Duas histórias de governadores

Sebastião Nery

O sábio e saudoso Dinarte Mariz era governador do Rio Grande do Norte e inimigo de Aluisio Alves. Aluisio saiu da UDN, foi candidato pela oposição e ganhou. Dinarte disse que não passava o cargo.

No dia da posse, Dinarte saiu cedo do palácio e entregou as chaves ao porteiro Francisco. Todo importante, paletó e gravata, sapato engraxado, Francisco foi lá para a frente e ficou de pé nas escadarias.

Esperou uma hora, duas, três, o novo governador não chegava. Aluisio estava indo da Assembléia para o palácio, a pé, com o povo. A mulher mandou chamar o porteiro Francisco para o almoço, nada. Ele ali, de pé, cumprindo patrioticamente seu dever cívico.

De repente, à frente da multidão, apareceu Aluisio na esquina. O porteiro Francisco suspirou, aliviado:

– Ainda bem que ele está chegando. Não aguento mais governar essa merda.

Entregou as chaves e o fugaz poder.

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LOMANTO É MANTIDO

“Sergipano, baixinho, gorduchinho, atarracado, ambicioso, o coronel Humberto de Melo era o chefe do Estado Maior da 6ª Região Militar na Bahia, no golpe de 64. Com cursos no Panamá, nos Estados Unidos, era um ‘homem de informações’. Na época, isso queria dizer ligado à CIA.

Bebia muito, detonava uísque. Udenista, tinha sido secretário de Segurança do governo Juracy Magalhães. No golpe, tomou conta do Estado e de Sergipe. O comandante da Região, general Manoel Pereira, era uma simpática e lerda rainha da Inglaterra.

Humberto de Melo resolveu derrubar o governador Lomanto Junior, do PTB, e assumir o governo do Estado. UDN e PSD armaram tudo na Assembleia que, acovardada, já tinha número de sobra para aprovar o impeachment de Lomanto. Marcaram sessão extraordinária para uma segunda-feira, à tarde.

De manhã cedo, desce de surpresa em Salvador, de um avião militar, saído de Recife, com um punhado de oficiais, o general Justino Alves Bastos, comandante do 4º Exército e chefe de Humberto de Mello. Foi direto para o palácio da Aclamação e avisou: – Vim almoçar com meu governador, que vai continuar governador.

E ninguém mais falou em derrubar Lomanto.

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O SANTO

Todo milagre tem seu santo, o de Lomanto foi o simpático e bem falante Paranhos, que se dizia deputado pelo Estado do Rio, mas era apenas suplente, e aterrissou de repente na casa do saudoso Marcelo Gedeon, presidente do Conselho dos Produtores de Cacau e aparentado de Lomanto.

Compadre do general Justino, Paranhos esteve antes às pressas na Bahia e acertou a ficada de Lomanto com Lelivaldo Brito, cunhado do governador, rico e presidente do Banco do Estado (morreu pobre há alguns anos em Salvador).

A filha de Justino ia casar. Lomanto, que nunca tinha visto a filha do general, virou padrinho do casamento e Lomanto e Lelivaldo deram à noiva polpudos presentes, inclusive um resplandecente carro esporte Puma. Por isso Lomanto continuou governador até o último dia”.

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