Entenda como o PT inventou a declaração do Papa contra o “golpe” no Brasil

Declaração do Papa no Celam foi alterada para criticar o “golpe”

Carlos Newton
O site espanhol “Religión Digital”, que nada tem a ver com o Vaticano nem com o Celam (Conselho Episcopal Latino-Americano), publicou uma reportagem sobre a reunião que o Papa Francisco manteve com a direção do Celam no último dia 19, e o texto impreciso deixa margem a interpretações de que o líder da Igreja Católica teria afirmado que pode estar ocorrendo “um golpe de estado branco” em alguns países da América do Sul.
O texto não tem autor, é assinado pela “Redação” do site e traz uma longa lista das preocupações sociais do Papa:

La preocupación del Papa por América

El Santo Padre mostró su preocupación por los problemas sociales que se están viviendo en América en general. Le preocupan las elecciones en Estados Unidos por la falta de una atención más viva a la situación social de los más pobres y excluidos. Le preocupan los conflictos sociales, económicos y políticos de Venezuela, Brasil, Bolivia y Argentina… De pronto se puede estar pasando a un “golpe de estado blanco” en algunos países. Le preocupan las carencias del pueblo haitiano y la falta de diálogo de las autoridades de los países que comparten la isla, Haití y República Dominicana, a fin de encontrar una solución legal a los migrantes y desplazados. Le preocupa la manera de entender lo que es un estado laico y el papel de la libertad religiosa por parte de algunas autoridades mexicanas.

Nota-se que se trata de uma lista de “Le preocupan”, mas em meio ao texto que registra as preocupações do Papa, surge apenas uma frase solta, que destacamos em negrito: De pronto se puede estar pasando a un “golpe de estado blanco” en algunos países. Fica claro que esta frase foi inserida como um comentário da Redação, entremeado à lista das preocupações do Papa.

NA VERSÃO 247…

O texto do site “Religión Digital” foi traduzido por Robson Sávio Reis Souza, professor da PUC-MG e colunista do site petista Brasil247, onde foi republicado com grande estardalhaço, sob o título “Papa alerta para “golpe suave” na América Latina”.

Nessa tradução do professor da PUC-MG, o texto original em espanhol é claramente adulterado, para atribuir ao Papa Francisco uma afirmação que ele não fez: “Atualmente, segundo o Papa, pode estar ocorrendo um “golpe de estado suave” em alguns países”.

Ou seja o tradutor (ou o editor do site 247) fraudou o texto para sugerir que o Papa teria denunciado o “golpe” no Brasil, o único país onde se fala nisso, pois na Venezuela o golpe está sendo aplicado pelo próprio presidente Maduro e não há nenhum golpe na Bolívia nem na Argentina.

E DIZ O CELAM…

Agora, vamos conferir como foi publicada a notícia sobre o Papa Francisco, na versão oficial do Conselho Episcopal Latino-Americano:

Incansable en su misión pastoral, Francisco, el pontífice de las “periferias”, clama por la paz y el diálogo, por la justicia y la dignidad. Así lo ha hecho en sus viajes apostólicos a América, Asia, África y Europa. Así lo refirió en su discurso al recibir el premio Carlomagno 2016. Y así lo ha expresado, también, a la presidencia del Celam, en su reciente encuentro, al comunicar su preocupación por los pueblos latinoamericanos que atraviesan complejas coyunturas sociales, políticas y económicas.”

Não há, nem jamais houve, nenhuma referência do Papa a um “golpe de estado suave” no Brasil.

O MAIOR DIPLOMATA

O Papa Francisco é o maior líder religioso do planeta, comporta-se sempre como um diplomata conciliador, não interfere nem opina sobre assuntos políticos dos países e jamais o faria em relação à maior nação católica do mundo. Na verdade, o Papa deve ser considerado o maior diplomata da atualidade, é o embaixador da paz e está empenhado hoje na conciliação de todas religiões, uma atuação ecumênica que merece apoio de todas as pessoas de boa vontade.

É absolutamente inacreditável a ousadia dos “comunicadores” do PT. No desespero pelo afastamento da presidente Dilma Rousseff e pela inevitabilidade do impeachment, os petistas não se envergonham de espalhar notícias falsas, atribuindo ao Papa Francisco uma declaração de que estaria ocorrendo um “golpe branco” no Brasil. Como todos sabem, assim como não se deve usar o santo nome de Deus em vão, não se pode também usar a palavra do Papa para defesa de causas meramente políticas, que ele tanto abomina. Mas por aqui não faltam pecadores.

 

13 thoughts on “Entenda como o PT inventou a declaração do Papa contra o “golpe” no Brasil

  1. O PT, sempre o PT. Tudo que vem deste partido tem cheiro de tramoia ou trambique.
    Enganaram os brasileiros por mais de 20 anos e quando chegaram ao poder, fizeram tudo o que condenavam nos outros, uma vergonha.
    Agora vem com estas lorotas papais, como se o papa fosse na política o que é na religião, um “infalível”.
    Religiosos em geral, deveriam se ater apenas a salvar a alma dos indivíduos, inclusive sem cobrar dízimo, que é a mercantilização do divino.
    Pouco importa o que o papa ache, afinal como já indagava Stálin, quantas divisões teria?
    Não tem exército, mas tem um baita pepino nas mãos, a corrupção e os escândalos envolvendo seus sacerdotes, é o que deveria ser a sua grande preocupação.
    Enfim, tanto o papa deve ficar fora da “lambança” brasileira, como o PT deve de uma vez por todas, criar vergonha na cara.

  2. Grande CN,
    Eu tinha certeza de que você não escreveria MENOS sobre essa “narrativa ” do Papa Francisco. Simplesmente por que você é um JORNALISTA.
    Essa sua matéria vai muito além do tema. O cerne dessa questão é que a maioria das pessoas parece tomar como verdadeiro tudo o que escuta na TV ou lê na internet. Passamos a acreditar no que nos é dito entre plim-plins globais , nos amigos do Facebook e a permitir que formadores de opinião reescrevam por nós , sob medida e quiça que patrocínios, a realidade. É tão bom encontrar tudo já pronto para consumir, tão bonitinho e mastigadinho! De resto é só dar um Ctrl V & C!
    Diante de tal volume de informações com as quais passamos a lidar , vale a pena ponderar qual a postura mais proveitosa: se o ceticismo ou a credibilidade.
    Na verdade há centenas de milhares de anos a mente humana vem sendo programada para reagir às novas informações. Mas de que forma? Nós acreditamos de pronto ou tentamos primeiro entender, de modo que a crença ou descrença venha depois de uma análise crítica de um novo assunto?
    Esta discussão sobre se a crença é automática ou se a ela é um processo posterior ao entendimento de um enunciado , vem acontecendo há pelo menos 400 anos. O filósofo francês René Descartes argumentou que a compreensão e a crença eram dois processos separados. Primeiro as pessoas recebem a informação, prestam atenção a ela, para em seguida decidir o que fazer com essa informação, ou seja , acreditar nela ou não.Tal entendimento de Descartes parece estar de acordo com a maneira que gostaríamos nossas mentes trabalhassem.
    Já o filósofo holandês Baruch Spinoza , um contemporâneo de Descartes, tinha uma visão bem diferente. Ele pensava que o próprio ato de compreender uma informação já era acreditar. Que somos capazes de mudar nossas mentes depois da percepção inicial, quando nos deparamos mais adiante com uma prova em contrário, por exemplo, mas que até esse momento, acreditamos em tudo.
    A abordagem de Spinoza é desagradável porque sugere que temos que perder tempo e energia extirpando as falsidades que outras pessoas possam ter pulverizado aleatoriamente em nossa direção, seja presencialmente seja pela TV, pela internet ou qualquer outro meio de comunicação.
    Mas então, quem estava certo, Spinoza ou Descartes?
    Infelizmente a ciência e a academia já provaram que Spinoza estava certo.
    Acreditar não é um processo de duas etapas envolvendo primeiro entendimento e , em seguida, a crença. Em vez disso fomos programados PARA CRER , uma fração de segundo depois de tomar conhecimento, até que outra faculdade – o poder de crítica – entra em ação para mudar um processo mental concluído.
    Nós realmente queremos acreditar . É tão mais fácil assumir que os outros estão dizendo a verdade. O problema é que , à luz da afirmação de Spinoza , nós só perguntamos depois….
    SE CALHAR!
    Pois tudo neste mundo – inclusive as nossas cabeças ! – gira pela lei do menor esforço.Simplesmente os da nossa espécie têm preguiça de questionar DEPOIS!
    Essa nossa mentalidade crédula parece ser uma má notícia ou conversa fiada ou apenas um argumento contra a liberdade de expressão. Afinal se acreditamos em tudo que escutamos e lemos então temos que tomar muuuuuito cuidado com o que escutamos e lemos.
    A dura verdade é que é por uma falha humana básica todos nós somos muito rápidos para acreditar , para engolir corda , para tomar as coisas pelo seu valor nominal do que para envolver em tantas “narrativas” as nossas faculdades críticas.
    O ceticismo é saudável. Pesar a plausibilidade e a origem de uma mensagem é cognitivamente mais trabalhoso do que ,bovinamente , aceitar de saída que a mensagem é verdadeira . Duvidar requer motivação adicional , tempo e energia.Se o assunto não for muito importante para nós ou se tivermos outras coisas mais importantes em mente, o mais provável é que a desinformação se instale e que nós a passemos adiante.
    Só poderemos definir informações como falsas e deixar de ser manada se passarmos a pesá-las como plausíveis e , neste sentido , é sempre aconselhável avaliar a fiabilidade da ORIGEM das mensagens que lemos. Ir atrás do LINK original. É preciso mais trabalho mental sim e , é claro,sempre checar a FONTE das notícias que lemos.
    Mentiras e desinformações podem tornar-se profundamente enraizadas quando estão em conformidade com os nossos pontos de vista preexistentes, sejam eles políticos,sociais , religiosos e tal. A desinformação não seria tão eficaz , sem o fator oculto mais emocional e comportamental. Così è se vi pare , já dizia Luigi Pirandello.
    Só que a persistência da desinformação tem implicações bastante alarmantes em uma democracia. A nível social, a desinformação sobre questões políticas pode criar danos consideráveis. Estamos lidando com as pavorosas consequências dos governos Dilma, eleita e reeleita por um eleitorado mal informado.
    O seu trabalho , neste contexto, é de uma grande importância, CN, pois você ajuda seus leitores a se concentrar em informações factuais e precisas, fornece-lhes uma narrativa que substitui a lacuna deixada pela informação falsa, enfatiza os fatos verdadeiros, em contraste. O seu blog é, sem dúvida, original e especial.
    ISTO É JORNALISMO!
    Finalizo , lembrando a todos os amigos da TI que , com o advento da internet, dos blogs de opinião , das caixas de comentários, todos nós hoje fazemos conteúdos , de certa forma também fazemos jornalismo e emprestamos aos nossos textos , a nossa própria credibilidade pessoal. Melhor checar antes de comentar a desinformação alheia.
    Parabéns, Carlos Newton, por perseguir o sonho de um Brasil melhor com tolerância e respeito à liberdade de pensamento e sem calar opiniões mas também sem abrir mão da sua honestidade intelectual .

    • Muito bom, Moacir. Eu ia fazer um comentário sobre o artigo do Carlos, mas aí vi o seu 🙂
      E muito oportuno o alerta do seu último parágrafo. As pessoas têm que ter cuidado, não só antes de comentar, como também antes de passarem as coisas adiante (o que, em si,já representa um comentário).

      • A ” Razão Cínica ” petista é tamanha que outro dia encontrei uma pessoa ligada a um sindicato do funcionalismo do Rio. Ele pediu se eu tinha subsídios para a discussão do PL 257 ” do Temer “, que é um arrocho muito maior do que o proposto pelo Meirelles.
        Eu respondi que sim, começando pelo fato que o PL 257 foi feito pelo governo da Dilma, tanto que termina assim:
        ” 64. Essas são, Senhora Presidenta, as razões que justificam a elaboração do Projeto de LeiComplementar que ora submetemos à elevada apreciação de Vossa Excelência.Respeitosamente,

        Assinado por: Nelson Barbosa, Valdir Moysés Simão

    • Gratíssimo, Moacir Pimentel, por sua palavras de incentivo. Você é uma pessoa de grande cultura e talento, que se juntou recentemente ao nosso time, que é uma espécie de escrete da internet, modéstia à parte.

      Vamos em frente, juntos.

      CN

  3. Sarney vira símbolo do desespero da oligarquia
    Josias de Souza
    27/05/2016 05:14

    José Sarney: “A ditadura da Justiça tá implantada, é a pior de todas!

    Sérgio Machado: “E eles vão querer tomar o poder. Pra poder acabar o trabalho

    A fabulosa epidemia de corrupção revelada pela Lava Jato fez do Brasil um pedaço do mapa onde há a maior possibilidade de surgir um país 100% novo. Caos não falta. O diálogo reproduzido acima revela que essa nação inteiramente outra talvez já tenha começado a existir.
    Nascida na periférica comarca de Curitiba, a investigação que deu à luz um Brasil diferente sobrevive a todas as bruxarias e conchavos urdidos por políticos que se habituaram a viver no epicentro do ilícito sem sofrer qualquer tipo de embaraço. A oligarquia corrupta está acuada.
    A “ditadura da Justiça” de que fala Sarney é o outro nome de Estado Democrático de Direito. Renan Calheiros responde a uma dúzia de inquéritos. Eduardo Cunha é um réu afastado do mandato pelo STF. Marcelo Odecrechet está preso e negocia uma delação. Pilhados num diálogo vadio, Dilma e Lula foram denunciados no Supremo por tentativa de obstruir a Justiça.
    Como se fosse pouco, os cardeais do PMDB —Sarney entre eles— foram gravados pelo amigo Sérgio Machado, subitamente convertido num silvério que, apavorado com a ideia de ser preso por ordem do “tirano” Sérgio Moro, tenta comprar com suor do dedo a proteção judicial que seus correligionários já não conseguem prover.
    O autogrampo do ex-presidente da Transpetro pendurou no noticiário, de ponta-cabeça, caciques políticos capazes de tudo, menos de levar à balança meio quilo de explicações que afastem as suspeitas que rondam seus prontuários.
    Natural que seres como Sarney sejam tomados de assalto (ops!) pela estranheza. Não estavam habituados a esse tipo de situação. Construíram suas carreiras num Brasil em que, acima de um certo nível de renda e de poder, ninguém devia nada. Muito menos explicações. Esse país em que os ratos colocavam a culpa no queijo e tudo ficava por isso mesmo não existe mais.
    Em 21 dezembro de 2014, Sarney havia escalado a tribuna do Senado pela última vez, para pronunciar o que deveria ter sido um discurso de despedida de sua vida pública de seis décadas. O orador somava, então, 84 anos.
    Os incautos imaginaram que estivessem diante de um aposentado. Mas se as fitas do companheiro Machado revelam alguma coisa é que Sarney é, por assim dizer, inaposentável. Ele permanece no palco como protagonista da própria imolação. Faz o papel de um Napoleão se descoroando.
    No discuso de sua suposta despedida, Sarney reservou um parágrafo à autocrítica (assista abaixo). Declarou: “Precisamos levar a sério o problema da reeleição, que precisa acabar, estabelecendo-se um mandato maior. Até fazendo mea-culpa, de arrependimento, eu penso que é preciso proibir que os ex-presidentes ocupem qualquer cargo público, mesmo que seja cargo eletivo. […] Eu me arrependo, acho que foi um erro que eu fiz ter voltado, depois de presidente, à vida pública.”
    .
    O Brasil não poderia prescindir de Sarney nesse momento. Sua aversão à Lava Jato é essencial para provar que o país está no caminho certo. Depois de encher as praças na luta pelas eleições diretas, o brasileiro viu subir ao poder, pela via indireta do Colégio Eleitoral, José Sarney, o vice mais versa da história, grande amigo da ditadura militar até seis meses antes.
    Sarney deve sua Presidência a uma conspiração do acaso com as bactérias que invadiram o organismo de Tancredo Neves atrás de encrenca. Foi um gestor temerário. Governou mal tão bem que não teve condições políticas de indicar um nome para sucedê-lo. Vangloria-se de ter completado a transição da ditadura para a primeira eleição direta. Deu em Fernando Collor.
    Eleito senador pelo Amapá três vezes, Sarney esmerou-se. Presidiu o Senado quatro vezes. Estrelou o escândalo dos atos secretos. Deu emprego a uma sobrinha de sua mulher que morava em Campo Grande; deu um contracheque a uma sobrinha do genro que residia em Barcelona; alçou à folha um personagem (“Secreta”) que trabalhava como mordomo na casa da filha Roseana Sarney…
    Não era o Amapá ou o país que tinha um senador. Era Sarney que possuía o Brasil. Sob FHC, Lula e Dilma, foi aquinhoado com generosos nacos do Estado. Cavalgando a administração pública, Sarney logrou alcançar a prosperidade privada. Seu nome fundiu-se ao patrimonialismo nacional. O desespero de Sarney, o oligarca mais longevo da República, é o melhor símbolo que a Era da Lava Jato poderia arranjar.

    http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2016/05/27/sarney-vira-simbolo-do-desespero-da-oligarquia/

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