É muita desfaçatez. Sarney diz que não indicou Pedro Novais, e a deputada que beneficiou a ONG corrupta diz que nem conhece a organização que desviou as verbas.

Carlos Newton

A corrupção é insidiosa, diabólica e contagiante. Só vai diminuir à medida que for sendo reduzida  a  influência política no serviço público e passarmos a viver numa situação mais próxima da chamada meritocracia, com respeito absoluto aos concursos públicos, às licitações e tudo o mais.

Alguém pode então dizer: “Não isso vai acabar nunca”. É até provável que jamais acabe, sobretudo enquanto a Justiça brasileira for conivente e letárgica, deixando prescrever os processos que não lhe interessa julgar. Mas podia diminuir bastante, se as lei existentes fossem respeitadas e obedecidas. Mas falta vontade política e jurídica para aperfeiçoar o sistema. E quem se interessa?

Tão desagradável e nocivo quanto aturar a corrupção é ter de ouvir as desculpas dos políticos que estão na parte de cima dessa pirâmide infernal. Como se sabe, o presidente do Congresso, José Sarney, que é correligionário, amigo e compadre do deputado Pedro Novais (PMDB-MA), agora diz não ser responsável pela indicação dele, atribuindo-a exclusivamente ao partido.

Já a deputada federal Fátima Pelaes (PMDB-AP), responsável por emendas que destinaram ao Instituto Brasileiro de Desenvolvimento de Infraestrutura Sustentável (Ibrasi) as verbas que foram desviadas, afirma que nem sabe direito que ONG é essa, acrescentando que resolveu beneficiá-la após conhecê-la em eventos do Ministério do Turismo.

Na versão da nota distribuída pelo gabinete da parlamentar, nesses “eventos”, funcionários faziam a divulgação da ONG e apresentaram à deputada um portfólio de atividades. Como o Ministério do Turismo já tinha outros convênios com o Ibrasi, isso a teria animado a apresentar as emendas, que carrearam, em 13 meses, R$ 7 milhões para o tal instituto.

Questionada pelos jornalistas, a assessoria da deputada Fátima Pelaes não deu detalhes dos “eventos” que a aproximaram da entidade. E nem poderia. Como explicar um caso desses? Na verdade, os políticos jamais agem como  a parlamentar do Amapá alega ter feito.

Os parlamentares só apresentam emendas beneficiando única e exclusivamente as ONGs com as quais já se relacionam e que atuam (de fato ou hipoteticamente) em seus respectivos Estados, o que é bastante compreensível. O Ibrasi, porém, é uma ONG que funciona em São Paulo e jamais havia operado no Amapá. Portanto, não foi por mera coincidência que desde terça-feira, quando a Polícia fez as prisões de participantes no esquema montado para sangrar os cofres do ministério, a deputada Fátima Pelaes não tenha dado mais entrevistas e esteja sumida do plenário.

Fátima é socióloga e entrou para a política pelas mãos de José Sarney. Era diretora da extinta Legião Brasileira de Assistência (LBA), no governo Sarney, candidatou-se com apoio dele e foi eleita. Já está em seu quinto mandato na Câmara. Sempre se alinhou com o grupo político de Sarney, mas recentemente, em função do progressivo desgaste do prestígio do ex-presidente, a deputada trocou de lado. Passou a apoiar o governador do Amapá, Camilo Capiberibe, do PSB, filho do senador João Capiberibe e da deputada Janete, que são os maiores inimigos de Sarney no Amapá. Como se sabe, por manobras de Sarney, João e Janete foram cassados, mas estão prestes a recuperar os mandatos no Supremo Tribunal federal.

Em plena campanha para ser indicada pela Câmara a uma vaga no Tribunal de Contas da União, onde terá de julgar a corrupção alheia, a deputada Fátima Pelaes enfrenta agora uma investigação do próprio TCU sobre os recursos de suas emendas. Segundo fontes do PMDB, seja qual for o resultado, as apurações do Tribunal e da Polícia Federal já são uma rocha no caminho a ser trilhado por ela rumo à vaga de fiscal do dinheiro público. Na verdade, Fátima Pelaes já pode dar adeus a esse sonho.

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