Em busca de um ponto de equilíbrio

Carlos Chagas

Depois dos funcionários públicos, vem a segunda onda, dos trabalhadores das empresas privadas. Os bancários saíram na frente, paralisando suas atividades em todo o país, ontem. Há dúvidas sobre saber quem ganha com essa greve, se os bancários que exigem 10% de reajuste ou os banqueiros, aferrados aos seus fantásticos lucros e à exploração de seus empregados.

Agora, são os bancários.

Sabe-se muito bem quem perde, porém: mais uma vez, a população. Aqueles que mesmo sem ter conta no banco necessitam ir à boca do caixa para receber seus salários. E mais o vasto contingente dos que tem contas vencidas, dispõem de recursos para saldá-las e acabarão sofrendo multas por inadimplência, ou seja, pela ausência de gente para recebê-las.

Já se diz desde os tempos de Ramsés II que greve se faz contra patrão. No mundo moderno, cada vez mais ela se faz contra o povo. Desde os professores que deixam as crianças na rua, fora da escola ou da universidade, aos motoristas de transportes coletivos que interrompendo suas atividades só contribuem para os donos das empresas conseguirem dos governos aumento de tarifas. Sem falar no fechamento de hospitais e postos de saúde, ou na interrupção dos serviços nos portos, convite para o desabastecimento.

A sociedade precisa repensar a questão das greves. Como preliminar, admita-se que os grevistas têm razão em reivindicar melhores condições de trabalho. Só como exceção assiste-se determinadas categorias de marajás cruzando os braços e deliciando-se com alguns dias na praia. A imensa maioria dos assalariados ressente-se de seus salários, no Brasil e fora do Brasil. Não parece fora de moda a teoria da mais valia, que um dia já assustou o mundo.

O problema é como viabilizar as greves com o mínimo de prejuízo para a população, em especial aquela menos favorecida. Nessa hora falta o poder público na equação. Caberia ao governo antecipar-se e, se das sucessivas rodadas de negociação entre patrões e empregados não redundasse nada, que exercesse suas prerrogativas oriundas do voto majoritário. Forçar os empresários a ceder muito mais do que cedem, proibindo ao mesmo tempo que setores e serviços de prioridade inconteste negassem à população suas necessidades básicas. Até mobilizando os contingentes ligados à segurança nacional postos à sua disposição pela essência do sistema democrático, onde se inclui a preservação da ordem. A busca desse ponto de equilíbrio não parece impossível, desde que apoiado pela sociedade.

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MANIFESTO INÓCUO

A dúvida vem de muito tempo: saber se Fernando Henrique Cardoso ajuda ou atrapalha José Serra. A tertúlia entre eles pode parecer intelectual, acadêmica, mas na verdade não é. Trata-se de um choque de egos. Jamais deixaram de bater de frente, mesmo quando dão a impressão de estar de mãos dadas.

O ex-presidente encabeçou ontem um manifesto dito de intelectuais e artistas favoráveis à candidatura do seu ex-ministro. No texto, defendem a importância da experiência dos idosos, quer dizer, dos velhos, no trato da coisa pública. Na verdade, ressaltam os 70 anos de idade de Serra, uma espécie de faca de dois gumes. Como dizia Tancredo Neves, eleito aos 76 anos, Winston Churchill salvou a Inglaterra e Konrad Adenauer, a Alemanha, quando já avançados em tempo de vida. Ao mesmo tempo, Nero incendiou Roma aos 25 anos…

Não por aí que Fernando Henrique poderia ajudar José Serra. Talvez conquistasse mais votos para o correligionário caso ficasse em silêncio. Coisa que sua personalidade não permite.

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SE A MODA PEGA…

Roberto Gurgel impetrou mandado de segurança contra a presidente Dilma Rousseff, argumentando que não poderia ter sido cortado o orçamento da Procuradoria Geral da República, naquilo que se refere ao pagamento de pessoal. O Procurador defende seus subordinados, mas já imaginaram se a moda pega? Todo ano o orçamento da União é fatiado e dilapidado. Trata-se de uma ficção de Direito, muito a gosto do Congresso, mas se o remédio para evitar que reajustes de vencimentos deixem de ser justos e necessários, através de recursos ao Supremo Tribunal Federal, o risco será de o governo decretar a própria falência. Porque dinheiro não há.

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INVESTIGAÇÃO CAPENGA

Decidiu a Comissão da Verdade só investigar crimes contra os direitos humanos praticados por agentes do Estado, durante os anos de chumbo da ditadura militar. Não houve unanimidade na decisão, apesar de tratar-se de uma reivindicação do governo. É claro que tortura, sequestros, assassinatos e sucedâneos verificados pelos que deveriam sustentar a lei e a ordem chocam sobremaneira a sociedade. Precisariam ter sido punidos, mas a transição da ditadura para a democracia não permitiu. Mesmo assim, fica uma dúvida: assassinar, sequestrar e torturar de um lado, pode. Só do outro é que não?

 

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