Economia com base na porcaria

Carlso Chagas

Certos dias do ano, nós, jornalistas,  dispomos de assunto garantido para comentar.  Hoje, lamentavelmente,  é um deles. Há décadas batemos na mesma tecla, ainda que não adiante nada. Falamos do  abominável  horário de verão a se iniciar à meia-noite deste sábado para domingo.

No Sul, Sudeste, Centro-Oeste e na Bahia, precisaremos adiantar os relógios em uma hora. Até o final de fevereiro o governo estará surripiando 60 minutos de sono da maior parte da população, a pretexto de economizar energia. Importa menos aos detentores do poder se  o relógio biológico do cidadão não acompanha  os ponteiros e os números digitalizados que levamos no pulso ou instalamos na parede.  Menos ainda entra em consideração o fato de que acendemos  mais tarde as luzes de casa,  mas, em contrapartida, precisamos de lâmpadas acesas na madrugada ficticiamente transformada em  manhã. Semanas transcorrerão até que nosso organismo  se acostume ao novo regime. Provavelmente quando ele estiver terminando,  nova e incômoda  reciclagem far-se-á necessária.                                                         

Situações que seriam cômicas se não fossem trágicas preparam-se para acontecer. A decisão do governo federal de deixar aos Estados a opção pelo novo horário demonstra insegurança e  leva à confusão: quem mora em Juazeiro da Bahia, por exemplo, e  trabalha em Petrolina, Pernambuco, atravessa ponte sobre  o rio São Francisco às sete horas e chega às seis no emprego. Vai ficar uma hora sem ter o que fazer, mas,  ao voltar enfrentará  problemas domésticos. Porque deixou o trabalho às cinco, saiu correndo mas chegou em casa às seis. A mulher cobrará o tempo,  acusando o indigitado operário de ter ficado uma hora no botequim,  quando deveria ter chegado logo.

Brinca-se com a vida dos brasileiros, sem ao menos ter havido uma consulta. Aviões que demandam o Nordeste e o Norte aterrissam  uma hora mais cedo, mas,  no percurso oposto, quantos passageiros perderão o vôo, atrasando-se no caminho para o aeroporto por estarem seguindo o horário  de sua cidade de origem? Das crianças, nem há que falar: vão para a escola com noite fechada. Os pontos de ônibus se transformarão em paraíso para os assaltantes, pois no escuro é  mais fácil levar a bolsa da secretária que saiu às seis horas quando na realidade eram cinco. 

Em suma, todo ano  a mesma coisa, sem maiores protestos do que crônicas bissextas de jornalistas inconformados. No final, autoridades variadas celebrarão a economia feita com base na porcaria: o país terá  poupado 4%  de energia, ainda que às custas de  40% da paciência nacional. 

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COBRANÇA 

Pena que na semana agora concluída tenha sido mínimo o quorum no Senado, por conta do feriado de quarta-feira. Pouca  gente assistiu ao excepcional discurso de Pedro Simon, pronunciado ontem, em  apoio à campanha contra  a corrupção. Lembrou o senador gaúcho haver o Congresso, a 31 de julho de 2006,  aprovado decreto legislativo, logo  sancionado pelo presidente Lula,  aderindo à Convenção das Nações Unidas que estabeleceu critérios de combate à corrupção. Os discursos foram espetaculares, quando se reuniu em  Brasília o Forum Global   que enfatizou a luta contra a impunidade, mas ações posteriortes,  nenhuma, acentuou o senador.

Simon também referiu-se às esperanças geradas pelo discurso de posse do presidente Lula, em 2003, citando a afirmação de que “ser honesto não é apenas não roubar e não deixar ninguém roubar, mas aplicar com eficácia e transparência os recursos públicos”. O problema, para o orador, é que depois veio o mensalão, seguindo-se escândalos variados, sem que o governo nada fizesse. A presidente Dilma Rousseff recebeu elogios.

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A IMPORTÂNCIA DO HORÓSCOPO

O presidente Charles De Gaulle manteve a calma, no auge da rebelião estudantil de 1968, quando não só   Paris, mas a França inteira  pegava fogo. Nem seus  ministros arrancavam dele reações, diagnósticos e até palavras. Quando o movimento foi amainando, uma bela manhã ele comentou estar tudo resolvido. Perguntaram porque e o general respondeu: “o horóscopo voltou aos jornais…”

A explicação era de que durante semanas os jornais franceses dedicaram todas as suas páginas à crise, suprimindo seções tradicionais. Quando retornaram os horóscopos, foi sinal da normalização…

A historinha se conta a propósito da campanha contra a corrupção, que ganha corpo em todo o país. Continuando as coisas como vão, breve a imprensa estará abrindo todos os espaços para o movimento, como aconteceu no passado, na campanha pelas “diretas já”. E tomara que os horóscopos  custem a voltar… 

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MINISTRO POR MEDIDA PROVISÓRIA

Agora que Henrique Meirelles ingressou no PSD, entre suposições e boatos de que será candidato a prefeito de São Paulo, parece  bom lembrar  sua transformação de presidente do Banco Central em ministro do governo Lula.  Da noite para o dia, por medida provisória, e para evitar que Meirelles fosse processado na primeira instância, o presidente da República deu-lhe foro especial. E foram para o espaço as acusações de corrupção feitas contra ele. Seriam revividas agora, quando ele retorna à política? Essa, pelo menos, é hipótese ironicamente  discutida no PT.

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