É um equívoco o erro humano com manobra tática

Pedro do Coutto

A afirmação contida no título, penso eu, aplica-se ao noticiário político, às páginas policiais, a conteúdos editoriais. Traduzir o erro, que atinge todos, como lances táticos, espertos, e até impulsos estratégicos.

O Globo de primeiro de agosto publica reportagem de Jailton de Carvalho focalizando a desistência do advogado Márcio Thomaz Bastos de permanecer na defesa de Carlos Augusto Cachoeira. A desistência ocorreu na tarde de véspera, terça-feira, quando circulou na Internet a tentativa totalmente despropositada de Andressa Mendonça pressionar o juiz Alderico Rocha Santos, ameaçando-o diretamente se não concedesse liberdade para o empresário de jogos e que atuava amplamente no mundo dos negócios. Para dizer o mínimo.

A matéria publicada incluiu declarações de um dos advogados do escritório Thomaz Bastos, Augusto Arruda Botelho, sustentando ter havido apenas coincidência entre um fato e outro. No trecho seguinte, alguém levanta para o repórter a hipótese de construir manobra para adiar o julgamento de Cachoeira. O autor da interpretação, cujo nome não é citado, esquece que não se trata de adiar sentença ou precipitar absolvição. O caso não é este. Trata-se de soltá-lo ou não por acusações contra ele feitas em Goias. Cachoeira encontra-se preso desde fevereiro.

Sua mulher, Andressa Mendonça, partiu para libertá-lo. Tentou coagir o juiz. Isso é manobra tática? Ao contrário. Ela cometeu um enorme gol contra seu próprio interesse e o interesse de seu marido. Errou. Achou que usando o nome da revista Veja impressionaria. Cometeu um erro maior ainda.

O reflexo imediato, negativo, veio logo em seguida, na tarde do mesmo dia: Marcio Thomaz Bastos deixou a representação de Carlos Cachoeira, uma espécie de homem fatal de Nelson Rodrigues. Tudo o que toca termina em confusão. Constitui um equívoco exaltar sua habilidade, inteligência ou mesmo esperteza. Tanto assim que as coisas não vêm dando certo para ele. Acontecem muito observações atribuindo a personagens altamente inteligentes manobras de flanco quando, na realidade, os atos constituíram erros colossais.

Eu me lembro de Carlos Lacerda em 1965. Governador da Guanabara, seu candidato, Flexa Ribeiro, foi derrotado nas urnas por Negrão de Lima. Lacerda já era candidato a presidente da República lançado pela convenção da UDN. Recusou-se a encaixar a derrota e seguir com sua campanha. Faltavam apenas doze meses para as eleições. Muito bem. Ele, que era dotado de genialidade, resolve deflagrar uma crise político-militar e se opor à posse de Negrão, que havia vencido por maioria absoluta dos votos.

O presidente da República era o general Castelo Branco. Deflagrou efetivamente a crise. Castelo Branco balançou no poder. Para se manter, teve que fazer um acordo com Costa e Silva, ministro do Exército, que garantiu sua permanência até o final do mandato. Mas ao preço do fim das eleições diretas e de sua própria candidatura ao Palácio do Planalto. Castelo Branco cedeu.

Lacerda desabou na crise que ele próprio desencadeou. Houve pessoas, uma delas o jornalista Newton Rodrigues, então redator-chefe do Correio da Manhã, que viram a tentativa de virar a mesa um lance excepcional. Analisaram mal. Identificaram o gênio como mais forte do que seu próprio erro. Erro total, como a história provou. São coisas da política, são páginas da vida humana.

Andressa Mendonça, mais um capítulo das contradições que voam nos momentos difíceis.

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