Eles fizeram o novo mundo

Sebastião Nery

FLORENÇA – Reiner Maria Rilke, o poeta, tinha 21 anos, mas já sabia da vida e do mundo. Escreveu o ‘Diário de Florença’. Stendhal, o francês, em 1826 também viu: – ‘Florença, pavimentada com grandes blocos de pedra branca é talvez a cidade mais limpa do universo e certamente a mais elegante’.

E Mary McCarthy, a americana, em ‘As Pedras de Florença’: – ‘Os florentinos inventaram a Renascença, o que quer dizer que inventaram o mundo moderno’.

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LUCIA MACHADO

Em1957, aprimeira vez em que vim a Florença, Lucia Helena Monteiro Machado ainda era uma menina. Entrava para a Faculdade de Filosofia de Belo Horizonte, por onde eu havia passado e já estava na Faculdade de Direito. Tantos anos rolaram e eu a redescobri agora, em um vôo de Paris para Roma, lendo seu excelente livro ‘Florença, Berço do Renascimento’, que diz tudo em 200 páginas:

1 – ‘Parece exagero, mas não é. Em Florença estruturou-se a língua italiana a partir de Dante. Lá Galileu deu início à ciência moderna. Lá nascia a nova concepção de política com Maquiavel e se deu a revolução que libertaria a arte de todos os limites e preconceitos que vigoraram na Idade Média. Em Florença o homem redescobriu a importância de seu papel no mundo’.

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FLORENÇA

2 – ‘Florença conta mais de 2 mil anos de história. Questiona-se se seria romana ou etrusca. A origem etrusca parece ter sido comprovada nas escavações da ‘Piazza dela Signoria’ na década de 1980. Os etruscos chegaram à região na segunda metade do século VII antes de Cristo. E foram dominados pelos romanos no século III AC’.

3 – ‘O nome Florencia, atualmente Firenze, de origem Latina, tem várias explicações. Alguns acham que é uma referência aos jogos florais da época romana. Outros, aos campos floridos que se estendiam pela margem do rio Arno. A hipótese menos provável seria uma homenagem ao general de César, Fiorinos, que ali acampou em63 aC. Preferimos a origem mais romantica: o símbolo da cidade é a flor de lis’.

4 – ‘Em 1348 uma peste matou metade da população’.

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OS TRES

Florença é um mistério da civilização universal. Teve três homens que foram os precursores do Humanismo: Dante, Petrarca e Boccacio. Dante, de1265 a1321. Antes da ‘Divina Comédia’, sua obra prima, que estruturou a língua italiana, ele já havia escrito em latim ‘De Monarchia’, onde defendia a autonomia do poder temporal em relação ao espiritual.

Depois, já em italiano, escreveu ‘Il Convivio’ sobre a sabedoria.

Petrarca, de1304 a1374, também poeta genial, escrevendo em latim, analisa a obra de Cícero e faz com que a Renascença adote o latim clássico como a lingua dos eruditos.

Boccacio, de1313 a1375, deixou sua obra prima ‘Decameron’, pequenas novelas que fizeram dele o pai do conto moderno: ‘um grupo de sete mulheres e três homens, refugiados no campo para fugirem da peste,  de seus desejos, alegrias e seus apetites de forma licenciosa e espirituosa.

Boccacio financiou a primeira tradução de Homero para o latim. E escreveu a biografia de Dante.Os três plantaram assim a Renascença.

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OS MEDICI

1 – ‘Desde 1382 grandes famílias dominavam Florença: os Albizzi, os Alberti, os Ricci, os Strozzi. Mas Florença não seria Florença sem os Medici. Dominaram a cidade por mais de três séculos, exercendo influência na política, nas artes, nas letras e nas ciências’.

2 – ‘Grandes mecenas e grandes colecionadores de arte, são responsáveis pelos tesouros artísticos da cidade. O primeiro da dinastia foi Giovanni Di Bicci, banqueiro, influente até sua morte em 1429. Mas seu filho Cosimo O Velho (1389 a1464), também banqueiro, assumiu a liderança da família aos 40 anos e exerceu o poder por 30 anos’.

3 –Montado em seu cavalo ao lado do Palácio Vecchio, na praça central da cidade, ele está lá até hoje como símbolo do poder. ‘Implacável com os inimigos, apesar de não ter grande cultura, começou a tradição do mecenato. Cercou-se de todos os artistas da cidade, fundou várias bibliotecas e a ‘Academia Platônica’. No seu túmulo, os florentinos gravaram a inscrição: – Pater Patriae, pai da pátria’.

4 – Depois vieram o filho Piero, cujo poder durou só 5 anos e foi pai do papa Clemente VII. Giuliano, filho mais novo de Piero, foi assassinado aos 25 anos. Lorenzo, o Magnífico, (1449/1492), irmão mais velho de Giuliano, inteligência brilhante, assumiu o comando da família, e também foi pai de papa, Leão X. No meio, duas almas endiabradas: Savanarola e Maquiavel, que veremos na próxima coluna.

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