Era conversa fiada e o governo desiste de reduzir despesas via reforma administrativa

Bolsonaro elogia Guedes e diz ser feliz em "casamento" com o ministro |  Exame

Reforma administrativa de Guedes e Bolsonaro é um fracasso

William Waack
Estadão

Talvez por sentir que não tem forças políticas para uma briga difícil. Por falta de apetite para enfrentar uma corporação organizada e que sabe defender seus interesses, direitos ou privilégios adquiridos (cada um nomeia como quiser). Ou ambos. Mas o fato é que a principal luta política de Bolsonaro foi abandonada.

O governo prometeu entregar hoje ao Congresso uma reforma administrativa que trata apenas dos servidores de amanhã, e não toca no sistema de interesses, direitos ou privilégios adquiridos (nomeie como quiser) atuais.

SEM SOLUÇÃO – Na prática, não vai pegar de frente a questão do controle do crescimento de despesas públicas, nas quais as folhas de pagamento do funcionalismo figuram com tanto destaque.

Chega a ser fascinante observar como o atual governo, que ia reformar o Estado e mudar o Brasil, trata obstáculos formidáveis no seu caminho como se o tempo fosse resolver tudo.

Nenhum governo recente se revelou capaz (e este segue do mesmo jeito) de controlar o crescimento real de gastos públicos. Nenhum conseguiu escapar (e este vai na mesma toada) de um orçamento ridiculamente engessado: 94% do Orçamento são despesas obrigatórias.

FORA DO CONSENSO – Um consenso abrangente reina entre academia, economistas, cientistas políticos, parlamentares experientes e o próprio ministro da Economia, Paulo Guedes. É sobre o tamanho do imbróglio. Arrumar dinheiro para gastar depende de reforma tributária, que depende de um pacto federativo para acomodar todos os interesses contraditórios, que depende de uma reforma tributária que enfrente renúncias e isenções, que depende de uma reforma administrativa que controle despesas públicas e tudo isso depende de vontade e lideranças políticas.

É igualmente notável a ausência de uma resposta clara e direta quando se pergunta por onde e como o governo quer atacar a questão. Seu eixo estratégico – a reforma administrativa e o pacto federativo tinham sido declarados como tais há quase dois anos – se perdeu por fatores que o governo controlou ou minorou apenas parcialmente (a crise de saúde pública e a recessão) aliados ao ambiente político que colocou Bolsonaro claramente na defensiva.

NADA DE REFORMAS – É evidente que o impulso inicial por reformas, se autêntico alguma vez, substituído foi pela necessidade de sobrevivência política. Por sua vez, subordinada às questões jurídicas e policiais que afetam o clã Bolsonaro, mas, também, pela urgência trazida pela imperiosa obrigação de acudir milhões de necessitados. Não há qualquer outra prioridade: sobreviver para se reeleger.

O presidente reconhece que não tem recursos para pagar indefinidamente um coronavoucher que chegou a custar R$ 50 bilhões por mês. Que não está disposto a topar uma briga para mexer em interesses, direitos ou privilégios adquiridos, ou seja, tem graves dificuldades para reduzir aumento de gastos. E que ainda aguarda uma “fórmula”, a cargo da Economia, para compensar perda de arrecadação de um lado com necessidade de gastar por outro.

SEM PLANEJAR – Se havia nesse governo eleito para “mudar o Brasil” uma visão de longo prazo, a crise atual a destruiu. É possível identificar no cálculo político do presidente a esperança de que a tal “recuperação em V” propalada por Guedes (que até aqui os números desmentem), impulsionada por marco do saneamento, agronegócio, lei do gás e liquidez internacional, abra o espaço fiscal para os programas de renda e de crescimento.

Mas foi jogando para frente, para o próximo mês, para a próxima semana, para o próximo dia, o enfrentamento das questões fundamentais que Bolsonaro caiu na situação atual, da qual não tem opções fáceis de saída do ponto de vista político nem econômico (como “salvar” o PIB distribuindo ajuda emergencial).

Pode-se atribuir a Bolsonaro muitas coisas, mas cinismo não figura no alto da lista. Talvez isso dificulte a ele entender que são efêmeras a lealdade política de partidos do Centrão e a popularidade compradas com emendas, cargos e ajuda emergencial.

16 thoughts on “Era conversa fiada e o governo desiste de reduzir despesas via reforma administrativa

  1. Waack é um jornalista experiente.
    Deveria saber que existem certas situações no Brasil que são “imexíveis”.
    Uma delas:
    Não se muda nada referente aos poderes constituídos.

    Uma vez que foi estabelecido pelo congresso e por mais que uma reforma administrativa visasse o bem do país, o parlamento JAMAIS concordará em perder um centavo com relação ao custeio do poder legislativo para o sofrido, pobre, miserável e desempregado povo!
    E não permitirá que se faça o mesmo com os demais, em razão do corporativismo existente.

    Da mesma forma, temos de nos consolar com a tal reforma tributária, que nunca sairá do papel.

    Interesses poderosos impedem que o país altere suas arrecadações e as distribua melhor entre os estados, além de beneficiar supostamente a insuportável carga de impostos que está sobre nossos ombros.

    Os privilégios, mordomias, regalias, salários milionários, mais auxílios moradia, educação, saúde, quantidade de aspones, tornaram-se cláusulas pétreas, ou seja, imutáveis, permanentes ou, então, para melhor.

    SE OS MAIS CRÉDULOS E INGÊNUOS ainda acreditam que existe democracia nesta republiqueta, eis a razão pela qual afirmo o contrário, haja vista não ser dado ao povo o direito de decidir sobre o seu próprio país, apenas e tão somente obedecer e outorgar poderes.

    • Chico, concordo com sua interpretação, especialmente com o último parágrafo, mas vamos ter muito cuidado com os comentários sobre a Reforma Administrativa, vamos aguardar a coisa ficar mais clara, porque há suspeitas de efeitos futuros antidemocráticos nas entrelinhas.

  2. SINCERAMENTE: PRECISAMOS MESMO DE TANTOS PARTIDOS ELEITORAIS? DE TANTOS VEREADORES, DEPUTADOS E SENADORES? ELES PRECISAM MESMO DE SALÁRIOS TÃO ESTÚPIDAMENTE ALTOS? DE TANTA PROPINA? DE TANTOS PENDURICALHOS? DE TANTA MORDOMIA?

  3. Esse cara bebeu. O Rodrigo Maia vai reduzir os salários da Câmara em 40%, o Executivo vai contratar pela CLT para todos os cargos que não forem de carreiras típicas de Estado, os quais não terão estabilidade, e poderão ser mandados embora sem indenização a hora que o Governo quiser. A porra da licença prêmio não existe há 23 anos (foi substituída pela licença capacitação de até 3 meses), e os caras dizem que será extinta somente agora. O cara escreve sobre a rigidez do orçamento, diz que a folha de pagamento, inclusive a previdência, é a maior causa do déficit público mas não diz que mais da metade do orçamento público é destinado para pagar juros e amortização da dívida pública. Desinformação, deturpação e distorção total.

    • Bravo. Quase 50% dos recursos públicos são gastos com a falsa amortização e os juros da dívida.
      Aos analistas, isso não incomoda. O problema serua a Previdência e o funcionalismo.
      Estranho, né?

  4. E é claro que a reforma administrativa não inclui os até 25 assessores que cada parlamentar pode contratar sem concurso público e ao seu bel prazer. Façamos a conta 25*594=14.850 assessores sem concurso no Congresso Nacional. Esses ficam de forma da reforma e o arrocho será só para os novos concursados. Legal.

  5. De calote em calote estamos indo para o abate! No parlamentarismo que, desgraçadamente, a maioria nem sabe e nem quer saber como é, nosso primeiro ministro Bolsonaro já teria sido “impichado” . A maior parte do projeto que vendeu, e não está entregando, virou “calote eleitoral”. O nosso grande congresso já o teria mandado para casa!
    Tiramos uma quadrilha e tivermos de eleger, apenas, uma ponte! Lembrem-se: a outra opção era outro poste!
    Como brasileiro não tem juízo, não tem vergonha, não tem moral, não tem noção de nada, acreditará que na próxima eleição o processo dará uma resposta melhor!
    O próximo terá de prometer reformar tudo, tudo novamente! E o eleitor acreditará!
    Hoje, em programa de rádio, ouvi jornalistas “abalisados”, ou seriam abobalhados, fazendo comparações do governo/legisladores da Suécia, Holanda e outros paisinhos, com a nossa grande democracia. Mandei-lhes um recadinho: Seria perfeito se não fosse o povinho! Democracias como as citadas, aqui funcionariam sim, mas se trocar o povo pelos mencionados.
    Quem nasceu para ser prego, jamais chegará a martelo!

    • Geraldo, o problema não são estes deputados/senadores mas a falta de qualidade e responsabilidade dos eleitores. A maioria elege gente do seu nível de valores e princípios. Ou seja, corruptos, vigaristas, ladrões, etc. Temos de limpar na origem: voto sem qualidade, eleito sem qualidades. Não tem como inverter a ordem.
      Abraço
      Fallavena

  6. O Bozo é típico “machão” de aparências só para agradar alguns “homens” fetichistas com tara em homens de botina.

    No pega pra capar o Bozo mostra o medroso que ele é, pois quando apontam o dedo na cara dele, o Bozo se borra todo.

  7. O boçal como o Posto Ipiranga com esta “reforma administrativa” estão voltando no tempo, porque até a lei 8112/91 as tais ” carreiras de Estado” tinham o tratamento que o governo quer lhes dar agora. O restante da reforma administrativa não passa da mais pura perfumaria e mais nada. Para não dizerem lá fora que o governo parou com as “reformas” o Posto Ipiranga veio com esta, que é a mais pura enganação.

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