Duas histrias de futebol

Sebastio Nery

Jos Lins do Rego, romancista e torcedor fantico, fez em Joo Pessoa um Campeonato Nacional de Futebol Amador, para homenagear Jos Amrico, governador. O campeonato foi indo, a Paraba fazendo figura. A torcida explodia de feliz.

Chegou a partida final: Bahia x Paraba. O filho do governador, Jos Amrico Filho, chamou o juiz, Tenente Lira, da Polcia Militar do Estado:

– Lira, pai no pode perder. Este campeonato homenagem a ele e temos que ganhar de qualquer jeito. Se a Paraba ganhar, voc vai a capito. Se perder, adeus farda.

Comeou o jogo, a Bahia apertando, encurralando a Paraba. As arquibancadas urravam: Paraba!!! Paraba!!!. Mas o gol paraibano no saa.

Lira olhava para a tribuna da honra, onde estavam Jos Amrico, o filho e as autoridades, levantava a mo, pedia calma. Inventava faltas, perseguia os baianos, protegia os paraibanos, mas o gol no saa. O negro goleiro baiano pegava todas.

O jogo irritantemente zero a zero. Lira perdeu a pacincia, marcou um pnalti contra a Bahia. No havia pnalti nenhum, mas marcou. O campo inteiro berrou enlouquecido. Bitota, artilheiro da Paraba, chutou. O goleiro da Bahia pegou. Lira gritou:

– Nulo! Chuta de novo! O goleiro se moveu no gol!

O goleiro baiano protestou:

– No me movi no, seu juiz!

Lira deu trs passos, chegou bem junto do goleiro e rosnou no ouvido dele:

– Fica calado a, negro, seno eu mando te arrebentar. J viu goleiro pegar pnalti?

Lira virou capito.

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O PNALTI DO CORONEL

Dia de festa em Limoeiro, Pernambuco. O time da cidade ia jogar com o escrete de Garanhuns, disputando a final do Campeonato Intermunicipal. O coronel Chico Heraclio, senhor da terra, do fogo e do ar na regio, chegou todo de branco, sentou na cadeira de vime, a partida comeou.

Primeiro tempo, segundo tempo, nada. Zero a zero. Cinco minutos para acabar o jogo, o juiz, que tinha ido do Recife, marcou um pnalti contra Limoeiro. A torcida endoidou, invadiu o campo, o juiz correu para junto do coronel, com medo de ser linchado. O coronel levantou a bengala, todo mundo parou e voltou para a arquibancada.

– O que que houve, seu juiz?

– Um pnalti que eu marquei, coronel. quando um jogador comete uma falta dentro de sua rea.

– E o que que acontece, seu juiz?

– A, coronel, a bola fica ali naquela marca branca, em frente trave, e um jogador adversrio chuta. S ele o goleiro.

– E faz o gol, seu juiz?

– Geralmente faz, coronel. muito difcil goleiro pegar pnalti.

– Muito bem, seu juiz. Eu no vou tirar sua autoridade. J que houve o tal do pnalti, faa como a regra do futebol manda. S que o senhor, em vez de botar a bola em frente da trave de Limoeiro, faa ao favor de botar do outro lado, diante da trave de Garanhuns, e mande um jogador daqui da cidade chutar.

– Mas, coronel, isto contra a lei.

– Pois j ficou a favor, seu juiz. Aqui em Limoeiro a lei sou eu.

Limoeiro ganhou.

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