Dores da desconfiança, no mercado internacional

Levy com Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI

Vicente Nunes
Correio Braziliense

Não se pode dizer que a passagem do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, pela reunião de primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington, tenha sido um sucesso. Muito pelo contrário. Mas foi importante para começar o processo de reconstrução da imagem do Brasil no mercado internacional, processo que, diante do estrago cometido na economia no primeiro mandato de Dilma Rousseff, será lento, gradual, doloroso.

Reconstruir credibilidade não é um processo trivial. Levy sabe que o governo errou demais nos últimos quatro anos e destruiu pontes. Até agora, o que se vê é mais vontade da equipe econômica de entregar o que prometeu do que dados concretos que possam sacramentar, por exemplo, que o Tesouro Nacional entregará a meta fiscal de 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano e de 2% em 2016 com a atividade no chão e as receitas muito aquém do esperado.

PERSPECTIVAS RUINS

As perspectivas para a economia são muito ruins, pelo menos neste ano, admite o economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros. Ele prevê queda de 0,6% para o PIB no primeiro trimestre e tombo entre 1% e 1,5% no segundo, período que deve ser o pior para a atividade. Barros lembra que, nos últimos anos, parte relevante da resposta do governo ao baixo crescimento foi incentivar o consumo por meio da política fiscal, ou seja, cofres abertos e redução do superavit primário. Essa política, em uma economia com pleno emprego, traduziu-se em disparada da inflação e maiores déficits nas contas externas.

O economista do Bradesco ressalta que o impulso fiscal acabou se tornando negativo, porque incentivou desconfiança e questionamentos sobre a sustentabilidade da dívida pública. “Agora, vemos a reversão de boa parte dessas medidas, com juros mais elevados e política fiscal claramente contracionista. É isso que explica a previsão de queda anualizada de quase 4% do PIB no primeiro semestre do ano”, diz.

CONTRA A MARÉ

Assim como Barros, muitos dos presentes no encontro do FMI veem uma caminhada difícil para o Brasil, que terá de remar contra a maré, sobretudo a que vem dos Estados Unidos. Não por acaso, o tema dominante nos últimos dois dias em Washington foi o aumento das taxas de juros na maior economia do planeta. Esperava-se que o movimento de alta começasse em junho próximo, mas os sinais emitidos pelo Federal Reserve (Fed), o Banco Central norte-americano, acabaram indicando que o processo de mudança na política monetária será iniciado mais para o fim do ano.

One thought on “Dores da desconfiança, no mercado internacional

  1. O diagnóstico do economista-chefe do Bradesco é exato.

    Como o governo gastão implementou tal política nos últimos quatro anos, frear a inércia negativa adquirida pela economia brasileira daqui para frente não demandará menos tempo.

    Temos, então, duas políticas de governo restritivas de consumo e, portanto, recessivas que são a política monetária e a política fiscal.

    Não teremos nada a comemorar no segundo mandato de Dilma – a gerentona.

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