Em tempo de crise, os conselhos dos clássicos da literatura

Murilo Rocha 

Para o professor e crítico norte-americano Harold Bloom, os clássicos da literatura sempre têm muito a nos ensinar. “Sem perceber, frequentemente, lemos em busca de mentes mais originais do que a nossa”, responde Bloom à pergunta proposta por ele mesmo: “Como e por que ler?” Um Hamlet, por exemplo, encerraria mais questões sobre a complexidade das relações humanas do que a maioria dos tratados de filosofia dos últimos cem anos. A Shakespeare, inclusive, o crítico confere o nada modesto título de inventor do homem moderno.

Dentro da lógica de Bloom, uma imersão nos livros, em meio ao turbilhão de informações, opiniões e teses replicadas nas redes sociais, é sempre necessária para tentar enxergar com mais clareza alguns acontecimentos e não reivindicar um ineditismo histórico, quando na verdade pode-se estar incorrendo no mais batido lugar-comum.

“O Leopardo”, de Lampedusa, por exemplo, pode ser lido como uma alegoria – e também um alerta – às respostas dadas pela classe política brasileira até agora aos protestos nas ruas por todo o país. Na obra do escritor italiano, ambientada na segunda metade do século XIX, uma nobreza decadente tenta se reorganizar diante da força de uma nova classe emergente sedenta por mudanças na Itália.

Acuada e sem saída, parte dessa aristocracia faz concessões aos liberais na esperança de ainda manter privilégios. O livro, apesar de escrito pela óptica de um homem de “sangue azul”, traz uma reflexão sobre até onde as reformas políticas propostas de cima para baixo atendem realmente ao desejo de mudança – e não só de reforma – da população. “Algo deve mudar para que tudo continue como está”. A famosa sentença do príncipe de Falconeri, dada aos seus iguais como saída da crise instalada nos principados italianos diante da revolução liberal, poderia ser uma frase dita anteontem pelo presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB), durante uma reunião de líderes.

SENTIMENTO COMUM

O “Germinal”, de Émile Zola, também se faz obrigatório dentro de uma “bibliografia de obras clássicas em momentos de crise”. Uma das inúmeras lições extraídas do livro, um marco na literatura mundial pelo estilo realista ao descrever a vida miserável dos trabalhadores de uma mina de carvão no norte da França, é o sentimento comum plantado entre os manifestantes depois de uma longa e trágica greve.

Apesar do fim do movimento grevista e da conquista de poucos direitos, foi moldada na luta dos operários uma consciência sobre a possibilidade de mudança. Não à toa, Zola deu à sua obra o título de “Germinal”, nome do primeiro mês da primavera no calendário da Revolução Francesa.

Caberia ainda nesta lista uma série de outros clássicos da literatura, como “Vinhas da Ira”, de Steinbeck, ou “Almas Mortas”, de Gogol. Este último não trata de um momento de confronto nem de luta social, mas ilustra um cenário de corrupção proporcionado pelas brechas de um poder público apodrecido. (transcrito de O Tempo)

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9 thoughts on “Em tempo de crise, os conselhos dos clássicos da literatura

  1. O livro “A Rebelião das Massas” do filósofo espanhol José Ortega y Gasset (escrito em 1926) é muito apropriado para o atual momento … e para todos os momentos.
    Gasset foi o filósofo mais lido e estudado da sua época (ele nasceu em 1883 e morreu em 1955). Assim como René Descartes tinha como projeto pessoal a Reforma da Filosofia (o que conseguiu, daí ser considerado como O Pai da Filosofia Moderna), Gasset pensava da mesma forma. Vale ressaltar que ambos estudaram em colégios jesuítas. A abordagem sócio-filosófica de Gasset poderia (pode) ajudar muito, na compreensão dos problemas com os quais lidamos. Certamente!!! Mas, “fazer política” como fazemos, inviabiliza praticamente tudo. Não há educação nem cultura para perceber o ser humano como tal. Prevalecem os números e seus manipulados, falsos e mentirosos percentuais estatísticos, ou citações de cinco mil linhas. Daí … não há Gasset, nem Platão, nem Lincoln, nem ninguém que resista. Bem, eis uma sugestão, somente uma sugestão: A Rebelião das Massas, por José Ortega y Gasset. Outro? O Contrato Social de Rousseau. Ou, do mesmo Rousseau, Emílio. Abraços a todos!!!

  2. Realmente como diz acima o Sr. Seytrym, texto de alto nível.
    Concordo com as indicações do Sr. Almério Nunes, obras de Platão, Ortega y Gasset, Descartes, Lincoln, Rousseau, todos gigantes intelectuais. Mas para mim, em matéria de Teoria Política e Social, ninguém bate o Inglês John Locke, com seu maravilhoso “Segundo Tratado sobre o Governo”. Abrs.

  3. Meus caros Almério e Seytrym,
    Aprecio de Gasset, O Homem e Suas Circunstãncias, quando este célebre pensador afirma que, para se chegar ao entendimento, precisamos antes superar nossas circunstãncias, o que nos enreda, diificulta a visão conceitual, nos delimita.
    Neste mesmo patamar, Shopenhanuer, O Mundo como Vontade e Representação, o Ser ou não Ser.
    A grande questão é sobrepujarmos a nós mesmos, vencer nossos medos, consertar nossos erros, fortalecer nossas qualidades e minimizar defeitos.
    No entanto, precisamos nos aprimorar através dos outros, mediante exemplos, modelos de comportamentos, atitudes positivas e construtivas.
    O olhar para frente, “sacudir a poeira e dar a volta por cima”.
    Tais condutas devem estar acompanhadas da determinação, da VONTADE, de se querer o melhor.
    Difícil? Muito, haja vista as dificuldades, as CIRCUNSTÃNCIAS que impedem muitas vezes que possamos projetar um futuro auspicioso, razão pela qual a substituição de uma vida que poderia redundar em vencedora por uma subsistência à base do, “Deus quis assim”, da resignação pela existência destituída de qualquer ambição e luta.
    Pois é justamente neste momento que devemos nos rebelar contra a nossa passividade, inércia, letargia, que devemos buscar inspiração e coragem em outras fontes que possam sanar o desdém por nós mesmos, a desvalorização que nos autoaferimos, lamentavelmente.
    Em outras palavras, adotar uma filosofia de vida que seja a tradição da não tradição, isto mesmo, que seja tradicional nas questões a serem respondidas pelo desconhecimento, mas que seja original, única, porquanto deve ser a de cada um em busca de si mesmo e de suas realizações como pessoa, como membro de uma família, como profissional.
    Primeiro descobrir quem se é, elucidar-se e, depois, fazer de si mesmo a representação adequada perante o mundo.
    Um excelente fim de semana, meus prezados colegas deste Blog incomparável.

  4. O grande campeão de boxe e de causas sociais Cassius Marcellus Clay, Jr (Muhammad Ali), quando perguntado sobre as circunstâncias da sua carreira, das suas lutas, dos seus enfrentamentos sociais, respondeu:
    “A maior circunstância da minha vida sou eu”. E olha … ele não leu os grandes mestres existencialistas como Soren Kierkegaard, Jean Paul Sartre e outros. Sobre Compreensão da Vida, Educação e Organização Social … creio que a obra de Platão “República” é imbatível. Mas … para estes governantes aí … Platão é nome de jogador de futebol ou cavalo de corridas.

  5. Caros,

    Gosto de uma idéia do “Discurso sobre a Servidão Voluntária” de Etienne de La Boétie.

    Ele mostra como somos nós mesmos que damos “poder” e sustentamos o sistema que nos oprime. Ele coloca a culpa pela exploração também no explorado, por nunca se rebelar.

    Acho esse aspecto ideologicamente fantástico!

    Parece que o povo Brasileiro está entendendo isso… Ufa!

  6. Seytrym, saudações
    Agradeço sua sugestão/orientação para nós, certamente muito valiosa. Vou procurar este livro, que não conheço.
    Temos tantos autores para citar como colaboração para os nossos homens públicos!!!
    Bortolotto!!! John Locke, o Iluminista Primeiro!!! Quantas pessoas pensaram o mundo para nós!!!
    Francisco Bendl!!! Arthur Schopenhauer … seu livro, por você citado, que espetáculo!!! E, vejam só, caros amigos: certo dia, esperando uma carruagem na chuva … um frio daqueles … eis que Schopenhauer notava que as pessoas aqueciam-se queimando folhas de um livro, que conseguiam em um galpão ao lado. Quando ele verificou, que tristeza, quanta frustração: eram folhas do seu livro O Mundo Como Vontade e Representação!!! Achavam que aquela preciosidade não servia para nada, ele que levou anos, escrevendo!!! Nesta obra prima, Schopenhauer coloca extraordinariamente a compreensão dos Textos Vedas – os primeiros do mundo!!!
    Somos descartáveis!!! … escreveu certa vez o Francisco Bendl. Também o são, para os nossos homens públicos, estes mestres que estamos mencionando.

  7. Meus caros colegas deste Blog incomparável,
    Sim, Almério, somos descartáveis e, digo mais:
    Eu, tu, o Seytrym, Bortolotto, podemos ser contraditórios, às vezes, em caráter individual, no entanto, a massa, a Humanidade em si, não. Ela age de acordo com a época, aos novos tempos, e se adapta fácil às mudanças para continuar ligada entre si, de modo que as pessoas não se sintam diferente das demais.
    Explico:
    Na razão direta que hoje vivemos o desprezo pela vida em nome da emoção e dos tais esportes radicais, o comportamento da maioria tem sido de desdém pelas tragédias pessoais. O fato é comentado, discutido por alguns dias e, fim.
    A tragédia de Santa Maria, RS, não se veicula mais nada a respeito, acabou, tampouco se as fiscalizações continuam nos ambientes fechados e que podem repetir o que houve no meu Estado.
    As milhares de mortes anuais no trãnsito brasileiro, especialmente aos fins de semana, deveriam servir de alerta aos motoristas. Ledo engano. Basta viajar por meia hora para a gente constatar a imperícia, a imprudência, o descaso pela vida do outro e, surpreendentemente, pela própria!
    Houve uma época dos grandes incêndios, especialmente em 1974, onde tivemos o Andraus, Joelma e as Lojas Renner, em Porto Alegre.
    Ora, certamente dois terços dos prédios de apartamentos não atendem sequer os mais comezinhos cuidados contra o fogo.Eles têm sido verificados regularmente?
    Olhem as manifestações populares de agora, essas que tu, Almério, tão bem nos representaste:
    Pois houve baderna e mortes nos países árabes, há sempre balbúrdia na Coréia do Sul, atualmente na Grécia, Turquia, Palestina, enfim, o comportamento da Humanidade obedece um padrão de desprezo por ela mesma, que ouso entender como na razão direta da quebra de valores e princípios que antes nos norteavam, e por quê?!
    Observemos a maneira deplorável como vive o pobre em quaisquer quadrante deste Planeta: sem teto, água, comida, remédio, sem assistência, enfim.
    Morre-se de fome, frio, de sede, de doenças, da falta absoluta de esperança.
    Tenho recebido PPS interessantes sobre os mais diversos tipos de refugiados pelo mundo. Eles dão conta da tristeza dessa gente que se vê obrigada a abandonar suas casas, seu país, em nome da sobrevivência. Crianças que crescerão em barracas, na promiscuidade, na falta de higiene, de escola, de amigos e, por acaso, nos solidarizamos com eles?!
    Aqui mesmo, pessoal, assistimos passivamente as cracolândias, a meu ver, a maior falta de capacidade dos governantes em resolverem a Saúde Pública, não só pelo sofrimento do dependente químico, mas o padecimento que ocasiona a seus pais, as dores, as mágoas, as tristezas, o sentimento de derrota e, no entanto, alguma medida eficaz e prática é posta em execução?!
    Não, meus caros, não sou pessimista, porém realista. Precisamos reivindicar nossos direitos, clamar por ajustes, melhorias, exigir dos mandatários da nação atitudes adequadas, mas interromper esta tendência de suicídio coletivo através de não se calcular os riscos que se corre diariamente,e que estamos sujeitos se não conscientemente estamos admitindo que poderemos fazer parte da estatística mundial porque assim é a vida, que é um grande engano de quem pensa desta forma.
    Somos descartáveis porque nos livramos fácil das pessoas ao nosso redor, sem nos darmos conta que, ao menosprezarmos a vida alheia, estamos fazendo o mesmo conosco!
    Assim como a vida perdeu o seu valor por que enaltecê-la, pensam os que estão à testa dos países que tanto os elegem quanto aceitam regimes de exceção, ou seja, quanto mais morrerem em manifestações, ótimo, serão apelidados de mártires e lembrados até existirem novos e, desta maneira, o ser humano diminui de importãncia para os outros e para si mesmo, e passa a ser, efetivamente, descartável!
    Acredito que não teria sido este o fim que Deus havia estabelecido para nós, no entanto, como nos adicionou às nossas vontades o tal do livre arbítrio, seguramente estamos surpreendendo o nosso Criador.

  8. Em tempo:
    Refiro-me quanto às manifestações aquelas pessoas que participam com a intenção do quebra-quebra, do apedrejamento, de ferir, e não dos participantes pacíficos, responsáveis e atuantes por um Brasil melhor, evidentemente.
    No entanto, são nessas horas que afloram as más índoles, os mal intencionados, e que influenciam muita gente, sim, pois se sentem reforçados, fortes quando em coletividade, e assumem riscos que normalmente não cometeriam.

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