Entre Geisel e os irmãos Andrada

Carlos Chagas

Com todos os defeitos, alguns imensos, como o de se achar ministro de todos os ministérios, diretor de todos os departamentos e chefe de todas as seções do serviço público, o general Ernesto Geisel era um homem firme. Tão firme que em suas memórias ao CPDOC citou um único jornalista, para crucificá-lo: este que vos escreve. Não aceitou que durante todo o seu mandato, e depois, quando a censura deixava, eu o classificava de ditador.

Pois bem. É hora de fazer justiça. Shigeaki Ueki, ministro de Minas e Energia, levou-lhe certa manhã proposta para o Brasil investir na Bolívia, botando dezenas de milhões de dólares naquele país para garantir-nos o fornecimento de gás até o longínquo, naquela época, ano 2000. Geisel deu outro de seus costumeiros ataques de irritação e onipotência, encerrando o assunto ao dizer que, se aceita a sugestão, precisaria deixar o Exército de prontidão, porque mais cedo ou mais tarde teríamos de entrar no território de nossos vizinhos para garantir acordos não cumpridos.

Mesmo assim, o tonitruante presidente da República não conseguiu evitar o acordo com o Paraguai. Para nosso desenvolvimento, era essencial construir Itaipu, represando as águas do rio Paraná e até sacrificando espetáculos ímpares da natureza, como as Sete Quedas do Iguaçu e o Canal de São Simão, que a Humanidade jamais nos perdoará de haver extinto, ainda que imprescindível para a hidrelétrica. Mas havia o problema com o Paraguai, que dividia com o Brasil metade da corrente do rio Paraná. O governo do ditador Stroessner não dispunha de um centavo para investir na obra, mas tinha de ser condômino para sua viabilização.

Assim, nos comprometemos com a totalidade da implantação da maior usina geradora de energia do planeta, dividindo seus resultados com os paraguaios, que sem mover um dedo ficariam com metade da produção. Como não tinham uso para sequer dez por cento da energia que lhes caberia, estabeleceu-se o acordo para comprarmos de volta os quilowates a eles devidos, nem por sombra enviados. Careciam de falta de linhas de transmissão voltadas para seu território, como falta de uso em sua incipiente economia.

Um negócio da China para nossos vizinhos, que cumprimos religiosamente, até mesmo com o presidente Lula, mais tarde, dobrando o preço do que pagávamos e ainda pagamos pela metade da água que o Criador fez correr no lado de nossos hermanos.

Pois não é que décadas depois de afastada, a questão boliviana torna-se paraguaia? O Solano Lopes em compota do lado de lá da fronteira, feito presidente por um golpe de estado, ameaça suspender a fictícia transferência da energia produzida e utilizada no Brasil a preço de ouro. Afirma que não vai vender nem ceder aquilo que não possui, reivindicando para o seu país uma fantasia incapaz de beneficiar o seu governo. Afinal, energia serve para mover indústrias, e o Paraguai precisa, primeiro, implantá-las. Assim como libertar sua população da escuridão.

O que acontecerá se esse tal de Federico Franco insistir em manipular a ficção e em guardar aquilo que não possui? Em especial se faz a mesma ameaça com a usina de Yaceretá, construída pela Argentina, em situação igual?

Nada. Simplesmente nada acontecerá, a não ser lembranças do que Antonio Carlos e Martim Francisco de Andrada e Silva comentaram depois de patrocinar a maioridade de D. Pedro II e formar um governo liberal, subitamente substituído por um gabinete conservador: “Viu? Quem dorme com criança amanhece molhado…”

Melhor assim. Ficar com os Andrada é preferível do que ouvir os vaticínios bélicos de Ernesto Geisel. A menos que…

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DESESPERO

Como estamos no Brasil, há pessimismo. Muita gente supõe que apesar de condenados, muitos mensaleiros venham no máximo a sofrer penas de multa e de prestação de serviço civil obrigatório. Cadeia, mesmo, para ninguém, ou no máximo para um ou outro bagrinho. Apesar disso, o clima é de desespero entre os réus. Quem garante que os ministros do Supremo Tribunal Federal serão tolerantes a ponto de livrar a cara dos chefes da quadrilha?

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