E a chama se apagou

Sebastião Nery

Gastão Pedreira, baiano elegante, bem falante, engenheiro, deputado, e Lucilia Alvares, mineira, uma das alunas prediletas de Guignard, pintora promissora, conheceram-se em um congresso de estudantes no Rio, encantaram-se e se casaram em Belo Horizonte em 1958.

O padrinho de Gastão, João Falcão, eu só conhecia por sua lendária participação no Partido Comunista. Nascido em 1919, filho do usineiro de Feira de Santana João Marinho, formado em Direito em 1942, desde 1938 fundou a revista antifascista “Seiva”, fechada em 37 pela ditadura Vargas. 

Exilou-se na Argentina, voltou ao Brasil, em 45 fundou e dirigiu o semanário “O Momento”, orgão oficial do PCB na Bahia e foi candidato a constituinte pelo PCB, mas perdeu. Em 1947, quando o PC retornou à ilegalidade, veio para o Rio chefiar o “aparelho” onde se escondia Luis Carlos Prestes. Em 54, mais uma vez na Bahia, elegeu-se suplente do PTB.

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JOÃO FALCÃO

Entre um uísque e outro depois do casamento, sabendo que eu estava chegando de Moscou impactado e desiludido com o Relatório de Khrushev sobre Stalin, João Falcão contou que, como Agildo Barata, Osvaldo Peralva, João Batista e tantos outros companheiros seus de geração e lutas contra a ditadura Vargas, também havia saído do PCB e ia lançar, em Salvador, um jornal diário para as lutas democráticas da Bahia. Gastão foi objetivo:

– Nery, estou sabendo que você vai embora para o Rio. Já está há oito anos aqui no sul. Volte para Salvador, me ajude na minha campanha para deputado e ajude o Falcão a fazer o “Jornal da Bahia”, a partir de setembro.

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PARIS

Numa manhã muito fria do inverno mineiro, quase madrugada, já caminhando para o pequeno avião da Aerovias Brasil, que fazia um pula-pula de Belo Horizonte a Salvador, e pensando nos venturosos oito anos que Minas me dera e eu estava deixando para trás roído de saudades, de repente, muito pálida, apareceu a namorada, olhou-me com olhos que eu ainda não sabia mas já eram de eternidade e me entregou um envelope :

–  “Foi Paris quem mandou”.

No avião, ainda tremulo, abri. Era uma fita-cassete só de nossas canções ouvidas e por ela cantadas em Paris. E escrito em um papelzinho:

– “Obrigada por me ter dado Paris”.

Ouvi até se apagarem, bem depois que ela se apagou. 

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JORNAL DA BAHIA

O “Jornal da Bahia” nasceu em 21 de setembro de 1958, sob o comando de João Falcão, com os jornalistas Ariovaldo Matos, José Gorender, Heron e Inácio Alencar, Almir Matos, Luiz Henrique Tavares, Arquimedes Gonzaga, Nelson Araujo, Jair Gramacho, e os advogados Guillardo Figueiredo, Milton Cayres, Zittelmann Oliva, Virgilio Leal, Marcelo Duarte, Alberto Castro Lima.

Redator-chefe João Batista de Lima e Silva, secretario Flavio Costa, chefe de reportagem Ariovaldo Mattos, copidesque Alberto Vita. E um jovem chargista francês, meu amigo Lauzier, que voltou para a França e se consagrou como diretor de cinema. 

Segundo Adenil Falcão Vieira, filha de João Falcão, “o Jornal da Bahia formou uma geração de grandes jornalistas, um time de primeira linha, que continua militando na imprensa baiana e nacional, entre os quais Moniz Sodré, Florisvaldo Matos, João Carlos Teixeira Gomes, João Ubaldo Ribeiro, Sebastião Nery, Antonio Torres, Carlos Liborio, Samuel Celestino, Emiliano José, Levy Vasconcelos, Newton Sobral, João Santana, Anísio Félix, Geraldo Lemos, Lopes Cunha, José Contreiras, Otacílio Fonseca, Virgilio Sobrinho, Glauber Rocha, Wilter Santiago e outros”.                       

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“POLITICA DIA A DIA”

Repórter e redator político, eu tinha matéria demais e espaço de menos. O redator-chefe João Batista me sugeriu fazer uma coluna diária, que imediatamente começou a sair: – “Política Dia a Dia”. Era um pequeno comentário de abertura, seguido de notas curtas, noticias, fatos concretos. 

A receita era simples: não havia fatos sem pessoas falando. Não há jornalismo anônimo. Foi uma novidade na provinciana imprensa baiana. 

Logo João Falcão teve que enfrentar corajosamente duras batalhas  para resistir às pressões da ditadura militar e de seu brutal lugar-tenente na Bahia, Antonio Carlos Magalhães, que acabou fechando o jornal.

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”VALEU A PENA”

Tudo isso está contado em excelentes livros : “O Partido Comunista que Conheci”, “Valeu a Pena”,  “Não Deixem Esta Chama se Apagar”. No dia 20 de maio do ano passado, um grupo de amigos saímos de um almoço na casa do talentoso advogado Carlos Sodré para assistir à eleição de João Falcão na Academia Baiana de Letras. A chama continuava acesa.

Esta semana, em Salvador, aos 92 anos, morreu João Falcão, que, com sua bravura, durante quase um século ajudou a escrever a historia da Bahia. Agora, a chama se apagou. Mas valeu a pena.

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