, irreverente, aberto, cara a cara com o povo. Foi um sucesso:

– Povo de São Paulo, eu não aguento mais. Esse homem é maluco. Ele vai botar o professor Carvalho Pinto na cadeia. Ele vai me botar na cadeia. Outra vez! Meu Deus, lá vou eu de novo para a Bolívia!

Estava em lágrimas. Ganhou por 30 mil votos. Com aquele discurso.

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JANIO

No meio dessa campanha de 1962, em que se candidatou pela segunda vez ao governo de São Paulo contra Ademar, o vice de Janio era o brigadeiro Faria Lima. Laudo Natel saiu candidato sozinho, em faixa própria. Parecia clara a vitoria de Jânio e de Faria Lima.

Amador Aguiar, o homem do Bradesco, telefonou para o ex-presidente e marcou encontro na casa de um funcionário do banco. Queria que Jânio retirasse a candidatura Faria Lima para apoiar Laudo, diretor do Bradesco e presidente do São Paulo Futebol Clube:

– Dr. Jânio, sei que sua campanha está com muitas dificuldades financeiras. Poderíamos resolver o assunto e assim seriam eleitos o senhor e o Laudo, que eu trouxe comigo para o senhor conhecer pessoalmente.

– Meu caro, já estou eleito. O povo já manifestou sua preferência. Mais uma vez, Dr. Amador. Vou ganhar em São Paulo e em todas as grandes cidades. Nem vou mais às pequenas, porque não precisa. Está na hora de ver quem é ou não é meu amigo, para não haver queixas depois.

– Mas, presidente, o Laudo está mais forte do que o Faria Lima. Juntos, daremos uma surra no Ademar.

– Não posso, meu caro. Não posso trair o Faria, que é meu amigo dileto. Di-le-to, entendido?

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LAUDO

Na ponta da mesa, baixinho, caladinho, ao lado de José Aparecido, Laudo não tugia nem mugia. Jânio chamou-o para sentar-se mais perto:

– Doutor Laudo, o senhor já foi candidato antes a alguma coisa?

– Não, presidente. Não gosto de política. Foi seu Amador que mandou. Abaixo de Deus, é o pai que eu conheci.

– Mas de futebol o senhor gosta. É presidente do São Paulo.

– Também não gosto de futebol, presidente. Foi seu Amador que mandou. Abaixo de Deus, foi o pai que conheci. O senhor não imagina o homem bom que ele é.

O acordo não foi feito. Jânio perdeu por 30 mil votos (das pequenas cidades que não visitou). Laudo (quer dizer, seu Amador, o pai que ele conheceu) ganhou para vice. E Ademar se elegeu governador.

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LULA

Lula é uma mistura de Janio com Ademar. No palanque, parece Janio: esbugalha os olhos, engrossa a voz, coça a barba em vez dos cabelos que tem poucos e o que diz é sempre o contrario do que pensa.

E a Caixinha de Ademar é o Mensalão de Lula.

sebastiaonery@ig.com.br

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