Em nome de Deus

Jacques Gruman

Durante a 1ª Guerra Mundial, mais de dezoito mil sinos de igreja e inúmeros tubos de órgãos foram doados ao esforço de guerra para serem derretidos e usados na fabricação de armas e munições. Viva la muerte ! Em 1936, a Igreja Católica espanhola, mancomunada com os setores mais reacionários, abençoou a direita fascista, afirmando que votar nela era votar em Cristo.

Não espanta que as massas republicanas e revolucionárias, enfurecidas, tenham matado cerca de 7 mil sacerdotes. Eles representavam o braço “espiritual” do atraso e da repressão. São famosas as cenas de camponeses fuzilando imagens de santos.

Na Argentina, o sacerdote Christian Von Wernich ajudava ativamente os agentes da ditadura nos centros clandestinos de detenção. Foi acusado por 33 sequestros e 19 homicídios. Padres “justificavam” os Voos da Morte e parte do clero confraternizava com os militares, promovidos a guardiães e salvadores do cristianismo contra a “desagregação vermelha”.

Visito essas páginas negras do século passado, uma gota no oceano de sangue que jorrou da aliança entre religião e Estado. Os que defendem o ensino religioso nas escolas públicas com base numa suposta superioridade ética dos valores da religião, deveriam se informar melhor. A invasão dos espaços públicos por grupos, seitas e movimentos religiosos é um desrespeito à memória dos incontáveis martirizados pela intolerância que geralmente acompanha o casamento da fé com o poder político.

Num debate sobre circuncisão, um psicanalista argumentou que não cabia generalizar essa prática em nome de um “pacto com Deus”. Como qualquer procedimento cirúrgico, dizia ele, só devia ser recomendado em caso de indicação clínica. Foi o suficiente para que um ouvinte, por sinal médico, se levantasse e, dedo em riste, desqualificasse a argumentação do debatedor, dizendo que não havia ciência que pudesse abalar um dos “pilares da fé judaica”. É esse tipo de fanatismo, insensível ao conhecimento humano, que me assusta. Imagina quando se dá força e poder a ele !

Nessa área, o Brasil não está bem na foto. Grupos religiosos organizados, com representação parlamentar, usando veículos de comunicação potentes, com recursos financeiros monumentais, operam na sociedade com desenvoltura e pregam valores não raro preconceituosos e arcaicos.

Parlamentares evangélicos estão tentando interferir na legislação que regulamenta o trabalho dos psicólogos. Achando que o homossexualismo é uma doença, pregam a “cura” pela terapia do dr. Freud. Uma profissional da área se definiu como “psicóloga cristã” e disse que seu trabalho “está subordinado à palavra de Deus”. Mamma mia ! Se isso prospera, não demora e os divãs, aposentados, virarão confessionários. O fundamentalismo não tem fronteiras.

Os números da indústria da fé são impressionantes. Uma dissidência da Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo, está construindo um templo com capacidade para receber até 150 mil pessoas (um Maracanã das antigas). O dinheiro vem das manjadas promessas de milagres, vendidas sob a forma de “martelinho da justiça”, “toalhinha dos milagres” e carnês variados. Prometem curar qualquer doença e eliminar dívidas (não à toa, não se conhecem casos de banqueiros frequentadores desta igreja).

Têm a cara de pau de dizer que a “toalhinha” já “ressuscitou até morto” ! O alto clero mora num condomínio de luxo em São Paulo, usa helicóptero e avião para se movimentar e, quando um de seus membros precisou de tratamento num joelho, ignorou a “toalhinha” e se operou num dos hospitais mais caros do país.

Ignorância ? Certamente, mas não só. Raposas políticas usam imagens religiosas para cativar públicos conservadores. Ajoelham-se, cinicamente, para ganhar uns votos. O presidente Obama disse que se guia pela fé ao fazer escolhas econômicas. Acrescentou: “Acredito no mandamento de Deus de amar o próximo como a si mesmo”.

É, devia dizer isso para iraquianos, afegãos e outros povos abençoados pela compaixão ianque. Faz diferente o bispo Crivella, queridinho da vez da base governista ? Claro que não. Ao tomar posse no Ministério da Pesca, status de motel de alta rotatividade, fartou-se de jogar nos ombros de Deus a responsabilidade pela multiplicação dos peixes no Brasil.

Na cerimônia de posse, que mais parecia um culto, foi várias vezes interrompido por gritos de “Glória a Deus !”. Quando a espinha se curva a esses personagens, a coluna dorsal da sociedade pede socorro.

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