Dois velórios, duas medidas?

Érika Camargo

No dia 18 de abril de 2013 morre o artista plástico J. Murilo, vítima de parada cardíaca. Atendendo ao pedido do artista de ser velado entre suas obras, Maris Stella Schiavo Novaes, coordenadora do Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima (CCCJL) de Vitória da Conquista, concorda que seu velório ocorra neste espaço cultural. Consequência: exoneração da coordenadora, por ter contrariado o Artigo 4, Inciso V, das normas que controlam os espaços públicos submetidos à Secretaria de Cultura da Bahia (SecultBA).

Em comunicado oficial da SecultBA: “Com o objetivo de manter a relação de transparência e de diálogo com a sociedade, a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA) informa os motivos que levarão à exoneração da coordenadora do Centro de Cultura de Vitória da Conquista, Sra. Maris Stella Novaes. […]a SecultBA lamenta o falecimento do artista plástico J. Murilo, reconhecendo sua importância para a cultura de Vitória da Conquista e o carinho da população para com ele. No entanto, afirma que não havia como abrir exceção para seu velório, uma vez que não pode abrir precedentes em seu próprio regulamento. Para a SecultBA, a melhor forma do Centro de Cultura honrar a memória deste artista seria cedendo seus espaços para eventos que divulgassem e perpetuassem sua vida e sua obra, com exposições de seus trabalhos ou outras atividades culturais em sua homenagem.”

No dia 3 de junho, o bailarino Augusto Omolú é velado no Teatro Castro Alves (TCA), com a anuência da SecultBA, menos de dois meses após o “incidente” do CCCJL. Consequência? Comoção. Ou contradição?

DISPARIDADE

Uma democracia é sustentada pela transparência das ações e pela universalidade dos direitos, fundamentos que devem ser respeitados por governantes e governados, uma vez que a lei deve ser igual para todos. Mas não é isso que se observa nos acontecimentos acima relatados, em que as mesmas ações resultaram em desdobramentos diferentes: num, culminou com a exoneração do governado pelo governante, por ter infringido a lei; no outro, o governante infringiu a mesma lei, mas nada aconteceu. Dois pesos e duas medidas? No caso, dois velórios e duas medidas?

Logo após a notícia da exoneração de Maris Stella, começou um movimento que até hoje está de pé, movimento este que ficou conhecido como “Somos Todos Maris Stella” realizando passeatas, ocupações do CCCJL, intervenções culturais, shows, saraus… Mas, a Secretaria de Cultura da Bahia mantem-se alheia a essa movimentação, não dá nenhuma resposta às dezenas de pessoas que se mobilizam semana após semana nesses últimos meses.

Mas enquanto esse movimento ocorre em Vitória da Conquista com o alheamento da Secult, em Salvador, o corpo do bailarino Augusto Omolú é velado no foyer principal de um dos mais importantes espaços públicos da Bahia, o Teatro Castro Alves, regido pela mesma legislação dos Centros de Cultura. Nenhuma frase é pronunciada a esse respeito. Não há dúvidas de que Omolú é importante para a cultura baiana e ele não deve ser, de maneira alguma, desmerecido. Mas a seletividade da legislação precisa ser questionada, e a Secretaria de Cultura tem que demonstrar que realmente acredita na importância da transparência que é declarada no comunicado oficial por ela transmitido.

 

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4 thoughts on “Dois velórios, duas medidas?

  1. Sr. ou Sra. Darcy, argumente as suas afirmações. Pois a única coisa que me pareceu estranho até o presente momento, aqui, foi seu comentário. Para mim foi descabido e “muito mal” fundamentado.

  2. Sr. ou Sra. Darcy, argumente as suas afirmações. Pois a única coisa que me pareceu estranho até o presente momento, aqui, foi seu comentário. Para mim foi descabido e “muito mal” fundamentado!!! Grato!

  3. Mas, há um detalhe que me passou despercebido. Se essa função da coordenadoria é de confiança, porque aí não há necessidade de justificativa para exoneração. Estou cansado de ver e ouvir servidores estatutários e funcionários celetistas da administração pública, no último caso de empresas públicas aqui do Rio, que se acostumaram mal e querem se eternizar em cargos de confiança, chefias de departamentos ou nomenclaturas semelhantes, para manterem os valores de seus contracheques dobrados. Tornam-se até sem vergonhas, maus colegas de trabalho e ingratos, cada vez que mudam os governos.

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