Em aceno a policiais e bombeiros, Bolsonaro prepara recriação de Ministério da Segurança

Amigo de Bolsonaro há décadas, Fraga é um dos mais cotados ao cargo

Felipe Frazão e Vinícius Valfré
Estadão

O presidente Jair Bolsonaro prepara a recriação do Ministério da Segurança Pública com o objetivo de aproximar ainda mais os policiais militares do seu governo. Parte da categoria reclama por não ter um representante na Esplanada para defender seus interesses, como acontece com evangélicos e militares das Forças Armadas, grupos que também ajudaram a eleger Bolsonaro.

O apoio de PMs e bombeiros, que somam 470 mil pessoas na ativa, se mostra importante num momento em que o governo enfrenta manifestações e queda de aprovação. “Quem fez a campanha (para eleger Bolsonaro) foram os PMs e bombeiros. Na hora de virar chefe, viraram (ministros) os comandantes das Forças Armadas”, afirmou o líder do PSL no Senado, Major Olimpio (SP), defensor de pautas policiais no Legislativo, entusiasta da recriação da pasta e ex-aliado de Bolsonaro.

APOIO – Representantes da categoria avaliam que a volta da pasta da Segurança, e a eventual indicação de um nome ligado à área, pode ajudar a intensificar o apoio de PMs ao presidente. Alegam que o setor é mais numeroso que as Forças Armadas, que têm 360 mil homens e três oficiais no primeiro escalão: Walter Braga Netto (Casa Civil), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo).

Há sinais recentes da ligação de policiais ao bolsonarismo. No fim de 2019, a base do movimento grevista de policiais militares no Ceará era formada por apoiadores de Bolsonaro, como mostrou à época o Estadão. Recentemente, PMs de São Paulo foram criticados por tratarem de forma diferente manifestantes contra o presidente e a favor dele.

No Distrito Federal, o governador Ibaneis Rocha (MDB) demitiu um subcomandante por omissão ao não agir para conter uma agressão com fogos de artifício contra a sede do Supremo Tribunal Federal, no mês passado. Ibaneis disse que a PM tinha conhecimento prévio da ameaça e nada fez.

DISPUTA – A recriação do Ministério da Segurança Pública é gestada há meses, mas enfrenta uma disputa de poder. O candidato mais provável para o cargo é o ex-deputado Alberto Fraga (DEM). Amigo do presidente há quatro décadas, desde quando foram contemporâneos na Escola de Educação Física do Exército, Fraga fez carreira como coronel da PM no DF. O nome enfrenta, porém, resistência de outros ministros.

O acesso irrestrito a Bolsonaro incomoda auxiliares que não querem perder influência sobre o presidente. Fraga é tratado como uma espécie de “ministro informal” por Bolsonaro e só não compôs o governo no início do mandato porque respondia a dois processos por cobrança de propina e concussão (vantagem indevida) na Justiça do Distrito Federal. Ele foi absolvido.

“A alegação (para a demora) é que a recriação da pasta depende de recursos, mas há também um ‘braço de ferro’ que se trava ali. Os ministros militares não querem Fraga, têm preconceito porque ele é PM”, diz Olimpio.

EXPERIÊNCIA – O fato de o atual ministro da Justiça, André Mendonça, ser da área jurídica dá força aos argumentos de que o governo precisa de um nome com experiência na área da Segurança. A ideia é que, num primeiro momento, o novo ministério cuide de questões como integração com a segurança dos Estados e municípios, sem ter ascendência sobre Polícia Federal (PF) e Polícia Rodoviária Federal (PRF), que continuariam no Ministério da Justiça.

Para associações de policiais, o novo ministro poderia desenvolver operações integradas entre os Estados. O desenho, que tem o objetivo de não desidratar o ministério de Noronha, tem o apoio do ministro Jorge Oliveira, da Secretaria-Geral da Presidência, major da reserva da PM no Distrito Federal. Sem contar Oliveira, ao menos 44 oficiais das PMs ocupam cargos de confiança no governo, segundo levantamento do Estadão.

“LEGÍTIMA” – Procurado, o Palácio do Planalto não quis se manifestar. Mendonça disse que considera “legítima” a reivindicação de um ministério da Segurança Pública, mas discorda da abertura de discussão neste momento.

Bolsonaro e seus filhos passaram a encampar bandeiras da categoria, como o discurso do excludente de ilicitude e endurecimento penal, nos últimos anos. A família passou a homenagear policiais e seus parentes, além de empregá-los em gabinetes.

22 thoughts on “Em aceno a policiais e bombeiros, Bolsonaro prepara recriação de Ministério da Segurança

    • As polícias militares dos estados, tal qual ocorre nas forças armadas, possui um exagerado número de oficiais. Estes tem penduricalhos diversos em seus salários, inclusive auxílio moradia (no RJ passa e R$ 4 mil).

      • Tudo isso para entregar um péssimo serviço e ainda se corromperem por dinheiro, seja no arrego do tráfico ou propina paga pelo rico, por outro lado batendo em pobres e jogando bombas de gás em professores, estudantes e demais trabalhadores, ao passo que o orçamento destinado à Segurança Pública é quase o equivalente da Educação e Saúde somados.

  1. Aos articulistas da TI e ao CN,
    Pergunto se estão acompanhando e noticiar alguma coisa que parece voltar a ser noticiado na mídia alternativa (pois a grande mídia está incluída na lista de conta cc5) sobre o caso do Banestado e Odebrecht

    • Amigo Lion, é mais uma tentativa de desmoralizar o juiz Moro. As notícias são todas antigas. Foi ao enfrentar os grandes advogados do caso Banestado que Moro aprendeu os macetes que eles usam e conseguiu liderar a LavaJato. Apenas isso.

      Abs.

      CN

      • Eu antes pensava nesse sentido que grandes corporações e poderosos pudessem usar de todos os meios sujos para fazer prevalecer sobre outros interesses – no caso contra o Estado e instituições, portanto, o interesse público.
        Mas estou particularmente impressionado com o que agora se noticia de que a lista fornecida nos autos não é fiel à original e que no exterior obtiveram da procuradoria do país estrangeiro.
        Se isso for fato, seria gravíssimo, não?
        E quer tentemos acreditar nos homens, o real interesse por que estes são movidos nunca está ao nosso alcance.
        De modo geral, nunca gostei de agentes públicos que gostam de aparecer, assim como aqueles que se colocam no papel de heróis e, depois, buscam lucrar com essa imagem.
        Nesse sentido, se antes tinha um pé atrás pela minha formação, embora bem no início apoiasse, depois, e especialmente a partir da vaza jato, já não mais tive dúvida, acreditando, que houve excessos e abusos.
        Abs.

      • Viu que artigos do site do PHA foram tirados, segundo revelou o apresentador do Duplo Expresso, depois de sua morte, sobre a questao,e que alguns jornalistas teriam passado para o outro “time”?

      • Moro, o traiçoeiro, se desmoralizou por si próprio, com o papelão vaxatório de sua demissão espetaculosa. Bastou a saída do traiçoeiro para que a PF pudesse retomar, sem blindagem, o combate a corrupção no alto escalão político.

        • A questão do Banestado nada tem haver com investigação em andamento da PF.

          Já as investigações do outro dia chamado “covidão” por certa DePutada era desdobramento natural na cronologia dos fatos – se não acompanhou.
          Jair Bolsonaro e Moro são faces da mesma moedaou a criatura e seu criador.

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