Dois homens de branco

Sebastião Nery

Vendo aquele homem de branco, todo encurvado, bengala na mão, entrando de pés descalços numa mesquita de Damasco, na Síria, na  primavera de 2001, eu me lembrei do homenzarrão alto e forte, vermelho, cara de camponês descido de montanhas nevadas, boina roxa e batina preta  que conheci em novembro de 57 no Instituto Católico de Cracóvia, Polônia.

Era então  um padre de 36 anos.. Não podia imaginar que no ano seguinte (1958) ele seria bispo, 10 anos depois (1968) cardeal, 20 anos depois(1978) papa, 41 anos depois (2001)o peregrino da paz despedindo-se.

Peregrino da vida a caminho da morte, voltava de ombros curvos e bengala da mão aos caminhos por onde andaram os três grandes fundadores do cristianismo, Jesus o Messias, São João Batista o precursor;  São Paulo o pregador: Atenas, Jerusalém e Damasco, Grécia, Israel, Palestina e Síria.

O PRIMEIRO

Aquele homem de branco que descia do avião e já não beijava o chão, que era estranho quando ficava olhando para lugar nenhum e para todos os lugares, que dizia coisas mansas e às vezes dizia coisas duras, que falava do reino do céu e ajudou a derrubar o maior reino da terra neste século, cujo nome era Karol e já tinha sido Lolek,  que tinha uma bela história de padre e de homem e dizia que vinha de Roma mas vinha de muito mais longe, das dores mais dolorosas do século.

Por isso ele era assim, um retrato vivo pregado na cara da história. A mesma Igreja que comandou a Inquisição, o mais longo período de crueldades da história da humanidade, estendia a mão e pedia perdão. A mensagem de tolerância era exatamente no pedaço de mundo, onde, hoje, mais homens e mulheres se matam, por desavenças raciais e religiosas.

JOÃO PAULO

Viveu  tudo. Os nazistas chegaram, fecharam a universidade, levaram os professores para um campo de concentração e os alunos para carregarem pedra numa pedreira, em um frio de 30 graus abaixo. Passava vaselina no rosto para não rachar. Voltava a pé para casa de noite.

Uma quase madrugada, na estrada, um caminhão alemão passou por cima dele, fraturou o crânio. Foi encontrado em um barranco, sobre a neve. Viveu para sair por ai de branco e bengala, beijando o chão e pedindo paz.

O SEGUNDO

Ontem chegou ao Rio outro homem de branco, com a mesma cara de paz. De paz ele também entende, porque entende de povo e pobreza. Anos atrás, em campeonatos surfistas na Argentina, meu filho muitas vezes viu, aos domingos, o padre depois bispo Bergoglio celebrando missa na pequena igrejinha do bairro de Flores em Buenos Aires, onde havia nascido e passado infância e juventude e onde meu filho até hoje é amigo de seus amigos.O padre, cardeal e papa Bergoglio continua o mesmo simples e bom

Vamos ouvi-lo, devolver-lhe o carinho, o afeto, o sorriso bom.

DIPLOMATAS

O embaixador Carlos Alberto Leite Barbosa, que se aposentou depois de uma das mais brilhantes carreiras do Itamaraty, passando quinze anos entre Roma, Paris e Washington, correu o mundo no começo da carreira e os filhos falando e vivendo línguas diversas. Uma noite, esperava uma visita em casa para jantar e o filho de cinco anos lhe perguntou:

– Pai, com que boca falo hoje?

Mas as línguas não perturbam apenas os filhos dos diplomatas. Ernesto Tirone, médico jovem e missionário, o único de Lafaiete Coutinho, pequena cidade no distante sertão no interior da Bahia, ia para lá toda segunda e voltava sexta para Salvador.Igor, o filho de três anos, também era um generoso. Consertou o Pai-Nosso que a mãe lhe ensinou a rezar:

– “Em nome do pai, do filho…da mãe, da irmã… e do Espírito Santo”.

MÉDICOS

A irmã Lara estudava inglês para passar férias com a tia nos EUA. Igor ouviu dizerem que a irmã ia “para o exterior”, perguntou a Tirone:

– Pai, você já aprendeu a falar a língua do seu interior?

Os barões da medicina no Brasil estão criminosamente contra o  programa “Mais Médicos”, uma das ótimas, inadiáveis decisões do governo Dilma. O pais tem 700 municípios sem médicos. Eles não vão e não querem deixar ninguém ir. Só porque não falam a língua do bolso deles.

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12 thoughts on “Dois homens de branco

  1. Caro Sebastião Nery
    Deveriam ser inadiáveis antes da chegada de médicos, a chegada aos postos e hospitais de:
    -gaze
    -esparadrapo
    -macas
    -soro fisiológico
    -material para sutura e curativo
    -bloco de receita
    -leitos para doentes
    são estas as prioridades.
    É isto que faltando aos postos de saúde e aos hospitais.

  2. Pela 1ª vez discordo do brilhante Nery,mas sem REVALIDA,não dá!Desorganiza as estruturas dos CRMs,traz duplicidade de conduta,desautoriza um Orgão,o desmoraliza.Afinal é um Exame necessário,ou não?Porque brasileiros formados na Bolívia têm que fazê-lo e outros,por ordem do governo,não?É impossível administrar essa dualidade.Antes é uma questão de coerência.E digo mais:não há nenhum médico preocupado que “lhe tomem estas vagas”,nunca iriam para lá mesmo!Abraço,admirador.

  3. Tanta indgnação com a vinda de médicos de fora do BRASIL ,MAS NENHUMA ,com o descaso de muitos médicos com milhares de brasileiros que padecem em hospitais e postos de saúde ,que depois de muito sofrimento com a demora e o humor “flutuante” recebe aquele diagnóstico de virose e que muitas vezes volta frustado e doente para o trabalho ,porque no alto de sua arrogância o médico nega-lhe um atestado ,sem falar nos rincões onde os estudados médicos brasileiros não querem nem passar por perto,que não se renda o governo à tal e medíocre pressão e traga pelo bem do povão o mais rápido que puder esses profissionais até do fim do mundo se preciso for, ASS.um simples cidadão .

  4. Nery, sou artigo tem um defeito que pode ser corrigico sem esforçp. Não é que os édicos brasileiros não queiram médicos estrangeiros para aumentar seus ganhos. Não querem médicos estrangeiros que ão pssem no exame de revalidação de seu título. E mais que possam ser responsabiliados por seus erros profissionais. Como acontece em todo mundo. Sá isto. Antecipo meus agradecimentos por sua atenção.
    Luzi Salvador de Miranda Sá Jr.

  5. Nery,

    Você é inigualável nas suas matérias. Um Ser superior que transcende ao mundo dos mortais. Uma enciclopédia viva. Vida longa para você e muita saúde.

    Desse que apenas o observava nas ruas do Rio mas nunca me aproximei para desejar-lhe sorte na sua caminhada.

    Mauro Coutinho

  6. Nery sou um admirador dos seus artigos,mas,o que me intriga é o abandono dos hospitais públicos,totalmente sucateados pelos nossos governante,os salários miseráveis pago aos profissionais de saúde, enfim a saúde e a educação nunca foram prioridades desses governantes,agora num passe de mágica queriam trazer seis mil médicos de Cuba,e o pior,impedir esses médicos de fazerem o cadastro,convenhamos: tem alguma coisa estranha
    nesse processo,e mais, o povo nunca é consultado,agora graças aos protestos,a população está conseguindo mudar esse quadro.

  7. Vamos descentralizar as decisões do Brasil. Cada Estado que decida se precisa ou não precisa de médico cubano. Como é que a coitada da Dilma vai administrar o Posto de Saúde de Manaus e de Pelotas ao mesmo tempo?

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