Ecos do carnaval: na procissão do samba, a favela levou a pior.

Lucas Alvares

Tem um quê antropológico o desfile das escolas de samba dos grupos B, C e D na Estrada Intendente Magalhães, no subúrbio de Campinho. Por ali se apresentam, todos os anos, em torno de trinta agremiações que, alijadas da Sapucaí, desfilam tradições e anseios para um público certamente inferior a qualquer bloco de sujos da Zona Sul.

 Desfile em Campinho

Divididas em três noites, muitas delas têm mais de cordão do que de escola de samba: fantasias que se repetem todos os anos, alegorias sem acabamento e com ferros e madeiras de sua estrutura expostas ao escárnio da platéia e as indefectíveis baterias emprestadas de escolas maiores, que delas levam as marcas dos naipes de tamborins e os cortes secos ou malemolentes dos surdos.

Do carnaval da Intendente, há um dado com o qual é difícil brigar: nenhuma escola que andou pelo Grupo Especial de 2000 para cá desceu a estes grupos em algum momento.

CONDENAÇÃO AO OSTRACISMO

Ou seja: desfilar para as arquibancadas tubulares é quase uma condenação ao ostracismo. E não é de se espantar que ali estivessem escolas como a Em Cima da Hora, a Unidos de Lucas e o Arranco do Engenho de Dentro, todas com passagens marcantes pelo primeiro grupo nos tempos áureos do carnaval carioca e cujos dias de glória hoje se resumem aos sambas clássicos entoados durante o “esquenta” de suas baterias.

A própria Em Cima da Hora, campeã do Acesso B e que disputará a malfadada Série Ouro – monstrengo de 19 escolas de samba que desfilam na sexta e sábado de carnaval na Sapucaí, com as bençãos da Rede Globo – teve de se render a uma estranha coalizão de lideranças comunitárias do bairro de Cavalcanti que expulsou em 2009 os antigos diretores, ligados ao comércio da região e ao dia-a-dia dos terreiros de candomblé, e injetou recursos de origem duvidosa que proporcionaram uma ascensão meteórica do último grupo para o segundo em apenas três anos.

Fala-se, para 2014, na reedição do velho “Os Sertões”, de Edeor de Paula, samba de sucesso no carnaval de 1976. Parece a única oportunidade de concorrer com agremiações subvencionadas por prefeituras da Baixada Fluminense e garantir, ao menos, quatro notas dez no quesito “samba enredo”.

A VIZINHA NÃO FALA MAIS

Se em Cavalcanti a esperança por dias melhores está em um samba do passado, no Morro da Providência – a mais antiga favela da cidade ainda de pé – a Vizinha Faladeira assinou em 2013 o próprio atestado de óbito. Pela segunda vez. A escola ficou de 1940 a 1990 sem desfilar após ter sido desfiliada da antiga União Geral das Escolas de Samba do Brasil, órgão rapidamente infectado pela bactéria xenofóbica do Estado Novo que decidiu a expulsão da escola de seus quadros após a apresentação do “tema estrangeiro” Branca de Neve e os Sete Anões.

Rebaixada este ano do último grupo para a irrisória federação dos blocos, incapaz de organizar um espetáculo minimamente atraente, a extinção surge como um caminho inevitável. Ao contrário de sua co-irmã suburbana, a Vizinha emendou o terceiro rebaixamento seguido, e desfilou com um contingente tão pequeno que, visto de cima, lembrava uma ala do Grupo Especial.

No Morro da Favela, até hoje os moradores mais antigos desmentem Ismael Silva e afirmam que a Vizinha Faladeira, e não a Deixa Falar, foi a primeira das escolas de samba. No carnaval que passou, ao contar a própria história em “O Brasil Está em Festa, A Visão da Pioneira”, o mau gosto de uma “comissão de carnaval” que não se dignou a deixar nomes e sobrenomes encerrou, ao menos por mais uma janela do tempo, a trajetória de um patrimônio vivo da cultura carioca, que parece tão esquecido da historiografia quanto as versões contadas por seus torcedores.

PONTO DE CULTURA

Agir para manter vivas estas agremiações quase centenárias, seu repertório de sambas e a capacidade criativa de suas comunidades é medida imperiosa. Afinal, nem tudo se resume a rebaixamentos e desfiles maltrapilhos: o cotidiano das quadras continua a fervilhar, em ensaios e concursos que revelam compositores e ritmistas de talento e, ao fim das contas, como ponto de encontro de populações que não têm outras opções de lazer saudável.

A criação da inchada Série Ouro, exibida pela televisão com bons índices de audiência, contribuiu para abrigar escolas de samba que estavam próximas da extinção e que, da noite para o dia, acordaram a um passo do Grupo Especial.

Para as outras três divisões, abrigadas em Campinho, não parece haver outra solução: profissionalização, divulgação e firmeza no relacionamento com a Prefeitura, a maior patrocinadora destas escolas. Afinal, se blocos que se reúnem um punhado de vezes por ano se mostram bem administrados e sustentáveis, escolas de samba que são espaços de socialização permanentes em regiões afastadas do centro também podem se manter vivas e progredir enquanto lugares de memória e pontos de cultura que são.

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