Dona Marina: ‘Rede’ em vez de ‘Partido’, não é o maior problema. Primeiro tem que arranjar 500 mil assinaturas, e depois abandonar a ideia fixa, que os 20 milhões de votos que teve em 2010 são dela mesmo. Não chegará a lugar algum.

Ulisses não tinha cacife para governador
ou senador, 
queria ser presidente.
Tancredo só queria ser governador, 
chegou
a presidente, ‘empurrou’ a carreira de Sarney.

Helio Fernandes

Tanto faz. Rafael de Almeida Magalhães tentou fundar um partido em 1965. Não queria entrar no MDB nem na Arena, fundou o Parede. 45 anos depois, as quatro últimas letras indicadas por Dona Marina, são as mesmas encontradas por Rafael. O dele não vingou, o dela até que pode existir, mas sem chance de ganhar alguma eleição importante.

Em 1980, o “presidente” João Figueiredo mandou chamar, com urgência, Ulisses e Tancredo. Estavam almoçando juntos, pela categoria do emissário, largaram tudo, afirmaram apenas: “Nós nos encontraremos logo no Planalto”. Resposta seca do emissário: “É no Alvorada”.

Ulisses só pensava na presidência, Tancredo nem sonhava com isso, só queria ser governador de Minas. Havia fundado o PP (Partido Popular), um domingo me chamou ao seu apartamento na Avenida Atlântica (edifício que hoje tem o seu nome), um vazio completo, só ele e eu naquele “casarão” enorme.

Todos diziam: “O PP não é nem governo nem de oposição”. Eu era intransigentemente oposicionista, tinha bom relacionamento com Tancredo, mas o que estava fazendo ali? Tancredo gostava de falar, mostrou logo seu trauma que completava 20 anos: candidato ao governo de Minas em 1960, favoritíssimo, tendo à sua disposição o maior partido nacional, o PSD, foi derrotado pela UDN de Magalhães Pinto.

Quando criou o PP, não escondia que queria ser governador, ao contrário de Dona Marina, que “finge” querer apenas um partido, não necessariamente para que ela dispute a presidência. (Os partidos deveriam ser obrigados a disputarem a presidência, e realizarem projetos e programas. Se tiverem.)

Tancredo foi desfilando histórias e destilando amarguras, até que horas depois, tocou a campainha, mandou tirar o almoço (já hora de jantar) e disse: “Helio, desculpe minha obsessão por não ter sido governador, te chamei por outra coisa”.

Aí definiu logo o que era essa “outra coisa”, fez elogios à “tua capacidade de luta e poder de análise. Por isso, estou te convidando para entrar no PP, já com a garantia da candidatura ao Senado”. E acrescentou: “Quero disputar o governo de Minas em 1982, e a tua candidatura ao Senado será um reforço”.

Eu pertencia ao MDB oposicionista, fora cassado em 1966, tido e havido como o deputado federal mais votado. Só que o meu MDB era da ditadura. Chagas Freitas foi “governador” de 1970 a 74, e depois, de 1978 a 1982. Eu não tinha diálogo com ele, não o via nunca.

Aceitei imediatamente, nenhuma figuração, era o que eu queria. Tancredo me abraçou muito, disse: “vou marcar uma grande festa em Brasília, não pode demorar”. Não se passaram 15 dias, fui a Brasília, uma grande recepção. Tancredo falou com aquele vozeirão notável, mas não usou entrelinhas.

Depois de uma saudação para os mais de 2 mil presentes, deu o recado original e obrigatório: “Agora quero ver quem é que vai dizer que o PP não é partido de oposição, se temos o jornalista considerado o maior oposicionista do país?”. E me passou a palavra.

Enquanto na minha cabeça aparecia o verdadeiro objetivo de Tancredo, falei por mais ou menos 40 minutos, quase um programa de presidente e não de senador. Tancredo aplaudindo muito, como eu disse, ele queria mesmo era ser governador.

O partido foi crescendo, adesões em muitos estados, pedidos gerais para que eu fosse. Um exemplo: João Agripino, governador da Paraíba, aceitou o convite de Tancredo, exigiu: “Quero ser saudado e recebido pelo Helio”. Nenhum problema, minha forma de expressão sempre foi a palavra escrita e a palavra falada, esta muito pouco exercitada.

ULISSES TRABALHAVA PARA PRESIDENTE

Controlando o MDB em plena ditadura, fez carreira intensa apenas como deputado e presidente da Câmara. Não era opção. Não tendo voto para senador ou governador, usava o mandato de deputado como um aríete para chegar a presidente. Em 1974, com a extraordinária ajuda de Barbosa Lima, se lançou como anticandidato.

Foi um grande evento, e o anti já era praticamente a consagração da candidatura. Foi depois dessa oportunidade que apareceu o convite-ordem-determinação para conversa com Ulisses e Tancredo. No seu estilo de oficial de Cavalaria, Figueiredo foi duro, grosso e certeiro: “Estou acabando com todos os partidos, podem ser fundados outros, de acordo com as regras que serão publicadas no Diário Oficial”.

Foi um choque, menos para o MDB. Como as ordens de Figueiredo determinavam que todos começassem com um P, mas não estabeleciam o número de letras, alguém no partido do doutor Ulisses colocou um P na frente do MDB, surgiu o PMDB. Figueiredo furioso, não podia fazer nada. Tancredo também não.

O PP ACABOU, TANCREDO FOI GOVERNADOR.
ULISSES TEVE 5 POR CENTO PARA PRESIDENTE,
O MESMO DESTINO DE DONA MARINA SILVA.

O MDB tinha condições de cumprir as exigências, logo se transformou em PMDB. O PP de Tancredo mobilizou uma porção de juristas-especialistas-eleitoralistas, todos disseram: “Não há tempo para fundar um partido, só se for INCORPORADO pelo PMDB. Ulisses não queria outra coisa, sabia que Tancredo só pretendia ser governador. Não o atingia. Tancredo foi governador em 1982.

Surpreendentemente, empossado em 1983, Tancredo se desincompatibilizara para ser candidato a presidente em 1985, eleição indireta. Ulisses ficou furioso, Tancredo não havia falado nada com ele. Ulisses só foi ser candidato a presidente em 1989, teve 5% dos votos, uma heresia com sua candidatura e sua carreira.

27 ANOS DEPOIS, SURGE DONA MARINA

Depois da República Velha e das ditaduras, surgiu apenas um partido que poderia ser considerado e respeitado: O PDT de Leonel Brizola. Tendo perdido o PTB para Golbery-Ivete Vargas, fundou o seu, mas Brizola tinha garra e história. E quase chegou a presidente.

Teria chegado se tivesse seguido a minha sugestão: ir seguidamente a São Paulo, o maior colégio eleitoral do país. Brizola acreditava demais nos dois estados que governara: Rio Grande e Rio de Janeiro.

Agora vem Dona Marina, com muitas restrições tolas e uma realidade falsa: os 20 milhões da eleição de 2010. Esses votos só chegaram no final, não foram surgindo e crescendo durante a campanha. Como o voto é obrigatório, quem não queria votar em Serra ou Dilma, escolhia ela. Não era opção, era desilusão.

AS CONTRADIÇÕES DE DONA MARINA

Não quer recursos de cigarro, bebida, agrotóxico (o que é isso?). Mas deixa intocados os bancos, empreiteiras, construtoras e outros perdulários doadores. A terceira maior fortuna do Brasil é de uma herdeira dessas empreiteiras. Outra herdeira (não tão rica) de banco, já está na campanha.

É lógico que Dona Marina quer ser candidata a presidente, nada contra. Mas quando começaram a dizer, “ela quer ser dona do partido”, mudou de rumo, afirmou: “não sou obrigatoriamente candidata a presidente, pode ser outra pessoa”. Ora direis, ouvir estrelas, quem seria esse nome que cairia na Rede? A limitação de 16 anos para o cidadão disputar cargos, irrealidade total, e desimportância. Se fosse de 8 anos e só para presidente, como nos EUA, aplausos.

O NOME DO PARTIDO, INUTILIDADE

Chamar de Rede, inutilidade. Poderia ser Partido da Solidariedade Nacional, PSN. Embora isso não gere credibilidade, poderia provocar realidade. E os 500 mil eleitores em pelo menos 9 estados? Se tivesse imaginado isso há 20 anos, quem sabe? Agora pode nem ser fundado. Se for, não conquista nem preocupa ninguém.

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PS – É lógico que não estou contra Dona Marina, me preocupo mais com a marina do Eike Batista, que desfiguraria o Aterro do Flamengo (louvores para Elio Gaspari). O novo partido, se existir, não vai alterar a paisagem política e muito menos eleitoral.

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