Dois impactos novos: a delação da Odebrecht e a eleição na Polícia Federal

Desta vez, Marcelo Odebrecht vai contar tudo o que sabe

Pedro do Coutto

Não há dúvida de que ocorreram dois impactos extraordinariamente fortes na sequência da Operação Lava-Jato: a delação que Marcelo Odebrecht agora se revela disposto a fazer e a surpreendente e repentina eleição realizada pelos delegados de Polícia Federal para escolha do sucessor de Leandro Daielo na direção geral. Duas reportagens destacam os temas: a de Renato Onofre e Cleide Carvalho, no Globo; e a de Júlia Affonso, Fausto Macedo, Mateus Coutinho e Ricardo Brandt, no Estado de São Paulo. Ambas nas edições de quarta-feira.

Vamos por etapas. Marcelo Odebrecht não está sozinho na iniciativa. Pelo contrário. Com base na reportagem de O Globo, estará acompanhado por Leo Pinheiro, da OAS. Duas bombas arrasadoras. Principalmente aquela a ser destinada pelo ex-presidente da Odebrecht, de altíssimo teor explosivo. Suas revelações têm alcance para atingir nada menos que 300 políticos, empresários e administradores públicos, além dos intermediários de sempre. Basta lembrar que a Odebrecht criou até um departamento para administrar a difícil contabilidade da propina produzida na fonte de uma corrupção gigantesca.

TRÍPLEX E SÍTIO

O potencial da OAS pode, naturalmente, ser menor, mas com capacidade suficiente para balançar os alicerces de certo apartamento no Guarujá e de um sítio em Atibaia. A convergência das revelações de Marcelo e Leo Pinheiro vai conduzir a um cenário ainda mais oculto do que as camadas do pré-sal. O elenco a ser iluminado deverá proporcionar tanto confirmações quanto revelações.

Aliás, a cada episódio da Operação Lava-Jato fatos e mais fatos saem das sombras e são expostos à luz do sol. Assim deve-se esperar das delações de Marcelo e Léo.

Mas, enquanto se aguarda, o que nós, leitores, vamos conferir o que podemos interpretar das eleições repentinas na Polícia Federal.

SURPRESA NA PF

Saímos de O Globo e ingressamos na matéria de O Estado de São Paulo. O jornal revela até o resultado do pleito através do qual formou-se uma lista tríplice para que o presidente Michel Temer escolha o substituto de Leandro Daielo na direção da Polícia Federal. Não se sabia nem da convocação às urnas, tampouco do processo de substituição. Uma completa surpresa. Sobretudo porque, como lembram Júlia Affonso, Fausto Macedo, Mateus Coutinho e Ricardo Brandt, logo no início do governo o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, afirmou taxativamente que Leandro Daielo seria mantido no cargo. O trabalho de Daielo construiu a mais sólida base da Operação Lava-Jato. Mas não só houve eleição, como O Estado de São Paulo já divulgou os resultados.

Na lista tríplice, à frente, com 1.065 votos, a delegada Erika Mialik Marena, integrante da PF de Curitiba. Em segundo, Rodrigo de Melo Teixeira, 924 votos. Em terceiro Marcelo Eduardo Frites, 685 sufrágios. O Estado de São Paulo assinala que a escolha do diretor geral à base de uma lista tríplice constitui antiga reivindicação dos delegados. Surpresa? Claro. Mas ela não termina neste ponto.

É UMA INOVAÇÃO?

Por qual motivo Leandro Daielo não foi incluído entre os elegíveis? Ou ele não desejou concorrer e, assim, pelo silêncio, condenar a repetida fórmula para escolher quem vai substituí-lo?  O fato é que tal processo repentino não se encontra na prática em vigor. Até porque se estivesse, o ministro Alexandre de Moraes não poderia ter assegurado a Leandro Daielo sua permanência à frente da Polícia Federal.

Alguém resolveu substituir Daielo. Quem? Pelo visto, a impressão predominante é de que o autor pode ter sido o próprio presidente Michel Temer.

Para decifrar o enigma e responder objetivamente à pergunta, ninguém melhor do que o ministro Alexandre de Moraes. A opinião pública espera um esclarecimento. Tem direito legítimo a isso.

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