Éramos quatro

Sebastião Nery

Eramos quatro. Toda semana almoçávamos no Yankee, um adorável restaurante metido a besta, na rua Rodrigo Silva, centro do Rio. Só se podia entrar de paletó e gravata. Se não tivesse, o maitre ia buscar um, vestia o paletó no freguês e dava o nó na gravata.

– Éramos Bernardo Cabral, deputado cassado do Amazonas; Ronaldo Cunha Lima, prefeito cassado de Campina Grande, na Paraiba; Humberto Lucena, senador impedido da Paraíba; e eu, deputado cassado da Bahia.

Cada um com seu projeto, que preparávamos para depois da anistia, pela qual lutávamos, apesar dos turvos anos da ditadura militar.

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CABRAL

Bernardo Cabral, presidente da Ordem dos Advogados, voltaria a Manaus para ser senador. Ronaldo, poeta e advogado no Rio, seria de novo prefeito de Campina Grande, governador e senador da Paraíba. Humberto Lucena, trabalhando na TV Tupi, iria para o Senado e para o governo da Paraiba. Eu impediria que o governo fechasse meu jornal POLITIKA, seria deputado pelo Rio e continuaria viajando o mundo, escrevendo meus livros.

Todos os nossos projetos cumpridos e mais um pouco. Bernardo foi senador e ministro da Justiça. Ronaldo foi prefeito, governador e senador. Humberto foi senador (a saúde não deixou ser governador). Até hoje viajo e escrevo jornal e livros, além dos 111 mil votos para deputado pelo Rio e adido cultural em Roma e Paris, as três mais belas cidades do mundo.

Projetos cumpridos, nenhum de nós tem do que se queixar. Mas, deselegante, sem paletó e gravata, a vida começa a cortar destinos.

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LUCENA

Primeiro, levou-nos o elegante, sábio, sereno e rouco Humberto. Agora, volto de viagem, longa viagem, mais uma peregrinação pelo passado, e não mais encontro nosso querido e flamejante poeta Ronaldo Cunha Lima, amigo inesquecível, dos grandes talentos de nossa geração.

Alem de uma fulgurante vida política construída em cima dos palanques, com seus surpreendentes discursos em versos, e dos serviços prestados ao povo paraibano, Ronaldo era um homem autêntico.

Na noite de 21 de março de 1997, no Clube Campestre, a cidade de Campina Grande estava lá para comemorar o aniversário de seu mais ilustre filho, o ex-prefeito, ex-governador, senador e poeta Ronaldo Cunha Lima. Quando ele chegou, fogos, muitos fogos. Foguetes, muitos foguetes.

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RONALDO

O esquema majoritário do PMBD da Paraíba estava imbativelmente combinado. José Maranhão, governador, candidato à reeleição. Ivandro Cunha Lima, deputado, irmão de Ronaldo, candidato a vice-governador. Ney Suassuna, suplente de senador, candidato ao Senado. E Cássio, filho de Ronaldo, prefeito de Campina Grande e depois governador.

Daí a pouco, chegou de João Pessoa o governador José Maranhão, para comemorar o aniversário do companheiro de cassação, de partido e de projeto político. Fogos, muitos fogos. Foguetes, muitos foguetes. Ronaldo, que conhece a liturgia dos fogos e foguetes na política, desconfiou. Havia mais fogos e foguetes para o governador do que para ele. Em Campina Grande, na terra dele, isso não podia acontecer.

E não podia ser coisa de gente da terra. Havia dedo de fora. Começou a crise. Na hora do discurso, em vez dos brilhantes poemas improvisados, em encachoeirado carrossel de versos e rimas, soltou os cachorros, apontado para o governador, ali perto, dedo no nariz dele :

– Governador, segure seus traidores, seus assessores e bajuladores!

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MARANHÃO

O governador passou mal. Retirou-se. Começaram os empurrões e palavrões entre os amigos de um e outro, que eram amigos de todos. Acabou a festa e a aliança. O governador deu nota oficial dizendo que fora agredido. Ronaldo disse que estava sendo traído. E os jornais publicaram as fotos do dedo e do nariz e o discurso sem rima contra os “bajuladores”.

Maranhão saiu para a reeleição, Suassuna para o Senado e Ivandro, o vice irmão de Ronaldo, renunciou para o deputado Roberto Paulino. Magalhães Pinto dizia que o melhor de política era palanque, discurso e foguete. Nem sempre. Em Campina Grande foguete atrapalha.

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