Eleição de Trump representa “o fim do mundo como o conhecemos”

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E agora ninguém sabe o que Trump realmente quer fazer…

Marcos Troyjo
Folha

Durante a corrida à Casa Branca, escancararam-se grandes diferenças no estilo de política externa dos EUA defendido pelos candidatos Hillary Clinton ou Donald Trump. No limite, tais distinções remetem a dilema que frequenta a visão de mundo e a atuação externa dos EUA há pelo menos cem anos. Em grande parte de sua história, os EUA tiveram de optar por isolamento ou presença global.

No primeiro caso, amplamente observado no século 19, os norte-americanos forjaram sua política externa na compreensão de que seus vizinhos eram geopoliticamente fracos e de que a Europa era fonte dos males do mundo.

Cabia, portanto, fazer do Atlântico um “lago americano”, com forte poderio naval. Quanto a intervenções para além das Américas, como foi a Primeira Guerra Mundial, os EUA poderiam atuar para ajudar a restabelecer equilíbrios geopolíticos regionais, mas não “ficar no mundo”.

CORTINA DE FERRO – Foi justamente essa necessidade de permanecer nos palcos globais — como precondição da ideia de Ocidente depois da Segunda Guerra Mundial — a que Churchill convida os EUA em seu famoso pronunciamento no Westminster College, no Missouri, há setenta anos. Esta foi a tônica do famoso discurso da “Cortina de Ferro”.

Nesta campanha presidencial, Hillary defendeu a permanência do engajamento global dos EUA em termos econômicos e militares. Se vencesse as eleições, ela continuaria a defender o “pivô para a Ásia” da política externa, iniciado na presidência Obama, e que rompeu com uma tradição de 200 anos de priorização dos temas atlânticos.

Como presidente, Hillary traria consigo a experiência de haver chefiado o Departamento de Estado e, portanto, fluência nas minúcias da diplomacia.

SECRETÁRIOS DE ESTADO – A propósito, Hillary teria como companheiros na lista de presidentes que também foram Secretários de Estado nomes como Thomas Jefferson, James Madison, Monroe, John Quincy Adams, Martin Van Buren e James Buchanan (este um dos piores presidentes, segundo muitos analistas, por não haver evitado a Guerra Civil). Os EUA, portanto, não veem um presidente que anteriormente tenha exercido o cargo de secretário de Estado desde em 1857, quando Buchanan começou seu mandato.

Hillary manteria a estratégia de combate ao Estado Islâmico (EI) e à Al Qaeda sem o comprometimento de tropas americanas. Privilegiaria, assim, a utilização ampliada de tecnologia (com drones de ataque, por exemplo) e apoio logístico e de inteligência a forças locais, como na atual ofensiva das forças iraquianas contra o EI em Mossul.

A candidata democrata também se oporia a uma expansão do poderio militar chinês e suas ambições territoriais, sobretudo marítimas, bem como ao regime de Putin na Rússia.

A VERDADEIRA HILLARY – Se vencesse, com Hillary haveria ao menos a possibilidade de reedição de uma nova iniciativa para as Américas. Foi o que ela sinalizou no discurso reservado que pronunciou numa reunião corporativa do Banco Itaú em 2013 — e que vazou pela imprensa via WikiLeaks. Talvez ali estava a verdadeira Hillary— e não a personagem protecionista que ela encenou durante a campanha.

Já Trump representa um fator “desglobalizante” para a política externa dos EUA. Washington provavelmente se afastará de muitos dos pilares que sustentam a visão de mundo dos EUA há décadas. Aumentam os embaraços com OTAN, Banco Mundial, FMI e as demais chamadas “instituições de Washington”. Trump, se seguir a linha que indicou durante a campanha, denunciará o Nafta e rasgará o TTP, além de incitar a uma guerra comercial contra atuais parceiros como México ou China.

APROXIMAÇÃO A PUTIN – Outro fator notável será a abertura a uma maior cooperação com a Rússia de Putin, com quem Trump já trocou elogios públicos. Trata-se de uma enorme mudança em relação ao candidato republicano anterior – Mitt Romney – que durante a campanha de 2012 identificou no Kremlin o principal antagonista geopolítico dos interesses de Washington.

Trump se vale de parte da insatisfação econômica interna, como o sentimento de perda de postos de trabalho que a mão de obra industrial menos qualificada experimenta nos EUA, para disseminar soluções simplistas de política externa baseadas em preconceitos ou diagnósticos equivocados.

Deste bizarro acervo fazem parte proposições como banir a entrada de muçulmanos nos EUA, construir um muro na fronteira com o México, ou impor um tarifa unilateral de comércio sobre exportações chinesas aos EUA no patamar de 40%.

DUREZA COM A CHINA – Em relação à Ásia, com Trump os EUA tendem a retrair sua presença na região. Tal hipótese é ótima para a China, que gosta de se ver como geopoliticamente preponderante na Ásia, e ainda guarda grandes ressentimentos do Japão e sua belicosidade antes e durante a Segunda Guerra Mundial.

Com tal retração, aumenta consideravelmente o peso relativo da capacidade de dissuasão chinesa, e, portanto, diminui o leque de opções para potências intermediárias como Malásia, Filipinas e Taiwan, embora seja difícil pensar nesta última alinhando-se a Pequim, salvo no caso de incorporação de Taipei ao regime da China continental.

ISOLACIONISMO – Já no que toca à Europa, Trump se identifica com movimentos nativistas ou isolacionistas. Assim foi com as forças que trabalharam em prol do “brexit” e pode-se dizer o mesmo em relação a esses grupamentos políticos que disputarão eleições na França e na Alemanha em 2017.

Os EUA sempre viram a existência da União Europeia e a Otan como algo central para seus interesses de estabilidade e segurança no Velho Continente. Isso continuaria com Hillary, que também buscaria avançar no TTIP — a Parceria Transatlântica de Comércio e Investimentos. Já com Trump, tanto o Tratado do Atlântico Norte como a burocracia de Bruxelas perdem relevância. Navegamos em águas desconhecidas.

Pouco deve-se esperar da Casa Branca em termos de América Latina. A região não é prioridade para Trump. O México tem maior relevância seja em função do Nafta ou da questão imigratória.

POUCOS SE SENTEM BEM – Tudo isso, no entanto, dependerá de quanto da tresloucada retórica da campanha ele carregará consigo para a Casa Branca. O mais correto é dizer que Trump não tem um plano de política externa, apenas um conjunto de posições superficiais.

Numa canção de 1987 da banda de rock R.E.M ouvia-se “It’s the End of the World as We Know It (And I Feel Fine)”.

A eleição de Trump certamente representa a sensação de “fim do mundo como o conhecemos”, mas com ela, ao redor do globo, poucos se sentem bem.

(artigo enviado pelo comentarista Mário Assis Causanilhas)

13 thoughts on “Eleição de Trump representa “o fim do mundo como o conhecemos”

  1. Esses analistas políticos são umas pitonisas de titica. Hillary faria isso, Trump vai fazer aquilo…

    Será que nem depois da vergonha que passaram ao levar de barbada a eleição de Mrs. Clinton eles tomam jeito?

  2. O Trump nada mais é do que o resultado da frouxidão e falta de conhecimento mais profundo dos EUA, sobre a maneira de ser dos países islâmicos.
    Inventaram que o oriente médio e norte da Africa deveriam ser todo democratizado,
    Derrubaram todas as ditaduras que mantinham o radicalismo islâmico a rédeas curtas e deixaram os próprios nativos resolver as suas diferenças.
    Lá o título de eleitor sequer existe, o fuzil supre a sua falta, como não se entendem, partem para a guerra.
    Muçulmano acha que quem governa, é escolhido de Ala, seja de que forma for o governo, tentar implantar modelos a que eles não conhecem ou não aprovam, só pode resultar em tragédia.
    Os americanos disseram que chega de andar pelo mundo, participando de aventuras militares e
    mandar para a morte os filhos da classe média.
    A aproximação do Trump ao Putin, é uma mensagem clara que os “cachorros grandes” vão entrar em entendimento e a cachorrada miúda pare de fazer os grandes brigarem.
    O contribuinte americano não aguenta mais pagar pensões a jovens que perderam a vida ou o juízo, nas guerras de intervenção, sem sentido.
    O Trump ainda vai ser aclamado como o grande pacifista da América.

  3. Incrível, não?
    O homem nem sentou na cadeira e já estão definindo os próximos 8 anos dele como presidente?

    Fariam isso se fosse Hillary a eleito? Nunca!

    O Reagan não era nem rico e arrebentaram com a biografia dele. A esquerda, como sempre burra, teve que engolir ele e Thatcher.

    Ô povinho!

  4. Faz dois dias que a Folhaonline só fala (mal) do Trump. As principais manchetes (negativas) são sobre ele e parece que o mundo acabou. E, o Troyjo também é da Folha. Mas, hoje entendi um pouco melhor a posição dos esquerdopatas da Folha. A Hillary está lançando um livro com um elogio para a Dilma e então os comunas estão em polvorosa porque a Santa Hillary não foi eleita.
    Nos últimos dois anos estive mais de dez vezes nos EUA a trabalho e isto significa que visitei todo o interior do país e não apenas os lugares onde os jornalistas esquerdistas brasileiros vão: New York e Los Angeles. E, já tinha dito aqui na Tribuna, que o Trump tinha grandes chances de ganhar como ganhou. Ontem, falando com o meu chefe, que mora lá, perguintei como estavam as coisas e a resposta foi: continua tudo igual porque nos EUA eles pensam no país e não nos políticos o que é bem diferente do Brasil, onde os políticos pensam apenas neles mesmo e como roubar um pouco mais. E para finalizar: A Hillary é considrada uma grande corrupta pelos americanos e talvez por isto a esquerdopatia brasileira adora ela. Afinal, de corrupção eles entendem bem.

  5. Ontem assisti a um programa insólito na Globo News. Sem Fronteiras, eu acho. No ar, os jornalistas que fazem parte do meu cotidiano, de tanto que os vejo.

    O ‘entrevistador’ era Sílio Boccanera (não sei como se escreve e não vou procurar), e os entrevistados, Guga Chakra (tb não sei se é assim, presto pouca atenção), Sandra Coutinho e Jorge Pontual, o grande tradutor-poeta dos três e de ascendência francesa. Não sei de qual deles gosto mais. Mas ontem me pareceu que eles estavam diante do ‘impossível responder’.

    Silio queria uma análise dos colegas sobre o efeito Trump, sobre o que vem por aí. Pontual chegou a pegar em sacola uma bolinha de ‘cristal’. Sandra Coutinho riu bastante (e é ótimo que ria) e Guga talvez tenha sido quem mais tentou responder às perguntas do colega que veio de Londres.

    A verdade é que se eles, jornalistas internacionais experientes, não têm respostas possíveis, quem terá?

    Trump continua assustador. E o tempo passa, trazendo-o cada vez mais para perto do trono, onde reinará absoluto com seu cabelo laranja e seu avião nominal. Ou vai ser proibido? O avião, claro.

    ……

    Tive pena de Obama no encontro que foi forçado a ter com Trump. Ele e Michele se recusaram a posar para fotografias com o casal multi bi.
    Poderia ser diferente?

    Indigesto.

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