E se Milton Friedman comandasse o Federal Reserve?

Paulo Krugman (O Povo)

 

Recentemente, o senador Rand Paul, potencial candidato à presidência dos Estados Unidos e autoproclamado especialista em questões monetárias, foi entrevistado pela revista Bloomberg Businessweek. Não foi bem-sucedido. Por exemplo: Paul disse que os Estados Unidos terão “um déficit de US$ 1 trilhão por ano”; na verdade, o déficit deverá ser de apenas US$ 642 bilhões em 2013, e essa cifra está caindo muito rápido.

Porém, o momento mais interessante talvez tenha sido quando perguntaram a Paul quem ele escolheria, idealmente, para comandar o FED, e ele sugeriu Milton Friedman – “ele não é austríaco, mas seria melhor do que o que temos hoje”. Então, o entrevistador informou gentilmente a Paul que, na verdade, Friedman – que hoje teria 101 anos de idade se estivesse vivo – estava morto. OK, Paul disse: “Vamos ficar com os mortos mesmo, pois assim provavelmente o FED não precisaria ser tão ativo”.

Isso sugere uma pergunta interessante: o que houve com o papel de Friedman como um ícone do livre mercado? A resposta a essa pergunta diz muito sobre o que aconteceu com o conservadorismo moderno.

Friedman, que costumava ser o último avatar da economia conservadora, basicamente desapareceu do discurso da direita. É certo que o nome dele é mencionado de vez em quando – mas só por causa de suas polêmicas políticas, nunca devido a suas teorias monetárias. Em vez disso, Rand Paul recorre à visão “austríaca” de pensadores como Friedrich Hayek – uma visão que Friedman descreveu certa vez como uma “caricatura atrofiada e rígida” -, enquanto Paul Ryan, o líder intelectual de fato do Partido Republicano, baseia sua economia monetária em Ayn Rand ou, mais precisamente, nos personagens fictícios de “Atlas Shrugged” (“A Revolta de Atlas”).

Como isso ocorreu? Friedman, ao que parece, era uma figura muito realista e cheia de nuances para a direita moderna, que não gosta de nuances e rejeita a realidade – que tem um conhecido viés liberal.

IDEOLOGIA DE MERCADO

Uma maneira para definir Friedman seria afirmar que ele era o homem que tentou salvar a ideologia do livre mercado dela mesma ao oferecer uma resposta para esta óbvia pergunta: “Se os mercados livres são tão bons, por que é que nós temos depressões?”

Até Friedman surgir, a resposta da maioria dos economistas conservadores a essa questão era basicamente que as depressões serviam a uma função necessária e deveriam simplesmente ser suportadas. Hayek, por exemplo, argumentava que “talvez sejamos capazes de evitar as crises aos restringirmos a expansão a tempo”, mas, segundo ele, “após as crises terem se instalado, não podemos fazer nada para sair delas antes de seu fim natural”. Essas respostas sombrias levaram muitos economistas para os braços de John Maynard Keynes.

Friedman, entretanto, deu uma resposta diferente. Ele estava disposto a recuar um pouco e a admitir que as medidas adotadas pelo governo são, de fato, necessárias para prevenir as depressões. Mas as ações governamentais necessárias, insistia ele, eram de um tipo bastante restrito: a única coisa necessária, nesse sentido, era ter um Fed ativo o suficiente. Em particular, Friedman argumentava que o Fed poderia ter evitado a Grande Depressão – sem a necessidade da implantação de novos programas governamentais – se o banco central tivesse pelo menos agido para salvar os bancos falidos e bombeado reservas suficientes no sistema bancário para evitar uma queda acentuada na base monetária.

Essa seria, como afirmei, uma medida voltada para o realismo (embora ela pareça errada à luz das experiências recentes). Mas o realismo não tem lugar no Partido Republicano de hoje: Paul e Ryan têm atacado furiosamente Ben Bernanke devido ao fato de ele ter regido à crise financeira de 2008 fazendo exatamente o que Friedman disse que o Fed deveria ter feito na década de 1930 – conselho que ele repetiu para o Banco do Japão em 2000. “A coisa mais insidiosa que um país pode fazer contra seus cidadãos”, Ryan repreendeu Bernanke, “é depreciar sua moeda”.

CÂMBIO FLEXÍVEL
Bom, e já que estamos falando sobre depreciação de moedas: uma das defesas mais duradouras da análise econômica direta de Friedman foi o argumento de 1953 a favor das taxas de câmbio flexíveis, por meio do qual ele demonstrou que os países que têm salários e preços excessivamente altos em relação aos praticados por seus parceiros comerciais – como os países do sul da Europa atualmente – se sairiam melhor se desvalorizassem suas moedas, em vez de terem que suportar anos de desemprego elevado “até que a deflação percorra seu triste caminho”. De novo, não existe espaço para esse tipo de pragmatismo em um partido dentro do qual muitos dos membros são favoráveis ao retorno do padrão-ouro.

Mas não quero colocar Friedman em um pedestal. Na verdade, eu diria que a experiência dos últimos 15 anos, primeiro no Japão e agora no mundo ocidental todo, mostra que Keynes estava certo e que Friedman estava errado sobre a capacidade da política monetária sozinha para combater depressões. A verdade é que precisamos de um governo mais ativo do que Friedman estava disposto a tolerar.

A questão, porém, é que o conservadorismo moderno avançou tanto em direção à direita que ele já não tem espaço nem para fazer pequenas concessões à realidade. Friedman tentou salvar o conservadorismo de livre mercado de si mesmo – mas os ideólogos que dominam hoje em dia o Partido Republicano estão além da salvação.

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3 thoughts on “E se Milton Friedman comandasse o Federal Reserve?

  1. Se o FED foi PRIVATIZADO em 1913, desde então NÃO SE FAZ AUDITORIA, todas foram BARRADAS no Congresso, quem comanda é um punhado de manjados e poderosos BANQUEIROS PRIVADOS, que poderia fazer Milton Friedman ou qualquer outro GERENTE fazer sem ordens deles? Aliás, esses BANQUEIROS PRIVADOS PODEROSOS, encabeçados pelo GRUPO ROTHSCHILD, são os mesmos que mandam no FMI e Banco Mundial, nomeiam e TUTELAM seus gerentes para que, por exemplo, passem suas ordens de arrochos atuais a primeiros ministros europeus.

  2. Paul Krugman SABE que o FEDERAL RESERVE BANK dos EUA foi privatizado em 1913 e que qualquer CHEFETE lá terá que cumprir ordens dos donos, os banqueiros que desde a data citada MANDAM. Desafio alguém a provar o contrário ou negar as tentativas fracassadas do congresso dos EUA em auditá-lo.. Aqui estão fazendo o mesmo, apesar de ser um órgão público. Também não se faz auditoria. Lembro aos comentaristas que o Lula anunciou seu presidente do BC, aquele cidadão naturalizado norte americano que havia sido eleito pelo PSDB deputado federal em Goiás sem nunca ter ido lá, ao lado do Bush Filho, como se tivesse recebido ordens do exterior.Pois bem. Esse testa de ferro da banqueirada chamado Henrique Meirelles foi tão poderoso, que o presidente Lula foi forçado a editar uma medida provisória VERGONHOSA para blindar seus crimes de lavagem de dinheiro e levar seu processo para o STF EXTINGUÍ-LOS. O Congresso brasileiro foi cúmplice.

  3. RODRIGO CONSTANTINO

    Veja

    Paul Krugman é a prova de que um Ph.D. ou mesmo um Prêmio Nobel pode defender verdadeiras barbaridades. Krugman já defendeu, diante de um perplexo Kenneth Rogoff, gastos públicos para uma hipotética defesa contra alienígenas, apenas para “estimular a economia”. Gastos inúteis desviando recursos escassos, eis a fórmula para sair da crise. Contratar gente para cavar buracos, depois gente para tampá-los. Só um Ph.D. poderia defender algo assim!

    Mas não é só: em 2002, quando a economia americana sofria com os ajustes do estouro da bolha de tecnologia, Krugman escreveu um artigo afirmando que Alan Greenspan, então chairman do Fed, o Banco Central americano, deveria criar uma bolha imobiliária para estimular o consumo. Não há espaço para interpretações ambíguas; a linguagem não poderia ser mais clara: “Alan Greenspan needs to create a housing bubble to replace the Nasdaq bubble”.

    Às vezes é preciso ter cuidado com aquilo que desejamos. Mas perguntem se isso fez com que o economista adotasse postura mais humilde diante das crises? Não! Ele não seria um típico esquerdista se fizesse isso. Quando veio a crise de 2008, justamente o estouro da bolha imobiliária que ele demandou de Greenspan, o que fez Krugman? Culpou… o livre mercado! E a solução proposta? Ora, mais estímulos monetários e juros baixos, para criar uma nova bolha!

    O que tivemos? Bolhas nos mercados emergentes, incluindo o Brasil. Agora, está ficando claro que é hora do ajuste doloroso. O que fez Krugman? Em artigo traduzido no GLOBO de hoje, ele pede mais estímulos e juros baixos, e culpa… o livre mercado! Sua cara-de-pau é realmente espantosa. Ele diz:

    Resumindo: a principal lição desta era de bolhas — uma lição que Índia, Brasil e outros estão aprendendo mais uma vez — é que quando o mercado financeiro fica livre para fazer seu negócio, ele cambaleia de crise em crise.

    Aprendemos com a história que poucos aprendem com a história. Krugman é um caso típico. Não tem a menor cerimônia em insistir nos mesmos erros, em fingir que o passado não existe, ou que não disse o que disse antes. Para quem tem somente um martelo, tudo se parece com prego.

    Krugman tem só um martelo: estímulos monetários. Para ele, essa é a solução para tudo. E quando essa medida dá errado, como inexoravelmente ocorre, ele joga a culpa para o mercado e pede… mais estímulos monetários. Seria até cômico, se não fosse tão trágico e se a imprensa não desse, ainda, tanto espaço para esse senhor. O que falta estourar, pelo visto, é a bolha do Krugman.

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