E quem se declara a favor da ‘política da desigualdade’ nos EUA?

Nicholas Lemann (New Yorker)

A mudança mais espantosa na sociedade norte-americana na geração passada – mais ou menos desde que Ronald Reagan foi eleito presidente – foi o aumento da desigualdade de renda e riqueza. Timothy Noah, em The Great Divergence: America’s Growing Inequality Crisis and What We Can Do About It (Bloomsbury), bom guia geral para o assunto, conta que, em 1979, membros dos muito comentados “1%” detinham 9% de toda a riqueza pessoal. Hoje, os mesmos detêm 25%! E quanto mais para cima se anda na pirâmide, mais os ganhos aumentam. Os 10% mais ricos dos 1% detêm cerca de 10% da renda total, e em um centésimo do 1% mora 5% da renda total. Embora a Grande Recessão tenha sido mais dura na base da pirâmide, a recuperação de modo algum beneficiou os mais pobres. Em 2010, 93% dos ganhos do ano foram diretamente para o 1% mais alto da pirâmide.

Dado que os ricos são muito mais pobres de votos que de dólares, seria de supor que os 99%, em ano eleitoral, estariam atentos à política, para conseguir reaver parte, que fosse, do que lhes foi tirado, e que a questão da desigualdade estaria em todos os cartazes. Até agora, não se viu nada disso.

Occupy Wall Street e outros movimentos assemelhados conseguiram que o presidente Obama abraçasse retórica mais popular, mas não se vê sinal de que Occupy venha a converter-se em ativa força política, como o movimento Tea Party. Houve um momento, durante a campanha Republicana nas primárias, quando rivais de Romney, como Newt Gingrich, tentaram roubar votos dos que estavam à frente, deblaterando contra Wall Street e a igualdade privada, mas também não durou muito. A política parece ter azedado. Apesar disso, grande parte do descontentamento geral dirige-se contra o governo – o governo que conseguiu impedir que a recessão virasse depressão.

Por que a política não trata das questões que se esperaria que tratasse? Tradicionalmente, a classe política tem sido figura mais apagada nos EUA que na maioria dos países ocidentais, supostamente porque os EUA, embora economicamente mais desiguais e mais duros no falar, eram socialmente mais iguais, mais diversos e mais democráticos, e melhor em dar oportunidades de progresso às pessoas comuns. Foi o que Alexis de Tocqueville descobriu nos anos 1830s, e o argumento perdurou. Pois, agora, também já começa a desgastar-se. Durante 50 anos, de 1930 a 1980, a desigualdade econômica decresceu significativamente, sem, por isso, ameaçar o “excepcionalismo norte-americano”.

Por isso também, é difícil não ver o quanto a desigualdade cresceu depois dos anos 1980s. Por mais que se acredite que tudo que qualquer boa sociedade exige é – segundo o muito discutível mantra conservador – que todos os cidadãos tenham oportunidades iguais, é impossível não se abalar com o que se vê hoje. A oportunidade é cada vez mais ligada à educação, e o desempenho educacional é ligado à renda e à riqueza. No que tenha a ver com mobilidade social entre gerações, os EUA aproximam-se hoje do fundo do poço, entre as nações desenvolvidas.

Como competidores de concursos de culinária de televisão, os autores aos quais se oferecem os mesmos ingredientes socioeconômicos fazem coisas diferentes com eles, em termos analíticos, mas, em geral, ninguém aprova a situação e praticamente todos culpam a elite.

No topo da maioria das listas dos liberais de o que fazer a respeito da desigualdade, sempre aparece o sistema de impostos para redistribuir riqueza – sempre mediante um aumento de impostos para os mais ricos e para os ganhos de capital. Em The Great Divergence, Noah descreve vários possíveis remédios: aumentar os postos de trabalho público, regular mais fortemente Wall Street, fortalecer os sindicatos, baratear a educação superior. O presidente Obama, pelo menos, fez gestos na direção de várias dessas medidas.

Mas se essas são as respostas naturais, pelo menos de um Democrata, por que esses remédios não apareceram, até agora, no centro dos debates políticos em ano eleitoral nos EUA?

Por tudo isso, a desigualdade já é causa política, embora por vias estranhas e inesperadas. Já se prevê que os Republicanos serão o partido que atacará a desigualdade… porque os Democratas converteram-se no partido de Wall Street.

Mas se queremos avançar – e fazer com que o sistema político tente com seriedade reverter as tendências dos últimos 30 anos – alguém terá de achar um jeito de costurar uma coalizão de diferentes, de pequenos grupos de interesses os quais, cada um do seu jeito, preocupam-se profundamente com a desigualdade, para que, juntos, pressionem Washington a deslocar-se na direção de políticas específicas. Não é trabalho agradável. Mas para quem entenda que o governo é o melhor instrumento para enfrentar a desigualdade, esse trabalho é hoje moralmente urgente.

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