E agora?

Paulo Passarinho (Correio da Cidadania)

Definitivamente, as manifestações que tomam conta do país entram para a nossa história. São mobilizações populares de dimensões jamais imaginadas, ocorrendo de forma seguida, crescente e envolvendo um número cada vez maior de cidades.

As manifestações oferecem as mais variadas formas de explicação, para as suas razões. “Mudar o Brasil” é a bandeira que, talvez, melhor sintetize o espírito e ânimo dos que engrossam cada vez mais os protestos.

Mas mudar o Brasil por quê? Porque há um forte sentimento de frustração com o mundo da política, os políticos e suas instituições. Mostra que o desprezo que esse mundo dispensa ao que é de interesse público tem o seu preço. A apropriação desse mundo pela lógica dos interesses empresariais, privados, coloca o que de fato deveria ser prioritário – o interesse público – como uma questão menor ou meramente retórica.

 ABUSOS DA COPA

A melhor tradução desse tipo de divórcio, entre a ação política real e o interesse público, ficou escancarado com o conjunto de abusos que as chamadas obras da Copa produziu.

Em um contexto onde são gritantes as carências essenciais do povo – como a saúde, a educação e os transportes urbanos –, muito dinheiro foi utilizado para a construção de estádios para lá de questionáveis, com preços astronômicos e inúmeras vantagens para um seleto número de empresas.

A pergunta sobre o porquê da necessidade de mudanças também encarna um curioso e aparente paradoxo: afinal, não estamos atravessando um auspicioso momento histórico? Os economistas da ordem vigente não nos garantem que estamos tendo uma grande melhoria da renda e do consumo das populações mais pobres? Milhões de brasileiros não teriam ascendido à classe média?

Pois, bem. A realidade dos protestos nos mostra outra coisa. Mostram não somente insatisfações difusas. Mostram revolta. Mostram ódio contra décadas de embromação, mentiras e falsidades de toda ordem.

São inúmeros os exemplos de ações violentas, tipificadas pela mídia dominante como meramente atos de vandalismo.

Pode ser. Mas há um claro sentimento de vingança no ar. Justificáveis ou não, essas ações também fazem parte da realidade das manifestações. Da mesma forma como faz parte do nosso dia a dia os anos de martírio e mortes diárias nos hospitais públicos, sucateados, privatizados e com os seus servidores desvalorizados. Ou as décadas em que assistimos à desvalorização dos profissionais de educação e a degradação da qualidade do ensino das escolas públicas.

TERRORISMO DO PM

Mas não sejamos ingênuos: há a provocação também. E provocação oficial. No Rio, a ação da PM, na manifestação que levou uma multidão incalculável para a Avenida Presidente Vargas, foi francamente terrorista. Tropa do BOPE perseguindo manifestantes, policiais cercando e intimidando estudantes dentro de faculdades e atacando até mesmo o hospital Souza Aguiar, enquanto, ao mesmo tempo, “mascarados” agiam com grande liberdade…

E o maior paradoxo de todos: há mais de dez anos, o governo federal é dirigido por uma coalização de forças que tem no PT o seu principal protagonista. O mesmo PT que chegou a essa posição, com contundentes críticas ao modelo econômico dos bancos e das multinacionais, inaugurado com Collor e consolidado com FHC. O mesmo PT que, uma vez lá, fez uma vergonhosa composição com os donos do sistema financeiro.

HORA DE COBRAR

Chegou a hora de cobrar responsabilidades. Lula e Dilma, como os presidentes pós-2002, devem explicações: quais foram as razões para, sendo vitoriosos eleitoralmente, terem capitulado politicamente e assumido as ideias dos derrotados nas urnas?

Por que renunciaram à revisão das malfadadas e ilegais privatizações? Por que renunciaram ao compromisso histórico com a reforma agrária e a reforma urbana? Por que renunciaram à efetivação de uma ordem tributária socialmente justa? Por que renunciaram à auditoria da dívida pública? Por que renunciaram à regulação democrática das concessões de rádio e televisões?

Por que mantiveram o ataque à previdência social pública e os leilões de um petróleo que deveria ser monopólio estatal? E por que se atiraram nos braços de bancos, empreiteiras e barões do agronegócio?

Essas são perguntas que, frente à gravidade do momento político, deveriam ser, com coragem e dignidade, respondidas por Lula e Dilma. Afinal, por trás da bandeira do “mudar o Brasil”, não se encontram as antigas promessas que fizeram o velho PT chegar lá?

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11 thoughts on “E agora?

  1. Paulo Passarinho, saudações
    O que realmente existe … é uma lavagem cerebral feita com maestria pelos marqueteiros de plantão, como sempre. Fizeram as famílias gastar o que não podiam: compraram carros, geladeiras, casas, tvs, etc etc etc. O nível de endividamento do povo, em abril de 2012, era 22.5% do ganho mensal. Hoje, é de 44.5%. A inadimplência bate recordes. Muitas famílias meteram- se em fortes desarranjos, por ter acreditado que estavam na classe média. Mas … é necessário deixar claro que os esquemas de corrupção não começaram com o Lixo Inato, com o seu Partido dos “Trabalhadores”(argh!!!). Como dizia o Brizola, isto vem de loooonge!!! Agora percebe-se com clareza que “nunca antes na história deste país” o povo foi tão sordidamente enganado. O povo, como você bem colocou, não tem nada de nada além dos comerciais da Casas Bahia, Ricardo Eletro, etc, dizendo massivamente “comprem, comprem, comprem” diariamente. E o povo compra. Esta é uma tática ilusionista praticada nos Estados Unidos, aqui no Brasil e em muitos outros países. Consumo desmedido. Consumo induzido. Consumo destrutivo de famílias inteiras. O resultado … aí está.

  2. CARTA A PRESIDENTE DO BRASIL:

    BOM, PRA COMEÇAR SENHORA PRESIDENTE DILMA, CONVOQUE OS MINISTROS E DIGA QUE A SENHORA VAI DIMINUIR OS MINISTERIOS E QUE PRECISAR DE PESSOAS QUE QUEIRAM CONTINUAR AJUDANDO O BRASIL A MUDAR. TRAGA PARA O SEU LADO PESSOAS QUALIFICADAS E NAO DE PARTIDOS POLITICOS COMO ACONTECE NOS ULTIMOS GOVERNOS, APARTIR DESSA DATA NENHUM MINISTRO VAI REBECER MAIS DO QUE 20 MIL REAIS POR MES,.SEM DIREITOS A CONSUMIR OS FRUTOS QUE O BRASIL PRECISA AGORA PARA CRESCER, FIM DAS MORDOMIAS DE ASSESSORES, TODOS TERAO QUE FAZER PELO BRASIL O QUE NUNCA FOI FEITO ANTES. E UM PRIVILEGIO E DEVER DO CIDADAO FAZER PARTE DO GOVERNO NOVO.

    CONVOQUE OS SENADORES DO CONGRESSO E DIGA QUE APARTIR DESSA DATA, TODOS OS SENADORES VAO RECEBER A QUANTIA DE 20 MIL REAIS POR MES.

    CONVOQUE TODOS OS DEPUTADOS E INFORME A ELES QUE A PARTIR DESSA DATA ELES IRAO RECEBER 10 MIL REAIS POR MES E OS VEREADORES 8 MIL POR MES. (VAMOS ARRUMAR A CASA PRIMEIRO, DEPOIS PENSAMOS EM AUMENTAR OS SALARIOS)

    NAO EXISTIRA MAIS FORO PRIVILEGIADO,NAO EXISTIRA MAIS VOTOS FECHADOS ACABOU SEGURO MEDICO DIFERENCIADO DO POVO BRASILEIRO, FIM DO CARTAO CORPORATIVO E DAS MORDOMIAS DE CARROS E ASSESSORES(ASSIM EVITAMOS APADRINHADOS OU APONTADOS.) TODOS TERAO QUE SER FICHA LIMPA, OS JULGADOS E CONDENADOS AFASTADOS IMEDIATAMENTE ATE O FIM DOS RECURSOS PENDENTES AGUARDANDO SENTENÇA.

    CONVOQUE O SUPREMO TRIBUNAL A FAZER A PARTE DELES E TRABALHAR 6 DIAS PARA RESOLVER AS PENDENCIAS ATUAIS, AFINAL ELES SAO MEMBROS DE UMA EQUIPE PARA BENEFICAR A SOCIEDADE BRASILEIRA.

    CONVOQUE A POLICIA FEDERAL,A RECEITA FEDERAL, MINISTERIO PUBLICO FEDERAL, PARA FAZER UMA MINUCIOSA INVESTIGAÇAO : RASTREAMENTO DE TODOS IMOVEIS,PROPRIEDADES, CONTA DE INVESTIMENTOS,E OUTRAS COISAS QUE FAZEM PARTE DA SONEGAÇAO, CONTAS EM PARAISOS FISCAIS A SEREM DESCOBERTOS E CONFERIDOS POR UMA EQUIPE DE AGENTES, PROCURADORES E JUIZES FEDERAIS COM AUXILIO TOTAL E IRRESTRITO PARA ESSE GRUPO A SER ESTABELECIDO COM O QUE TEM DE MELHOR NO BRASIL (NINGUEM ESTA ACIMA DA LEI, INCLUSIVE A SENHORA PRESIDENTE)

    CONVOQUE A BRASILIA OS ECONOMISTAS, ENGENHGEIROS,JORNALISTAS, DELEGADOS , MEDICOS,E PESSOAS HONESTAS E DE CARATER QUE POSSAM AJUDAR O BRASIL NO COMEÇO DESSA NOVA ERA

    CONVOQUE A BRASILIA OS JUIZES QUE ESTAO ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA PRA AJUDAR E CRIAR O QUE E PRECISO FAZER PELO NOVO BRASIL

    DE 48 HORAS PARA QUEM QUISER SAIR DO BRASIL, O POVO BRASILEIRO AGORA SO VAI ACEITAR QUE FIQUEM OS HONESTOS NO GOVERNO QUEM RESOLVER FICAR E FOR CORRUPTO SERA PRESO, JULGADO E CONDENADO A PRISAO PERPETUA COM PERDA DE TODO PATRIMONIO(A ESCOLHA E DE QUEM QUER CORRER O RISCO) .

    CONVOQUE O QUE TEM DE MELHOR NO POVO BRASILEIRO A OPINAR E AJUDAR NAS NOVAS METAS DO GOVERNO, NAO ACEITE INTERFERENCIA DOS IRMAOS DO NORTE OU DO SUL , O BRASIL E UM PAIS SOBERANO E O POVO DO BRASIL ACORDOU E NAO PRECISA DE INFLUENCIAS ESTRANGEIRAS NO MOMENTO

    SUSPENDA TODAS AS ONG ATUALMENTE FUNCIONANDO OU NAO NO BRASIL ATE SEREM FEITAS INVESTIGAÇOES E NOVAS PERMISSOES PARA FICAREM EM SOLO BRASILEIRO

    CONVOQUE AS PESSOAS A SE MANIFESTAR PRESIDENTE, CRIE UM SITE NA INTENET PARA RECEBER OPINIOES
    RELATOS E ATE CRITICAS, PRECISAMOS MUDAR PRA MELHOR, SEM DERRAMAR SANGUE,SEM MORTES, NAO VAMOS VOLTAR A SER COMO FOMOS NO PASSADO, MEUS FILHOS, SEUS NETOS, A SOCIEDADE BRASILEIRA EXIGE UMA POSTURA DIFERENTE DE HOJE EM DIANTE O POVO TEM ESSE DIREITO E VAI ESTAR DO SEU LADO!O LOBISMO ATUAL NO CONGRESSO E ESSAS PESSOAS QUE FAZEM PARTE DO PASSADO E ALGUMAS DO PRESENTE COMO POLITICOS , MARQUETEIROS E OS PARTIDOS DOS SANGUE SUGAS NAO QUEREM O MELHOR PARA O BRASIL, QUEREM CONTINUAR A MESMICE E ENRRIQUECER A ELES PROPRIOS.

    MOSTRE PARA O POVO QUE A SENHORA PRESIDENTE, PODE MUDAR E ENTRAR PARA A HISTORIA COMO A MAE QUE O BRASIL PRECISA E QUER TER , OS FILHOS DA REVOLUÇAO ESTAO OLHANDO.

  3. Luiz, saudações.
    Infelizmente …desgraçadamente … nunca tivemos quem adotasse tais posições. NUNCA. Nossa “presidenta” FAZ PARTE desse jogo imundo que vemos.
    Não li, em seus JUSTÍSSIMOS ANSEIOS, que Dilma deveria divulgar um lista com os nomes dos sonegadores (ladrões do povo) de impostos. Ato contínuo … julgamento destes ratos, em pleno horário nobre da tv. Mais. Um Ministério da Amazônia, imediatamente!!!
    Abração verde e amarelo, Luiz !!!!

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    ELIANE BRUM – 01/07/2013 10h25 – Atualizado em 01/07/2013 14h33

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    Também somos o chumbo das balas

    O Brasil não mudará em profundidade enquanto a classe média sentir mais os feridos da Paulista do que os mortos da Maré

    ELIANE BRUM

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    Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista. Autora de um romance – Uma Duas (LeYa) – e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua – (Foto: Lilo Clareto/Divulgação)Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista. Autora de um romance – Uma Duas (LeYa) – e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O avesso da lenda (Artes e Ofícios), A vida que ninguém vê (Arquipélago, Prêmio Jabuti 2007) e O olho da rua – uma repórter em busca da literatura da vida real (Globo).
    elianebrum@uol.com.br
    Twitter: @brumelianebrum
    (Foto: Lilo Clareto/ Divulgação)

    Você está na sala assistindo à TV. Ou está no restaurante, com seus amigos. Ou está voltando para casa depois de um dia de trabalho. Você ouve tiros, você ouve bombas, você ouve gritos. Você olha e vê a polícia militar ocupando o seu bairro, a sua rua. É difícil enxergar, por causa das bombas de gás lacrimogêneo, o que aumenta o seu medo. Logo, você está sem luz, porque a polícia atirou nos transformadores. O garçom que o atendia cai morto com uma bala na cabeça. O adolescente que você conhece desde pequeno cai morto. Um motorista está dirigindo a sua van e cai ferido por um tiro. Agora você está aterrorizado. Os gritos soam cada vez mais perto e você ouve a porta da casa do seu vizinho ser arrombada por policiais, que quebram tudo, gritam com ele e com sua família. Em seguida você vê os policiais saírem arrastando um saco preto. E sabe que é o seu vizinho dentro dele. Por quê? Você não pergunta o porquê, do contrário será o próximo a ser esculachado, a ter todos os seus bens, duramente conquistados com trabalho, destruídos. Se você está em casa, não pode sair. Se você está na rua, não pode entrar.

    O que você faz?

    Nada.

    Você não faz nada porque não aconteceu com você. Você não faz nada especialmente porque se sente a salvo, porque sabe que não apenas não aconteceu, como não acontecerá com você. Não aconteceu e não acontecerá no seu bairro. Isso só acontece na favela, com os outros, aqueles que trabalham para você em serviços mal remunerados.

    Aconteceu na Nova Holanda, no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, na segunda-feira passada (24/6). Com a justificativa de que pessoas se aproveitavam da manifestação que ocorria na Avenida Brasil – o nome sempre tão simbólico – para fazer arrastão, policiais ocuparam a favela. Um sargento do BOPE morreu e a vingança da polícia começou, atravessou a madrugada e boa parte da terça-feira. Saldo final: 10 mortos, entre eles “três moradores inocentes”.

    Os brasileiros foram às ruas, algo de profundo mudou nas últimas semanas, tão profundo que levaremos muito tempo para compreender. Mas algo de ainda mais profundo não mudou. E, se esse algo ainda mais profundo não mudar, nenhuma outra mudança terá o peso de uma transformação, porque nenhuma terá sido capaz de superar o fosso de uma sociedade desigual. A desigualdade que se perpetua no concreto da vida cotidiana começa e persiste na cabeça de cada um.

    Quando a polícia paulista reprimiu com violência os manifestantes de 13 de junho, provocando uma ampliação dos movimentos de protesto não só em São Paulo, mas em todo o Brasil, houve um choque da classe média porque, dessa vez, muitos daqueles que foram atingidos por balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo eram seus filhos, irmãos e amigos. Como era possível que isso acontecesse?

    Era possível porque a polícia militar – e não só a de São Paulo, como se sabe e tem se provado a cada manifestação, nas diversas cidades – agiu no centro com quase a mesma truculência com que cotidianamente age nas favelas e nas periferias. Quase com a mesma truculência, porque algumas vozes se levantaram para lembrar que nas margens as balas são de chumbo. Balas de borracha, como foi dito em tom irônico, seria um “upgrade”. A polícia fez, portanto, o que está acostumada a fazer no dia a dia das periferias e favelas, o que é ensinada e autorizada a fazer. E muitos policiais devem ter se surpreendido com a reação da opinião pública, já que agem dessa maneira há tanto tempo e as reclamações em geral ficavam, até então, limitadas às mesmas organizações de direitos humanos de sempre.

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    E então veio a Maré. E, em vez de balas de borracha, as balas eram de chumbo. Em vez de feridos, houve mortos. E, ainda que o massacre tenha tido repercussão, especialmente no Rio de Janeiro, ela foi muito menor e menos abrangente do que quando a violência foi usada no centro de qualquer cidade. Por quê? Seriam os brasileiros da Maré ou de outras favelas menos brasileiros do que os outros? Seriam os humanos da Maré ou de outras periferias menos humanos do que os outros? Sangrariam e doeriam os moradores da Maré menos do que os outros?

    É preciso que a classe média se olhe no espelho, se existe mesmo o desejo real de mudança. É preciso que se olhe no espelho para encarar sua alma deformada. E perceber que essa polícia reflete pelo menos uma de suas faces. Parece óbvio, do contrário essa polícia não seguiria existindo e agindo impunemente, mas às vezes o óbvio é esquecido em nome da conveniência.

    É fácil renegar a polícia militar como algo que não nos diz respeito, como sempre fazemos com as monstruosidades que nos envergonham. Sem precisar assumir que essa polícia existe como resultado de uma forma de ver a sociedade e se posicionar nela – uma forma que perpetua a desigualdade, dividindo o país entre aqueles que são cidadãos e têm direitos e aqueles que não têm nenhum direito porque, mesmo que trabalhem dura e honestamente, são criminalizados por serem pobres.

    No momento em que os mortos da Maré incomodam menos que os feridos da Paulista ou de outros lugares do Brasil, se justifica e legitima a violência da polícia. Se justifica e legitima de várias maneiras – e também por aqueles que sentem menos a violência da Maré do que a da Paulista, apesar de ela ser numa proporção muito maior, a começar pela diferença das balas. Se justifica e se legitima e se perpetua porque, ainda que não confessado, mas claramente expressado, vive-se como se os mais pobres, os que moram em favelas e periferias, pudessem ter suas casas invadidas, seus bens destruídos e suas vidas extintas.

    Se fosse você ou eu na Maré, reconheceríamos os rostos dos que tombam e estaríamos lá, aterrorizados com a possibilidade de sermos os próximos a virar estatística. O garçom que caiu morto com um tiro na cabeça é Eraldo Santos da Silva, 35 anos. Quem estava no restaurante contou que os policiais do BOPE atiraram no transformador para o local ficar às escuras e então mudar a cena do crime, retirando as cápsulas do chão. O garoto de 16 anos que foi assassinado se chama Jonatha Farias da Silva. A polícia disse que ele estava com uma arma na mão, mas várias pessoas que o conhecem desde criança afirmam ser impossível. Jonatha é descrito como um menino tímido e muito sozinho que perdeu a mãe de tuberculose aos 11 anos e vivia com um irmão mais velho num quarto de quatro metros quadrados. Engraxava sapatos e vendia biscoitos nos congestionamentos da Linha Vermelha para sobreviver, enquanto sonhava com ser mecânico. O motorista ferido quando dirigia a van alvejada por tiros é Cláudio Duarte Rodrigues, de 41 anos. Foi levado ao hospital por moradores, mas despachado para casa com a bala ainda alojada no glúteo. Só depois uma ONG obteve a promessa de uma ambulância para buscá-lo. Você ainda poderia ser a empregada doméstica que ouviu os policiais arrombarem a porta da casa do seu vizinho, ouviu seus gritos – “Me larga! Socorro!” – e o viu ser retirado de lá, dentro de um saco preto.

    Mas isso não acontece com você, nem com seus filhos. Nem comigo. Mas, ainda que não aconteça, como é possível sentirmos menos? Ou mesmo não sentir? Ou ainda viver como se isso fosse normal? Ou olhar distraidamente para a notícia no jornal e pensar: “mais uma chacina na favela”?

    Em que nos transformamos ao sentir menos a morte de uns do que a de outros, a dor de uns do que a de outros, mesmo quando olhamos para uns e outros apenas pela TV?

    O que torna isso possível?

    É preciso parar e pensar. Porque esses, que assim morrem, só morrem porque parte da sociedade brasileira sente menos a sua morte. É cúmplice não apenas por omissão, mas por esse não sentir que se repete distraído no cotidiano. Por esse não sentir que não surpreende ninguém ao redor, às vezes nem vira conversa. Essa polícia que mata nos reflete, por mais que recusemos essa imagem no espelho.

    São vários os discursos que se imiscuem na vida cotidiana e penetram em nossos corações e mentes, justificando, legitimando e perpetuando a ideia de que a vida de uns vale menos do que a de outros, de que a vida dos mesmos de sempre vale menos do que a dos mesmos de sempre. Um desses discursos é a afirmação, que nesse caso foi assumida e amplificada por parte da imprensa, de que a polícia teria admitido que “três moradores mortos eram inocentes”. A frase tem tom de denúncia, ao afirmar que a polícia reconheceu a morte de “inocentes” na Maré. A declaração expressa, de fato, a ideia de que ao menos esses três não deveriam ter sido assassinados. Por oposição, cabe a pergunta: e os outros deveriam?

    Essa frase diz ainda mais: se “três são inocentes”, aceita-se automaticamente e sem maior investigação que os demais seriam suspeitos de tráfico e outros crimes – e destes, quase nada ou nada é contado. É nesse ponto que se oculta algo ainda pior contido nesse discurso, que é a aceitação da pena de morte de suspeitos. Ou seja, os supostamente “não inocentes”, os supostamente “bandidos”, “traficantes”, “vândalos” poderiam, então, ser mortos? É isso o que se diz nas entrelinhas. Mas não seriam todos “inocentes”, até julgamento em contrário, dentro do ritual jurídico previsto pelo Estado de direito? Sem contar que a lei brasileira não prevê a pena de morte de julgados e condenados por crimes, nem sequer os hediondos. Mas o Estado, com o aval de uma parte significativa da sociedade, executa suspeitos.

    A aceitação dessa quebra cotidiana da lei pelo Estado está presente na narrativa dos acontecimentos – e a imprensa tem um papel importante na reprodução desse discurso: “três deles eram inocentes”, “morreram em confronto”, “morreu ao resistir à prisão”, “troca de tiros” são algumas das expressões entranhadas nos nossos dias como se tudo explicassem. Como se isso fosse corriqueiro – e não monstruoso. Mesmo para a morte de “inocentes”, fora as mesmas vozes dissonantes de sempre, se atribui expressões como “efeito colateral”. E parece ter sido fácil para a classe média aceitar que o “efeito colateral” é a morte dos filhos, dos irmãos, dos pais e das mães dos pobres.

    Em um artigo no site do Observatório de Favelas, que vale a pena ser lido (aqui), Eliana Sousa Silva, diretora da Redes da Maré e da Divisão de Integração Universidade Comunidade PR-5/UFRJ, faz uma análise da frase dita na TV pelo consultor de segurança pública Rodrigo Pimentel: “Fuzil deve ser utilizado em guerra, em operações policiais em comunidades e favelas. Não é uma arma para se utilizar em área urbana”. Ele criticava, em 18/6, a imagem de um policial militar atirando para o alto com uma metralhadora, perto de manifestantes que praticavam ações violentas em frente à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Como afirma Eliana, parece um comentário “natural, racional e equilibrado”, mas, de fato, o que ele está dizendo? Que na favela pode. E, fora uma ou outra voz, como a dela, não causa nenhuma surpresa. Nem mesmo se estranha que na favela pode, nos protestos do centro não.

    A palavra “confronto” encobre forças desiguais – e o que tem sido chamado de “confronto” seguidamente não é o que diz ser. Mesmo em confrontos de fato trata-se o que é desigual como se fosse igual, também simbolicamente. Como se uma das forças em confronto não encarnasse o Estado e tivesse, portanto, de respeitar a lei e seguir parâmetros rígidos de conduta – e não igualar-se a quem supostamente está no outro lado. Como se a polícia, como aconteceu na Maré, tivesse autorização para se vingar pela morte – lamentável – do sargento do BOPE, entrando na favela e arrebentando. E o sargento do BOPE Ednelson Jerônimo dos Santos Silva, 42 anos, é também uma vítima desse sistema avalizado por uma parte significativa da sociedade dita “de bem”.

    A questão é que, se a polícia não tem autorização de direito, tem de fato. E tem porque a classe média sente menos a dor dos pobres. Tem autorização porque uma parcela da sociedade primeiro criminaliza os pobres – e, depois, naturaliza a sua morte. É por isso que a polícia faz o que faz – porque pode. E pode porque permitimos. A autorização não é dos suspeitos de sempre, apenas, mas de parte considerável dessa mesma classe média que vai às ruas gritar pelo fim da corrupção. Mas haverá corrupção maior, esta de alma, do que sofrer menos pelos mortos da Maré do que pelos feridos da Paulista?

    A autorização para a morte dos pobres é de cada um que sente mais as balas de borracha da Paulista do que as balas de chumbo da Maré. Sentir, o verbo que precede a ação – ou a anula.

    “Estado que mata, nunca mais!” é o chamado de um ato ecumênico marcado para as 15h desta terça-feira (2/7), com concentração na passarela 9 da Avenida Brasil, pelos moradores da Maré. A manifestação, anunciada como “sem violência e pacífica”, pretende lembrar os 10 mortos de 24 e 25 de junho, inclusive o sargento do BOPE. “Não é mais aceitável a política militarizada da operação do estado nos territórios populares, como se esses locais fossem moradas de pessoas sem direitos. Responsabilizamos o governador do Estado e o secretário de Segurança Pública pelas ações policiais nas favelas. Exigimos um pedido de desculpas pelo massacre e o compromisso com o fim das incursões policiais nas favelas cariocas, sustentadas no uso do Caveirão e de armas de guerra”, diz a chamada na internet.

    Este ato poderá se tornar um momento de inflexão nos protestos que atravessam o país. Saberemos então se os cidadãos das favelas estarão sozinhos, como sempre, ou acompanhados pelas mesmas organizações de direitos humanos de sempre – ou se o Brasil está, de fato, disposto a começar a curar sua abissal e histórica cisão.

    (Eliane Brum escreve às segundas-feiras)

    • Parabenizo-o, Sr. Acyr Ramos, pelo envio deste texto comovente da jornalista Eliane Brum. Se as mudanças não começarem de fato pelo resgate de nossa população mais pobre, sofrida e marginalizada NÃO HAVERÁ MUDANÇA NENHUMA, tudo será mais empulhação, enganação, manipulação.

  5. É o que sempre digo, comprovadamente:
    Lula e sua turma, ou, melhor falando, quadrilha, assumindo o governo, (governo?) negou tudo o que pregou, e praticou tudo o que condenou. TENHO DITO.

  6. Nunca na história deste país houve um presidente,cujo amplo apoio popular o permitiria impor aos políticos, uma agenda de responsabilidade com a Nação.Faria as Reformas que quisesse,imporia austeridade,liquidaria com a corrupção nos altos escalões,acabaria com as negociações de votos no Congresso,reduziria os gastos públicos;enfim,prepararia o País para o futuro,como devem fazer os Estadistas.O que ele fez?se aliou a tudo de nefasto que espolia a Pátria,preferiu enriquecer às custas do sonho de toda uma Nação.
    Nunca em nossa História um só indivíduo,fez tanto mal a tantos.Triste País!Quem sabe as ruas não possam reparar este Mal e reiniciarmos a construção da Pátria?

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