Em defesa do diploma para jornalistas

Carlos Chagas

O “seu” Manoel, dono do  açougue ali da esquina, é um craque na arte de cortar  carne. Com seu  facão, tira cada filet, cada costela. Tem o dom de cortar carne. Por isso deve despir o avental, vestir o jaleco, entrar no Hospital Distrital e operar alguém de apendicite? O camelô da estação rodoviária também é um craque na palavra. Vende tudo o que expõe no seu caixote. Deve vestir a beca, entrar no Supremo Tribunal Federal e defender alguma causa? Argumenta-se ser o diploma de jornalista desnecessário, porque a   pessoa nasce com o dom de escrever ou de exprimir-se nas telinhas e microfones.  

Aplausos para eles,  mas o dom de escrever  faz o escritor, como o de apresentar-se com desenvoltura e boa estampa, nas telinhas e nos microfones, faz o  apresentador.  Eles não estão proibidos, pelo contrário, tem o direito de expor seus escritos tanto quanto de mostrar-se no rádio e na televisão. Podem  escrever em jornais e  revistas, mas como colaboradores,  assim como nos meios  eletrônicos, como mestres de cerimônia. Jamais como jornalistas, porque ser jornalista  não  é nem  melhor nem pior do  que ser escritor ou apresentador. É apenas diferente.

O jornalista, além de saber escrever ou divulgar notícias, deve estar preparado para identificá-las através das  diversas funções da profissão, adquiridas de forma ordenada e sistematizada como só o ensino  universitário pode proporcionar: editar, diagramar, selecionar, iluminar,  saber o  que é notícia, e, acima de tudo, tornar  a notícia precisa e verdadeira. Saber como transmiti-la, por escrito ou nos meios  eletrônicos.

Para isso,  necessita, além de conhecer a técnica, dispor de  noções claras de História, Política, Economia, Filosofia, Ética, Geografia.  Esses conhecimentos se adquirem com muito mais eficiência nas Faculdades de Comunicação. Durante séculos não  havia Faculdades de Medicina. Eram os  curiosos, os estudiosos, os curandeiros,  que se dedicavam à tarefa de enfrentar  doenças através do exemplo dos mais velhos e da experiência adquirida.  O mundo andou para a frente e foram surgindo os cursos de Medicina, há muito obrigatórios para quem a exerce.  Sem o diploma, dá até  cadeia, pelo Código  Penal. O mesmo em outras profissões, como Arquitetura, Engenharia e tantas mais. Inclusive a militar, pois saber atirar bem não faz um general.

O Jornalismo seguiu o  mesmo  caminho. Por que tanta gente se opõe ao  diploma? A resposta está nos próprios estudante de Comunicação. Porque é  nos bancos universitários, que acima e além de ideologias, doutrinas e preferências políticas, filosóficas e outras, vocês adquirem um valor  maior. São unidos pelo denominador comum da valorização da profissão, pela dignidade   pautada pelo nosso  objetivo maior, de transmitir à sociedade tudo o que se passa nela de bom, de mau, de certo, de errado, de ódio e de amor. De tragédia e de comédia. Porque será apenas sabendo tudo o que se passa nela que a sociedade poderá aprimorar-se.  Formar-se.

Pertenço à escolada humildade: não acho que sejamos  “formadores de opinião”. Somos informadores, porque conhecendo-se é que a sociedade poderá formar-se, estimulada por mil fatores. Mas existem  outros motivos porque muitos se insurgem contra o diploma. Porque será através dos cursos de Comunicação, de múltiplos semestres convivendo, estudando, debatendo, duvidando  e questionando juntos  que vocês adquirem o sentido de unidade, em defesa da informação, vale repetir,  precisa e verdadeira.

Vocês são os demolidores daquele tipo de  jornalismo hoje quase ultrapassado, que fazia da notícia um trampolim para a concretização de interesses muitas vezes ilícitos, fossem   econômicos, políticos, de conquista do poder e do domínio de grupos e até de nações. No  passado, mais do que no presente, fundava-se um jornal para  defender ou para  opor-se a uma idéia, um partido, uma doutrina e uma ideologia. Ou um interesse.  Colocava-se  a noticia a serviço do enriquecimento, da dominação e da prevalência de minorias sobre a sociedade. Não mudou de todo,mas mudou bastante.

Era mais fácil para os  donos dos meios de comunicação, que se julgavam donos da notícia, escolher a dedo quem trabalharia em suas redações, desde que comprometidos  e postos a serviço de seus interesses.  As coisas foram  mudando, ou  continuam mudando, ainda que haja muito que mudar. Vocês chegam nas redações unidos por uma vontade maior de cultuar, jamais de  travestir a notícia. Além de apresentarem um sentido muito maior de unidade para dignificar a profissão. Para exigir não apenas  mais ética na comunicação social, porém  refratários à sua distorção. Além de melhores salários, melhores condições de trabalho, mais dignidade. Chegam às redações não  por subserviência ou por  serem amigos,   parentes ou sabujos dos donos de jornal  ou de seus prepostos. Há um longo caminho a percorrer, mas o diploma serve de  trator para abrir  estradas no rumo do  objetivo de fazer da notícia  um agente a serviço da sociedade.

Uma pequena história serve para ilustrar porque cabe a nós, jornalistas  essa função de  contribuir  para o aprimoramento  social através da notícia. Na década de 60. em plena guerra fria, um escritor russo  começou a incomodar os donos do  poder na União Soviética. Não era jornalista,   mas escritor, capaz de manipular ficção e emoção como bem imaginava. Chamava-se Alexandre Soljenitchin,  e tanto  criticou o  regime que se viu proscrito. O outro  lado, os Estados Unidos, também por interesses  escusos,  começou a exaltar o escritor, até mais do que suas qualidades recomendavam, e ele acabou recebendo o Premio Nobel de Literatura. Foi expulso da União Soviética, refugiando-se nos Estados Unidos. Lá,  imaginaram a CIA, o FBI, Wall Street e outros braços do confronte ideológico  utilizá-lo como instrumento de sua  propaganda. Queriam passear com ele pelo país e pelo  resto do  mundo como testemunha  viva  dos  horrores do socialismo soviético. 

Soljenitchin negou-se ao papel  de fantoche, rejeitou polpudos empregos e gratificações. Recusou conceder qualquer entrevista à  imprensa e refugiou-se numa pequena universidade, recebendo pequeno salário como professor de Literatura  Russa. Estava congelado  pelos dois  lados. Passados cinco ou seis  anos, como era uma personalidade que despertava curiosidade e respeito, achou  haver  chegado a hora de falar. Convocou a imprensa para uma entrevista coletiva,  comparecendo os  maiores expoentes do jornalismo americano, inclusive o Papa de todos eles, Walter Cronkite. Disse o russo estar preparado para  analisar e criticar   não apenas o regime da União Soviética, mas, também, para apontar as distorções do sistema  capitalista americano.  E foi duro ao extremo.

Quando  abordou a imprensa russa, não poupou a omissão da notícia lá  verificada, sendo os  meios de comunicação   mero instrumento de exaltação de seus governantes. Mas ao chegar à imprensa americana, foi igualmente implacável. Indagou dos jornalistas presentes quem lhes havia dado  o direito de selecionar o que devia e o que não devia ser publicado.  Com que direito manipulavam a notícia, divulgando e omitindo o que bem  entendessem.Uma pergunta dos diabos, danada  de profunda, daquelas de fazer pensar muito tempo.

Foi quando Walter Cronkite levantou-se, mesmo fora de hora, e surpreendeu todo   mundo levando a mão ao  peito, contristado,  sussurrando estar sendo acometido de um enfarte. Soljenitchin, assustado, gritou para os organizadores  da entrevista: “depressa, chamem um  médico!”Nessa hora, Cronkite ficou bom, olhou para o entrevistado e disse apenas: “está respondida a sua pergunta”.     

Em suma, o jornalista americano deixou claro que quando alguém tem  uma dor, chama o médico. E quando as notícias são divulgadas, quem melhor para selecioná-las e divulgá-las do que  os  jornalistas, preparados para a função,  assim como os médicos se preparam para diagnosticar as dores?

Vale encerrar esse capítulo do diploma, tão contestado e combatido por razões mais do que canhestras, acentuando que o  diploma significou a carta de alforria do jornalismo, a prevalência da natureza   das coisas sobre o obscurantismo, imenso  passo à frente nessa  trajetória que não tem fim, para o aprimoramento de nossa profissão.  Importa também  relegar  à lata do  lixo o argumento de que os nossos cursos de Comunicação são fracos, preparam muito mal os estudantes, constituindo-se não raro em  arapucas comerciais desprovidas de conteúdo. Replica-se:   se os cursos são  ruins, deficientes e incompletos, como boa parte deles, vamos melhora-los. Reformula-los. Revoluciona-los, até.

Mas suprimir a   obrigatoriedade do diploma, como fez o Supremo Tribunal Federal,  em 2009, será apenas reconhecer que a batalha é árdua, penosa e longa. Que os donos de jornal ainda dispõem de muito  poder, mas que serão   inexoravelmente derrotados pela notícia precisa e verdadeira.

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