Duvidar e questionar sempre (1)

Primeira parte do pronunciamento do jornalista Carlos Chagas ao receber o título de Professor Emérito da Universidade de Brasília, republicado a pedidos.

Pela bondade de meus colegas professores, retorno à UNB, agora aposentado depois de 25 anos lecionando Ética, mas sempre aqui me refugiando nas horas de dúvida e de questionamento, santuário para os anos de contestação e de resistência.

Aqui encontrei e continuarei encontrando forças para a rejeição das verdades absolutas, dos dogmas e das teorias definitivas.

A razão é simples: aqui duvidamos, questionamos, contestamos e resistimos. Somos o que toda universidade deveria ser: uma fonte de discordâncias, um centro de não aceitação do mundo à nossa volta.

Não estamos, com isso, renegando o passado, que sempre será o nosso maior tesouro, não na medida em que apontará o que devemos fazer, mas precisamente pelo contrário: o passado dirá sempre o que devemos evitar, no plano das idéias e das ações.

Nós, professores, devemos essa dádiva aos alunos que aqui ingressam atrás de respostas, mas daqui saem repletos de mais perguntas.

Houve tempo em que nossas carteiras escolares literalmente transformaram-se em barricadas. Hoje, formam estruturas para a permanente busca do desconhecido que se desata à frente.

Devemos, nós da Comunicação Social, ter o sentido do conjunto, sobrepondo-se à particularização sempre maior e mais perigosa. Torna-se necessário superar o risco de sabermos cada vez mais sobre o menos, e cada vez menos sobre o mais. Conhecer muita mais a floresta do que as árvores.

Uma palavra sobre a profissão. Enfrentamos de tempos em tempos batalhas em defesa do diploma, e até perdemos a última, em 2009, quando o Supremo Tribunal Federal extinguiu sua obrigatoriedade. Dizem alguns ingênuos e muitos malandros que o dom de escrever nasce com o indivíduo, tornando-se desnecessário o diploma para o exercício do jornalismo.

Ora, o dom de escrever faz o escritor, essa criatura reverenciada por todos nós. O escritor pode publicar sua criação nos jornais e revistas, assim como apresentá-la no rádio, na televisão e agora nessas maquininhas eletrônicas diabólicas que nos assolam 24 horas por dia. Mas estará atuando como escritor, não como jornalista.

O jornalista não é nem melhor nem pior do que o escritor. É apenas diferente, quando exercita a profissão. O “seu” Manoel, dono do açougue ali da esquina, é um craque na arte de cortar carne. Tira cada filet e cada costela que aguçam nosso apetite. Por conta disso deve trocar o avental pelo jaleco, entrar no Hospital Distrital e operar alguém de apendicite?

O camelô da estação rodoviária é um astro da palavra. Convence todo mundo. Vende tudo o que apregoa em sua banca. Tem o dom da palavra. Por isso, deve entrar no Supremo Tribunal Federal e defender alguma causa?

Ser jornalista é estar dotado de conhecimentos adquiridos ordenada e sistematicamente, e nenhum lugar parece melhor do que a universidade, para isso. Precisa, o jornalista, conhecer detalhes de redação, edição, diagramação, seleção, circulação e demais matérias inerentes à sua ação diária, estendidas aos correspondentes da mídia eletrônica. Precisa, porem, mais ainda, dominar a História, a Política, a Economia, a Geografia, a Filosofia e quanto segmentos a mais do conhecimento humano?

Já imaginaram a ausência do diploma na Medicina? Quanto curandeiros ocupariam o lugar dos médicos? E no Direito,
sem o diploma, como estariam os tribunais?

O mundo progride e a progressão exige aperfeiçoamento. Quem lhes fala é um velho jornalista com diploma de advogado. Lamento até hoje o que tive de aprender na prática das redações e na agonia das improvisações. No tempo em que comecei a trabalhar como repórter inexistia a obrigatoriedade do diploma. Talvez nem o diploma.

Exceção dos que por boa fé insurgem-se contra o diploma, que são os ingênuos, há que referir os malandros. Aqueles que por interesse rejeitam uma categoria altiva e organizada, forjada nos bancos universitários, acima e além de ideologias, doutrinas, partidos e inclinações sociais, pessoais ou políticas. Os estudantes de Comunicação Social deixam a universidade amalgamados pela dignidade. Em condições de exigir melhores salários, melhores condições de trabalho e, mais importante ainda, de respeito à notícia. De culto à verdade, condição facilmente adquirida quando se recebe o diploma.

Tremem de medo dos jovens diplomados aqueles que fazem da notícia um trampolim para enriquecer, ganhar poder ou
posicionar-se politicamente. Preferem ter em suas empresas jornalistas acomodados que não ousam defender a notícia honesta e verdadeira quando ela se choca com os interesses, a vontade e as idiossincrasias do patrão, seja público, seja privado. Para este, torna-se mais fácil abrigar nas redações jornalistas amorfos, insossos e inodoros. (continua amanhã)

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