Dutra e o ladrão

Sebastião Nery

João Goulart, presidente do PTB, assumiu o ministerio do Trabalho em junho de 1953, no segundo governo de Getulio Vargas. Os militares da UDN começaram a conspiração que acabou no Manifesto dos Coronéis, redigido por Bizarria Mamede e Golbery do Couto e Silva e assinado em primeiro lugar por Amaury Kruel, exigindo a derrubada de Jango, que Getulio afinal aceitou, em 22 de fevereiro de 54.

Murilo Mello Filho, colunista politico da revista “Manchete”, telefonou ao deputado goiano Anísio Rocha, amigo do marechal Dutra e foram os dois à rua Redentor, em Ipanema, no Rio, para verem se o calado ex-presidente dizia alguma coisa:

– Presidente, o que o senhor achou do Manifesto dos Coronéis?

– Não achei nada, meu filho. Li nos jornais, mas não achei nada. Não vou falar, não. Não ajuda. Aliás, Nem li os jornais direito, porque esta noite entrou aqui em casa um ladrão e me atrapalhou a manhã.

***
DUTRA

Murilo viu uma pista para começar a conversa, o ladrão:

– Então o senhor me conta como foi a historia do ladrão.

– Mas, meu filho, uma revista tão importante ficar preocupada com historia de ladrão? Não foi nada demais. Ele entrou, pegou algumas coisas e foi embora. Só isso. Não teve importancia.

– Então, presidente, voltemos ao Manifesto. O senhor acha que os coronéis vão derrubar o Jango do ministério do Trabalho?

Dutra ficou calado, pensou um pouco, sorriu :

– Olha, Murilo, é melhor falar do ladrão.

E voltou ao ladrão.

Hoje em dias, os jornais são como Dutra. Só falam em ladrões.

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