Entenda a crise brasileira e a questão das reservas cambiais

Wagner Pires

Precisamos de uma reserva monetária em dólares para: 1. lastrear as nossas trocas comerciais com o restante do mundo. Essas trocas são feitas em dólar; 2. lastrear a remessa de lucros das multinacionais; 3. pagar juros e montantes da dívida externa, tanto pública quanto a privada. Se o país tem reserva em dólares todos esses fluxos monetários ocorrem sem maiores transtornos.

Quando o país não possui essa reserva, ou esse colchão de proteção cambial, tem de pedir emprestado à organizações multilaterais. O mais comum é o Fundo Monetário Internacional (FMI), submetendo-se aos juros cobrados pelo banco. É um custo a mais, neste caso.

Quando se tem uma reserva como a que nós ainda possuímos, há possibilidade de existir uma política cambial e monetária mais propícia ao desenvolvimento do país. Se o governo faz o dever de casa mantendo uma política fiscal (de gastos do governo) equilibrada, abre-se a possibilidade do Banco Central diminuir a taxa básica de juros e estimular o crédito privado e o investimento.

AUMENTAR JUROS

Agora, se faltam as reservas e estas são formadas por empréstimos junto ao FMI, que geralmente são em montantes não muito significativos, o Banco Central fica obrigado a aumentar os juros para manter o fluxo positivo de dólares em relação ao país, de modo a resguardar a pouca reserva monetária em dólares disponível.

Ou seja, o país fica refém do empréstimo junto ao FMI, e é obrigado a fazer uma política contracionista, isto é, de inibição de investimentos e indutora da recessão.

POLÍTICA ERRADA

Ainda temos reservas em quantidade suficiente para nos dar a autonomia na condução da política monetária, isto é, nos permite praticar uma taxa de juros baixa, que estimule o consumo, a produção e o investimento.

Mas, o que ocorreu, então? Por que estamos praticando uma taxa de juros de duas casas decimais se temos reservas suficientes?

Não é problema com as reservas e sim com o excesso de despesas públicas na política fiscal expansionista de Dilma. Esse excesso de despesas e a expansão do crédito fizeram a base monetária se multiplicar, isto é, aumentou o volume de dinheiro em circulação, ou a velocidade de circulação da moeda.

PRESSÃO INFLACIONÁRIA

A velocidade de circulação da moeda dada pelo excesso de despesa do governo e do volume do crédito – tanto público quanto privado -, assim como o represamento artificial dos preços arbitrados pelo governo, fez criar uma pressão inflacionária improrrogável já no final de 2014. Essa pressão inflacionária obrigou o Banco Central a elevar a Selic (taxa básica de juros) para conter o excesso de dinheiro em circulação, pela restrição do crédito dado tanto para consumo quanto para investimento.

E AS RESERVAS?

Então, veja, não é problema nas reservas. Nós, ainda as temos. Se bem que não sabemos se haveremos de ter por muito tempo, porque a perda de grau de investimento pelas agências de risco e a possível subida de juros nos Estados Unidos pode nos expor a um ataque especulativo e nós sermos obrigados a queimar nossas reservas para conter uma ultradesvalorização cambial.

Nosso problema foi, literalmente, criado por erro de gestão de política fiscal, isto é, pela exacerbação da despesa pública, realizada para sustentar o jogo político de poder da agremiação petista.

16 thoughts on “Entenda a crise brasileira e a questão das reservas cambiais

  1. Agradeço ao Wagner Pires o artigo em tela.
    Simples, didático, altamente esclarecedor até mesmo para leigos do meu porte, de poucas luzes, para compreendermos a questão das reservas em dólares que temos, e as razões pelas quais não são usadas para debelar a crise econômica que nos encontramos.
    De certa forma, esta douta explicação resgata as minhas constantes e veementes críticas manifestadas em vários comentários anteriores, quando não admito que recaia sobre o povo a incompetência e incúria governamental, exatamente o que a Dilma faz com o povo brasileiro neste momento, ou seja, culpar-lhe pela má administração e lhe atribuir uma carga tributária insustentável, afora o cidadão ter de lidar com a inflação, desemprego, desvalorização da moeda, e total desesperança enquanto perdurar este péssimo, corrupto e desonesto governo.
    Parabéns pelo texto, Wagner Pires, meu caro amigo.

    • Muito obrigado, meu amigo Bendl.

      Tenho tido muito pouco tempo para acompanhar a nossa TI, ultimamente.

      Para minha surpresa encontrei este meu comentário publicado como artigo. Só mesmo a bondade do sr. Newton para ter feito tal coisa.

      Grande abraço, meu amigo!

  2. Caro Wagner Pires, gostei muito dos esclarecimentos do seu post.

    Até hoje não entendi quais são as vantagens de se ter reservas em dólar ou em ouro.

    Aproveitando a oportunidade, será que poderias de uma maneira sucinta esclarecer o seguinte:
    1. Quais são as vantagens de se ter uma boa reserva em ouro? Até os EUA possuem.
    2. Qual deveria ser o mix ouro-dólar ideal?
    3. Porque a Alemanha esta transferindo suas reservas de Ouro dos Estados Unidos para o Banco Central Alemão?
    4. Porque China, Rússia, Índia estão aumentando suas reservas de ouro?
    5. Porque as reservas de ouro brasileiras são pequenas?

    Desde já agradeço a aula!

    • Sr. Guilherme. Desconheço as informações que o sr. está predispondo aqui, portanto, não posso lhe auxiliar com uma opinião abalizada.

      De qualquer modo o ouro ainda é um grande fundo de reserva e um excelente metal para lastrear a riqueza de uma nação.

      Qualquer interrupção no processo de aceitação do dólar ou de outra moeda como lastro das transações comerciais, é o ouro que voltará a reinar.

      Grande abraço, e muito obrigado pela deferência!

  3. Grande Wagner
    “Nosso problema foi, literalmente, criado por erro de gestão de política fiscal, isto é, pela exacerbação da despesa pública, realizada para sustentar o jogo político de poder da agremiação petista.”
    Falamos com educação, com respeito para quem não merece nenhum dos dois!
    No fundo, bem lá no fundo, nossos problemas são muitos. Sustentar o jogo político, sim, mas também para a organização da roubalheira, da corrupção e do enriquecimento ILÍCITO de um grupo que se apropriou de tudo, ou quase tudo.
    Nosso povo, em sua imensa maioria, quando houve nossa Rainha Dillma I dizer que temos “bilhões de dólares” de reservas, acha que isto é UMA POUPANÇA, dinheiro para pagar nossas dívidas e vivermos felizes.
    Boa parte deles, os dólares, foram adquiridos, acumulados, também no mercado especulativo. As compras quando a moeda caia, estão neste fundo. Na média compra/venda, devemos estar empatados. estou errado? Dillma brinca também com isto! E vai enrolando, enrolando. Até que um dia, para nossa desgraça, a nossa casa Brasil caí, como caindo estão as do programa “minha casa, minha dívida”.
    Amigo, Wagner, belíssima análise, como sempre. Tomara possamos esperar pelos encaminhamentos democráticos para nos livrarmos destas pestes. Mas só o impeachment não me satisfaz mais. Quero julgamento, condenação no limite e xilindró. Papudão para elles.
    Abraço.

    • Caro Fallavena, o país conseguiu manter o fluxo positivo de dólares para o país até 2014. O Balanço de Pagamentos que envolve as contas comerciais (produtos e serviços) e a conta capital e financeira (que envolve as movimentações das multinacionais e os investimentos em títulos públicos e privados no mercado nacional) fechou positivo até 2014.

      Vamos ver daqui para diante se a taxa básica de juros será suficiente para manter tal realidade e salvaguardar nossas reservas.

      O Brasil teve uma janela de oportunidade impar durante esses doze anos de governo petista para ter mantido os juros baixos e ter estimulado não o consumo, mas o investimento e a poupança, de maneira que, se assim tivesse procedido este governo trapalhão, estaríamos hoje colhendo muitos bons frutos de uma política acertada.

      Não foi isso que se fez, infelizmente. E a conta será paga pela sociedade brasileira por pelo menos os próximos dez anos.

      Grande abraço, amigo!

  4. Prezado Sr. WAGNER PIRES,
    Parabéns pelo bom e compreensivo artigo relacionando a nossa Crise Fiscal e as Reservas do Banco Central.
    Nossa Economia é em +- 45% Propriedade do Capital Internacional ( Multi-Nacionais de Matriz no Exterior, Capital Internacional aplicado na BOVESPA, Capital Internacional aplicado em Títulos de nosso Tesouro, Capital Internacional emprestado a nossos Bancos Privados e Públicos, etc,etc, operamos também com Deficit no Balanço de Pagamentos Internacional ( Soma de toda a Riqueza que entra e sai do País ), +- US$ 100 Bi em 2014, esse ano de 2015 deve se reduzir para +- US$ 70 Bi devido a desvalorização do Câmbio, e sendo assim muito dependentes do Capital Internacional, agora perdemos o Investment Grade da Standard & Poor’s , etc, temos então que ter e arcar com o Custo de Elevadas Reservas Cambiais no Banco Central, como nossos atuais +- US$ 375 Bi. que para nossa Economia, ainda é pouco.
    Tivéssemos uma Economia com grande maioria de Empresas com Matriz no Brasil, equilibrada com pouca Dívida Pública, e tivéssemos Superavit no Balanço de Pagamentos, poderíamos operar com SEGURANÇA, com bem menos RESERVAS. Abrs

    • Perfeito, mestre Bortolotto. Lembrando que o esforço do governo tem de ser no sentido de cortar custos, não só para ampliar o superávit primário e honrar a dívida, mas, também para aumentar a poupança interna e predispor o país a estar apto para fazer o país crescer, não mais pelo lado da demanda, mas, pelo lado do investimento. Crescimento firme, forte e sustentável.

      Mas, isso só será iniciado após o ajuste fiscal conseguir frear a dívida pública.

      Grande abraço!

  5. Prezado Sr. GUILHERME ALMEIDA,
    Com a licença do Sr. WAGNER PIRES, embora sem ser Especialista, permita-me tentar Responder a suas perguntas:
    1- A maior vantagem do Ouro como Reserva é sua Liquidez. Todo mundo aceita. É o Ativo de maior Liquidez do Mundo. Não rende Juros, mas nos momentos mais críticos, Guerras, Revoluções, Crise Cambial, etc, é o que mais VALORIZA.
    2- Segundo a ideia de não colocar todos os ovos na mesma cesta, o melhor mix Ouro/Letras do Tesouro Americano ( US$ Dollar ) seria 50% Ouro X 50% Letras do Tesouro Americano.
    3- A Alemanha com o começo da Guerra Fria, ( 1948 ) sob constante BAFO dos Russos Soviéticos pressionando em suas fronteiras de Leste, especialmente depois que STALIN fez suas Bombas Atômicas ( 1949 ), por PRECAUÇÃO, tratou de mandar, e depois ir recebendo e DEPOSITAR toda a sua Reserva de Ouro no FED Nova York, Bank of England Londres, e Banque de France Paris. Seguro morreu de velho. Agora, passado o perigo, diplomaticamente está repatriando o resto de Reservas de Ouro depositadas no FED de Nova York e Banque de France – Paris. Não de Londres porque lá ainda é o Mercado Mundial do Ouro. Por precaução aproveitará para cuidadosamente conferir a Quantidade e a QUALIDADE. As más Línguas dizem que no Mundo giram muitos lingotes de Tungstênio apenas folhados a Ouro.
    4- China, Rússia e Índia, e outros Países estão aumentando suas Reservas de Ouro, também pelos motivos de Liquidez e para não colocar todos os ovos no mesmo cesto.
    5- As Reservas Brasileiras de OURO são pequenas porque nossa Economia quase sempre operou com DEFICIT no Balanço de Pagamentos Internacional ( Soma de todas as Riquezas que entram e saem do País). Como um TODO, nossa Economia Consome muito do que Produz, gerando pouca POUPANÇA e muitas vezes para fechar as Contas Internacionais foi obrigada a vender Reservas de Ouro que tem Liquidez Absoluta.
    Vejamos: Nosso PIB ( Produto Interno Bruto ) 2014 é de +- US$ 2.500 Bi/Ano. Nossa Economia operando com Lucro Líquido Médio de 10%aa, gera num ano, Riqueza Líquida de US$ 250 Bi. Se em 2014 tivemos um Deficit no Balanço de Pagamentos de +- US$ 100 Bi, só ali se foi 40% de toda a Riqueza gerada em 01 Ano no Brasil. Então sobra muito pouco para Capitalizar, e lá se vai o nosso Ouro.
    Temos que ACABAR COM OS NOSSOS DEFICITS. Abrs.

  6. Prezado Wagner, muito bom artigo sobre nossa situação econômica. Acrescento apenas uma observação que é atinente à questão da dominância fiscal. Esta situação ocorre quando a situação fiscal do Governo está adversa e a política monetária não pode ser exercida em toda a sua plenitude devido à vulnerabilidade/fragilidade da situação das finanças públicas. Como isto acontece? Ocorre que a cada elevação da taxa básica de juros, aumenta a despesa fiscal com juros e, ao mesmo tempo, reduz-se a arrecadação tributária devido à recessão, ou seja, o resultado final acaba por agravar/piorar o resultado fiscal. Por isso, a taxa de juros deve ficar no patamar em que se encontra, senão a coisa vai ficar pior. É o impacto fiscal da política monetária que destruiu a nossa situação fiscal no 1º mandato de FHC. .Enfrentamos um ataque especulativo em 99, recorremos ao FMI, e conseguimos sair daquela situação a partir de 2003 praticando um pesado ajuste fiscal e monetário nos 1ºs dois anos do 1º mandato do Lula, quando os superávits primários chegavam a 3% do PIB e a taxa de juros também era bastante elevada (creio que cerca de 26,5% ao ano). Naquela ocasião, a economia voltou a crescer depois do ajuste fiscal/monetário, mas a grande diferença para o período atual era que, naquela época, a China crescia a 10% ao ano e agora está desacelerando o crescimento. A notícia boa é que o que ficou do período da bonança das comoditties e do crescimento chinês foram os US$ 370 bilhões de reservas, que espero que nos ajudem a sair da crise. Enquanto o Banco Central continuar a fazer os swaps cambiais, nossas reservas estarão preservadas para momentos emergenciais futuros.
    Sobre a dominância fiscal recomendo o artigo abaixo:
    http://www.brasil-economia-governo.org.br/2015/09/02/o-copom-e-a-dominancia-fiscal/

  7. Sr. Pires:

    O senhor diz que “Então, veja, não é problema nas reservas. Nós, ainda as temos”. Mas outros dizem que não: em http://blogs.reuters.com/macroscope/2013/08/08/brazils-foreign-reserves-are-not-all-that-big/ os articulistas estimam que os investimentos externos no Brasil que não são de longo prazo montam a 415 bilhões de dólares, mais do que as nossas reservas (e isto em agosto de 2013, antes da economia ir para o brejo).

  8. Concordo com as fundamentações de todos os mecanismos demonstrados nesse economês cambial. Entretanto, lamento, mas é impossível concordar com a “postura benevolente” que se extrai como resultante dessa abordagem! Seja na ótima análise inicial do Wagner, como nos comentários complementares, todos, invariavelmente, partem da premissa, errônea no meu entendimento, de que o que ocorreu teria sido “um erro” disso ou daquilo, mas sempre e exclusivamente um erro! E ÊRRO meus senhores, absolutamente NÃO FOI O QUE OCORREU! Estamos colhendo os mesmos frutos que a Venezuela já está colhendo, a Argentina está começando a sentir o sabor do que está chegando, e o Brasil está ANTEVENDO! Ou seja: UMA ESTRATÉGIA DELIBERADA, PROGRAMÁTICA E INTENCIONAL DE DESMONTE DAS ECONOMIAS LATINO AMERICANAS! Portanto muito pelo contrário, temos em diferentes estágios, e em economias de diferentes dimensões, efeitos paralelos de idêntica natureza com magnitudes distintas, de um PROCESSO COMUM A TODAS, CONHECIDA COMO ENGENHARIA DE DEMOLIÇÃO, que é aplicada por áreas específicas de inteligência militar integrada a planejamento de combate, mas que está sendo instrumentalizada pelo SISTEMA FINANCEIRO NA SUA GUERRA ECONÔMICA DE APOIO À IMPLANTAÇÂO DA NOVA ORDEM MUNDIAL! Portanto, para que não percamos o VERDADEIRO FOCO do que nos trouxe à situação onde nos encontramos, é vital que RECONHEÇAMOS A EXTREMA COMPETÊNCIA COM QUE NOS TENTARAM (E CONSEGUIRAM) FAZER ACREDITAR QUE ESTIVESSEM APENAS COMETENDO ÊRROS! Desculpem a empáfia! Mas é fundamental começarmos, todos, a enxergar a fera que vamos ter que enfrentar em muito breve, COMO ELA REALMENTE É! Assistam: https://www.youtube.com/watch?v=TCUTGSfO__o

  9. O jogo do poder, a supremacia, o preconceito entre etnias faz que os países em suas minorias nesse globo terreste não desenvolvam e sejam sempre sugados, mau administrados por seguidores e admiradores desses conjuntos de países (grandes potencias). Isto porque estamos atrelados à economia internacional dominante e também pela falta de patriotismo de nossos administradores e do povo em geral, (com raríssima exceções). Precisamos amar nosso torrão natal, copiar a cultura japonesa e depois criar nossa própria cultura (atualmente só existem traidores que estão querendo que o povo se exploda); ficando só a riquesa no território (exemplo disso são os adptos da privatização da petrobras), a petrobras precisa ser diversificada, operar também em outras áreas do conhecimento humano. (Não sou político, tenho raiva desses políticos, torço para acabar com os vereadores e substituí-los por conselheiros nomeados pelo …..

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