E Wilson continua

Sebastião Nery

“Em 1968, Juscelino, cassado e exilado pelo golpe de 1964, dera um jeito de voltar do exílio. Foi ao baile (de Carnaval, no Teatro Municipal). Wilson Figueiredo não esquece:

– “Quase meia-noite, recebi a informação de que ele estava vindo. Ele entrou e o baile quase parou, todo mundo a querer vê-lo. Subiu foi para um camarote e de lá acenava para a multidão. A orquestra atacou o “Peixe Vivo” e o teatro inteiro cantou, com ênfase nos versos finais:

– “Como poderei viver / sem a tua, sem a tua / sem a tua companhia?”.

Lá de baixo pude conferir, no camarote presidencial, em frente ao de JK, o desapontamento do ministro dos Transportes, Mário Andreazza, e da primeira-dama, dona Iolanda Costa e Silva”.

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JUSCELINO

“Andreazza procurou reagir com naturalidade, mas dona Iolanda torceu a fisionomia e retirou-se. O público avançava no repertório de Juscelino e agora cantava a valsa Minas Gerais (De Moraes e Manezinho Araújo), hino informal dos mineiros. Na culminação, o coro de cerca de 5 mil vozes (a contabilidade do baile registrou 4 mil ingressos individuais, 500 mesas e 22 camarotes e frisas vendidos) bradava, talvez mais protesto do que esperança: – “Volta! Volta!”.

Não haveria volta e, no fim do ano, nem se poderia mais noticiar uma noite clara como aquela: o AI-5 descia com as trevas completas”.

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LACERDA

Mensagem manuscrita do governador Carlos Lacerda, datada de 9 de dezembro de 1963: – “- “Li a sua nota. Para quem estava desabituado a ver crônica política lúcida, objetiva quanto aos fatos e inteligente quanto à interpretação, a sua é de uma exatidão alarmante”.

Wilson lembra de que outra nota, pouco mais de um ano depois, levou Lacerda a pedir que ele fosse ao Palácio. Lacerda fôra a voz do golpe militar e seria candidato natural, inevitável, à Presidência. Sentia agora que a candidatura escorregava. Ele me disse:

-“Quero que você se convença de que não vão fazer mais eleição direta no Brasil”.

Perguntei por que dizia isso. Respondeu, com alguma megalomania, que era porque não queriam a sua candidatura. E o que o senhor vai fazer?

– “Vou lançar a minha candidatura.”

– “Mas o senhor não acha que seria melhor lançar uma campanha para preservar a eleição direta?”

 – “Não, isso é abstrato. Há de ser uma coisa concreta, minha candidatura.”

E acelerou o processo. Começou 1965 candidato. Em outubro, o Ato Institucional número 2 (AI-2) acabou com as eleições diretas. Ele tinha um faro político muito grande, mas não sabia administrar o seu feeling.

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CENSURA

1. – “Rio, 25/8/73. Proibir quaisquer notícias em boletins, manifestos ou entrevistas partidas de bispos ou padres a respeito do caso do Bispo Dom Pedro Casaldaglia. Ordem do Departamento de Brasília 25/8/73

2. – “Nada sobre D. Helder Câmara, principalmente a entrevista que ele deu ao “Le Monde”.

3. – “Dia 11 de abril de 1973. Minimizar a notícia sobre um protesto feito pelos estudantes da Universidade Federal de Brasília contra a qualidade da comida. Saraiva. Polícia Federal”.

4. – “Dia 8 de novembro de 1972. Nenhuma referência contra ou a favor do Cardeal Hélder Câmara. Gabinete do Gal. Nilo Canepa”.

5. – “ 21.02.73. Proibida a divulgação do telegrama da UPI com o título de “Paradoxos do Brasil”, em que se fala da situação econômica e de torturas, etc. Inspetor Costa Senna. É o editorial do New York Times”.

6. – “ Dia 9 de janeiro de 1973. Tóxicos: proibido acusações do uso de violência por parte dos Órgãos de Segurança. Costa Sena”.

7. – “Rio, 3 de janeiro de 1973 Não se tocar em sucessão presidencial. Costa Sena”.

8. – “ 29 de dezembro de 1972. Proibida a Divulgação de qualquer ação de repressão a terroristas ou prisão de comunistas”.

Os militares sempre tentaram desmentir que tivessem feito censura direta nos jornais, revistas, televisões, durante os 20 anos da ditadura. Essas ordens ai em cima, mandadas para o “Jornal do Brasil” e guardadas , são uma prova concreta de como as ditaduras, todas, são ridículas e estúpidas.

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FIGUEIREDO

Quinta-feira o Rio (centenas de pessoas) prestou belíssima homenagem ao jornalista Wilson Figueiredo que, nos seus 87 anos, lançou “E a Vida Continua”, um livro que é um marco histórico do jornalismo.

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PARANÁ

Pela internet, recebo: “Clube das Araucárias. Aviso aos Sócios: – Conforme combinado, segunda-feira, 5, grande festa para anunciar 2012 repleto de felicidade. Distribuição de prêmios acumulados em 143,5 mil pontos para seis ganhadores. Ingressos disponíveis com Lobo, Pedro, Itaipava, Munhoz, Nelson e Mineiro pelo telefone 3350-2400”.

Isso ai significa a denúncia de uma licitação fraudada. Decifrem.

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