E Obama fala, fala, fala, fala…


David Bromwich
(“Diary”, London Review of Books)

Os grupos antigoverno na Síria foram induzidos a uma intoxicante visão de triunfo, ao ouvir o que o presidente Obama disse em agosto de 2011, que foi traduzido, acertadamente, na manchete “Assad tem de sair”. Antes, Obama já emitira mensagens assemelhadas: “Mubarak tem de sair” e “Gaddafi tem de sair”. Obama pode talvez se ter metido na cabeça a ideia de que desempenhava papel benigno na Primavera Árabe – mostrando-se ‘do lado certo da história’ (como ele gosta de dizer). “Assad tem de sair” soou também como se o presidente tivesse incorporado o espírito de George W. Bush; mas talvez não.

Já transcorridos 56 meses de governo Obama, não cabem dúvidas de que Barack Obama gosta de falar. Pensa que os americanos e outros anseiam por ouvir o que ele tenha para dizer, e sobre vários assuntos; conforme essa sua percepção, ele disse, em agosto de 2012, sobre a guerra civil na Síria: “Uma linha vermelha para nós é se começarmos a ver quantidades de armas químicas movidas de cá para lá ou sendo usadas. Isso mudaria meu cálculo”. Em março, a versão era outra, para a mesma declaração: o uso de armas químicas por Assad “muda o jogo”. Dois comentários nada diplomáticos. Quem estivesse interessado em empurrar os EUA para mais guerras não diria melhor, nem mais claramente, dos próprios interesses.

Quando surgiram algumas evidências de que se usaram armas químicas na Síria, esse ano, primeiro em março, perto de Aleppo, depois em agosto, perto de Damasco, as forças que pressionam a favor do envolvimento dos EUA exigiram, imediatamente, mudança de política.

Quem são essas forças? Uma das maiores e das quais menos se fala nos EUA sempre foi a Arábia Saudita. Se é preciso fornecer armas e dinheiro a jihadistas para enfraquecer a Síria e, por essa via, enfraquecer também o Irã, os sauditas sempre se mostram dispostos a fazer tudo isso. Turquia e Qatar também apoiam os jihadistas, contando com auferir vantagem política; e a Israel interessa prolongar a guerra, mas sem deixar que a vitória penda para os jihadistas. Assim Israel brilha com renovado fulgor como único parceiro com que os EUA contam, numa região que vai sendo cada vez mais devastada.

“QUE SANGREM…”

Matéria publicada pelo New York Times dia 5/9 noticiava manifestação de um ex-diplomata israelense, sobre os jihadistas e o exército sírio: “Que sangrem os dois, hemorragia até a morte: por aqui, esse é o nosso pensamento estratégico. Enquanto continuarem assim, não haverá real ameaça síria”.

Depois que emergiram notícias do uso de armas de gás em março, Obama concordou, pela primeira vez em público, com mandar armas norte-americanas para apoiar grupos “do bem” dentro da oposição na Síria. Depois do incidente de agosto, no qual se registraram mais mortes, Obama anunciou sua conclusão de que Assad ordenara os ataques e que mísseis norte-americanos não tardariam a “punir” a infração atacando alvos significativos do Estado. Ao mesmo tempo, Obama insistia que não queria alterar o rumo da guerra, com a intromissão da força bélica dos EUA. Seu plano não iria além de um bem merecido castigo. A formulação traiu a contínua relutância; também mostrava que Obama pode ser levado a agir contra suas inclinações e, mesmo assim, consegue acomodar a coisa aos seus próprios padrões morais.

Não há dúvidas de que houve um ataque. Ninguém sabe ainda, com razoável certeza, quem o ordenou. Assad poderia ter ordenado, mas, dado que estava em vantagem na guerra e o movimento seria suicídio, não se entende como Obama concluiu o que concluiu. Diz-se que os rebeldes não teriam competência técnica para usar o gás, mas há notícias de que estavam de posse de armas químicas; a ideia de uma operação forjada, de provocação, e bem-sucedida, exigiria alto grau de perversão e talento dissimulatório que também são difíceis de aceitar.

O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, obscureceu a discussão no final de agosto, quando, primeiro, pediu inspeção do local por inspetores da ONU; e logo depois os alertou para que saíssem de lá, porque os EUA bombardeariam tudo imediatamente. A coisa trouxe de volta ecos de Bush no Iraque em 2003, e Kerry tratou de cancelar a própria ordem; mas, surpreendentemente, declarou que nada do que os inspetores da ONU descobrissem faria, para ele, qualquer diferença.

“AUTORIZAÇÃO”

Apoiado só em inferências forçadas e pressupostos, dos quais a melhor ‘pista’ era uma comunicação interceptada – gravação de uma fala de um muito perturbado suposto comandante de forças sírias, entregue aos EUA pela inteligência israelense – Obama declarou sua intenção de ordenar um ataque. Em seguida, pediu autorização ao Congresso, para usar força militar e queria poderes para agir como entendesse necessário, para “responder a”, “deter” e “degradar” as capacidades militares e defensivas do governo sírio. Todas essas são palavras sem significado preciso, e foram escolhidas por essa razão.

A campanha doméstica a favor de ataque norte-americano aos sírios foi marcada por uma notável novidade vinda dos agentes promotores de guerra humanitária: mensagens de Twitter, enviadas por Rice e pela embaixadora dos EUA à ONU, Samantha Power, para promover também pelo lado de fora os objetivos pelos quais trabalhavam dentro do governo.

No final de agosto, com britânicos ou sem, os EUA estavam posicionados para ir à guerra. Mas a opinião pública já migrara para um ceticismo desconfortável – a proporção, que era de 3:1 a favor dos que não queriam a guerra, subiu, na segunda semana de setembro para mais de 2:1 contra. E foi no meio dessa deriva que o presidente resolveu enviar a questão ao Congresso e pedir que dividissem com ele a responsabilidade. Mas o Congresso, então, já estava refletindo a opinião pública.

A consulta sugeriu que Obama queria mais tempo para pensar, e que não queria perder para a Grã-Bretanha, que seguira os procedimentos de um governo constitucional. Mas incongruente e muito estranhamente, Obama logo acrescentou que não seria pautado pela votação no Congresso. O que aí se vê é ambivalência pessoal privada, exposta para contemplação universal.

ARMAS QUÍMICAS

Dia 9/9, Kerry deixou escapar um comentário, que seria carregado de consequências. O único meio pelo qual Assad conseguiria evitar ataque norte-americano seria ele entregar suas armas químicas a supervisão internacional e eventual destruição. “Claro” – Kerry acrescentou – “que não acontecerá.” Putin ouviu e entrou em cena. Mas, sim, disse Putin, é claro que acontecerá, porque a Síria entregaria suas armas químicas à inspeção internacional e até ao confisco, nos termos de um acordo que a Rússia intermediaria; em segundos, seu ministro de Relações Exteriores, Sergei Lavrov, apareceu com um plano diplomático no qual já vinha trabalhando há meses.

A Casa Branca e o Departamento de Estado fizeram de tudo para ficar com os créditos por esse desenvolvimento, mas é quase impossível acreditar que tenha sido resultado de plano conjunto, do qual Kerry tivesse participado. Implicaria que o presidente ter-se-ia posto, ele próprio, numa situação que causaria embaraços ao governo, que o humilharia pessoalmente e que poria o mundo à beira de uma guerra, ‘porque’ sabia da surpresa que surgiria no momento certo.

A boia não requisitada que Putin empurrou para Obama levou o presidente a retirar a consulta que encaminhara ao Congresso – mas, isso, só depois de ter absoluta certeza de que a votação aconteceria dia 11/9. Estava a caminho de ser derrotado na Câmara de Representantes e, possivelmente, até no Senado.

É pouco provável que Obama mude outra vez, por hora. Mas deixar-se na posição passiva, de quem só ouve o que os russos digam, que responde às vezes sim, às vezes não, às vezes “Vamos analisar”, exporá todo seu governo à acusação de estar “liderando pela retaguarda” demais (foi Obama quem inventou essa, ao jactar-se do que fazia na Líbia). A diplomacia é coisa relativamente nova para Obama. Mas, dessa vez, não teve escolha e terá de trabalhar duro para resistir à pressão para bombardear o Irã que nunca para de vir de Israel e do lobby israelense nos EUA.

(artigo enviado por Sergio Caldieri)

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

3 thoughts on “E Obama fala, fala, fala, fala…

  1. Talvez a própria opinião pública americana,já não embarque como em outros lugares ,nas armações dos “defensores” da paz e da vida,com bombardeios e mortes de populações em países cujos governos COINCIDENTEMENTE (QUE PALAVRÃO),NÃO ESTÃO ALINHADOS COM SEUS INTERESSES,imaginem se na Líbia ao ínves do Kadaf ,FOSSE UM LÍDER REBELDE que depois de preso fosse agredido e executado em praça pública? o que diriam ao mundo? vamos enforcar por crime de guerra,crime contra a humanidade.E O QUE ACONTECE agora naquele país ? a imprensa divulga ? Está errado ASSAD em se defender? defender seu país? não são rebeldes que querem derrubá-lo ,são radicais ,terroristas e perseguidores de cristãos ,e como cristão prefiro ASSAD QUE MESMO NÃO O SENDO soube respeitar essa parcela do seu povo,povo que agora sofre as consequências da irresponsabilidade de governos que armam e mandam para a guerra gente que não luta por liberdade ,mas por dinheiro e poder .

  2. Segundo os depoimentos dos analistas de todos os jornais que leio, e de comentaristas internacionais como Fareed Zakaria, as forças rebeldes na guerra na Síria são formadas por 80% de pessoal da Al Qaeda. E este pessoal é arregimentado em várias tribos e países, são pessoas mercenárias que não têm bandeiras ou ideologia.
    Como seja. Ou permanece Assad ou entra a Al Qaeda, de qualquer forma os Estados Unidos não têm como prevalecer na Síria. O receio mundial é que, considerando-se que os norte-americanos são obrigados a usar o que fabricam em grande escala – a indústria bélica movimenta 28% do orçamento do Tio Sam e não pode parar – eles busquem de algum modo um motivo para bombardear. Desta vez, entretanto, a opinião pública deles está maciçamente contrária, pois sabe que acabará gastando outros trilhões de dólares e ficará em dificuldades para pagar suas contas. E para quê? Que eles, Estados Unidos, são loucos por sangue, vampiros insaciáveis, já sabemos. Mas terão que pensar mil vezes antes de bombardear a Síria, já que Assad tem aliados como Russia e China. E se existe alguém neste cenário com histórico de jogar bombas nucleares em populações civis … este “alguém” é a terrinha de Marlboro. Não esquecer que as bombas atômicas que eles, os defensores da democracia (argh!!!), os arautos da proteção dos direitos humanos (argh!!!) até colocaram nomes delicados nas bombas: a de Hiroxima … chamou-se “Little Boy”; a de Nagazaki … “Fat Man”. Que gracinha!!! Mataram centenas e centenas de milhares de pessoas na hora e milhões depois. Idosos, crianças, mulheres, não sobrou ninguém.
    Agora … a ditadura sanguinária ianque está em dificuldades, que só aumentarão e aumentarão.

  3. Israel tem plena razão. A Síria é ruim, com o cleptocrata Assad e será pior ainda, com estes radicais islâmicos no lugar dele. O real problema da Síria (idem Egito, Irã, etc.) não é o ditador fulano ou o grupo radical liderado por sicrano. O real problema da Síria (idem Egito, Irã, etc.) é o Islamismo. Ser islâmico torna obrigatório que tal país seja também:
    1- Um país pobre.
    2- Uma ditadura.
    3- Uma cleptocracia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *