Duas histórias do poder em São Paulo

Sebastião Nery

Abreu Sodré estava deixando o governo de São Paulo, em 1970, o presidente Médici começou a articular a escolha dos novos governadores. Mandou pelos Estados, numa sondagem prévia, o presidente da Arena, Rondon Pacheco, carregando uma pasta cheia de papéis em branco, com aquele ar e aquela gorda palidez de comissário do povo da Bulgária. Uma tarde, Abreu Sodré entra no Palácio do Planalto para uma conversa com Médici:

– Presidente, sei que o governador será escolhido pelo senhor. Trago-lhe, como colaboração, essa lista dos 15 nomes que estão sendo lembrados pela imprensa de São Paulo.

E começou a ler a lista:

– Primeiro, meus principais colaboradores, os homens que estão mais ligados aos problemas de São Paulo e suas soluções (Arrobas Martins e vários outros secretários ). Depois, os ministros de V. Exa. (Delfim, Buzaid e Fábio Yassuda). Finalmente, o ex-governador Laudo Natel e o deputado Herbert Levy.

– Governador, agradeço-lhe a colaboração. Vou estudar os nomes depois.

– Presidente, desejava dizer-lhe apenas uma coisa. Não tenho candidato. Mas, desses 15, há dois nomes que eu não poderia aceitar, porque são adversários meus e romperam relações comigo: o deputado Herbert Levy, que foi meu secretario de Agricultura e saiu brigado comigo, e o ex-governador Laudo Natel, que me hostiliza desde o primeiro dia de governo.

Sodré voltou para São Paulo e no dia seguinte me dizia, no palácio:

– Não vou fazer o governador. Não tenho candidato. Sei que nesta cadeira não vai se sentar quem eu quero. Mas sei também que não se sentará quem eu não quero.

Dois dias depois, Brasília anunciava o novo governador: Laudo Natel.

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SODRÉ E PAULO EGÍDIO

Atrás de uma mesa quadrada e amarela, sentado numa cadeira com cara de trono, no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo, o governador Paulo Egídio apontou-me o retrato de Rodrigues Alves, ex-governador e ex-presidente, bem a sua frente:

– Está ali Rodrigues Alves. A cadeira não é mais a mesma, mas as mesa é. Ele dizia: – “Quem tem força não sou eu. Quem tem força é esta cadeira”.

Conto-lhe que a última fez em que estive naquela sala, o governador Abreu Sodré, no final do mandato, me dizia:

– Sei que não vou fazer o sucessor que quero. Mas nesta cadeira não se senta quem eu não quiser.

Alguns meses depois, estava sentado ali o governador Laudo Natel, adversário e inimigo pessoal de Sodré.

Paulo Egídio balança o rosto gordo, num gesto muito seu, e sorri:

– Por isso é que não vou repetir os erros deles. Não vou querer continuar governador nos quatro anos seguintes. São Paulo acabou com o ademarismo, o janismo, o sodresismo, o laudismo, os ‘ismos’ todos que andavam por aí. Não tenho candidato a governador e não terei. A Arena de São Paulo é um partido ecumênico. Por isso meu governo é um governo ecumênico, tem representantes das várias lideranças. Tenho os números todos no arquivo. Hoje ninguém tem ainda maioria na convenção da Arena, para ser candidato a governador. Delfim é um candidato forte. Nada tenho contra ele e pode ser o meu candidato. É meu amigo há 25 anos. Claro que em determinados instantes, disputamos uma mesma posição e eu fui o governador. Mas não seria isso que iria abalar uma amizade de tanto tempo. Delfim é dinâmico e muito capaz. Se for o candidato, terá todo meu apoio.

O indicado foi Laudo Natel, o escolhido foi Paulo Maluf. Duas sucessões descadeiradas.

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