Erros e acertos de Darwin, analisados 150 anos depois de suas surpreendentes constatações

Charge do Frank (Arquivo Google)

Eurípedes Alcântara
O Globo

Faz 150 anos a publicação do livro de Charles Darwin (1809-1882) que nos tirou da categoria de anjos decaídos e nos colocou no topo da família dos primatas. O livro tem o título, em inglês, “The descent of man”. Foi traduzido no Brasil por “A descendência do homem”, e em Portugal algumas edições aparecem como “A origem do homem”. Acho mais correta a opção dos irmãos d’além-mar, pois, na verdade, o livro trata da ascendência do homem, de sua ancestralidade, e não de seus descendentes.

“A origem do homem” foi publicado na Inglaterra em 1871, 12 anos depois do surgimento de “A origem das espécies”. O primeiro livro já havia provocado um choque cultural que beirou o escândalo.

DOGMAS RELIGIOSOS – Antes de Darwin, a narrativa predominante sobre o surgimento da vida se limitava a reproduzir com retórica própria os dogmas religiosos. Deus criou a Terra e tudo que anda, rasteja, nada ou voa sobre ela. Ponto final.

Os cientistas viam-se na obrigação de harmonizar descobertas com os princípios bíblicos. Convidado a explicar a origem dos primeiros ossos de dinossauros encontrados, o grande naturalista e zoólogo francês Georges Cuvier (1769-1832) saiu-se com uma tirada clássica. Os ossos, explicou Cuvier, seriam fósseis de grandes répteis que não conseguiram embarcar na Arca de Noé.

Darwin demonstrou que os animais não foram criados todos de uma vez. Dependendo da idade da camada geológica em que os fósseis eram encontrados, tinham determinada forma, sendo possível traçar um padrão de diferenciação entre os exemplares mais antigos e os mais recentes.

A EVOLUÇÃO – Darwin só usaria o termo evolução mais tarde, no livro “A origem do homem”, o que lhe deu mais dor de cabeça. Na “Origem das espécies”, evitou se aprofundar na evolução da espécie humana.

Numa carta datada de 22 de dezembro de 1857, endereçada a Alfred Russel Wallace, que, trabalhando independentemente, chegara às mesmas conclusões, disse que investigar as origens humanas pelas lentes da evolução seria “o mais elevado e interessante problema para um naturalista”.

Jeremy DeSilva, do Dartmouth College, nos Estados Unidos, foi buscar nessa frase o título do livro que organizou para comemorar os 150 anos de “A origem do homem”. A obra se intitula, em inglês, “A most interesting problem”.

ACERTOS E ERROS – DeSilva convidou cientistas a criticar o livro de Darwin com base no estado atual da ciência e verificar o que fica de pé e o que se estiolou à luz das descobertas que o inglês vitoriano desconhecia — das leis da hereditariedade à manipulação genética.

O capítulo sobre a evolução do cérebro humano foi escrito pela neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel. A exemplo dos colegas que assinam os outros capítulos, ela conclui que Darwin acertou no essencial, mas sua mente prodigiosa não conseguiu escapar das limitações e preconceitos do século XIX.

O que se observa é um gênio dilacerado por dentro pelas consequências de suas proposições, em especial a “sobrevivência do mais apto”.

O LADO SOMBRIO – Um lado de Darwin temia que “os melhores membros da sociedade” pudessem sucumbir diante do aumento numérico dos “indivíduos impróprios”, ou seja, “indigentes e pessoas com deficiências físicas ou mentais”. Esse lado sombrio de Darwin ressaltou que oferecer “ajuda médica e caridade” a esses desvalidos contrariava o princípio da seleção natural.

O lado iluminado de Darwin correu a enfatizar que “é característica de todo país verdadeiramente civilizado ajudar os doentes e os fracos”.

É no método científico que se devem buscar as razões da grandeza de Darwin. “Minha regra de ouro desde sempre”, escreveu ele, “é fazer anotações cuidadosas e completas de todo fato novo publicado ou observação que contrariem minhas conclusões gerais. A experiência mostra que fatos e pensamentos contrários tendem a escapar mais facilmente da memória que os que me são favoráveis”. Isso dura mais 150 anos, fácil.

4 thoughts on “Erros e acertos de Darwin, analisados 150 anos depois de suas surpreendentes constatações

  1. Esse livro de Darwin serviu como fundamento “científico” das idéias eugenistas.

    Outro detalhe, falando sobre medicina, Darwin revela-se um “negacionista” antiVax: “há motivos para se crer que a vacinação salvou milhares daqueles que, por sua fraca constituição, teriam sido vencidos pela varíola. E eis que os membros mais fracos de uma civilização propagaram suas crias. Ninguém que já tenha se dedicado à criação de animais domésticos pode duvidar que isso é extremamente ofensivo à raça humana”.

    Viva a vachina companheiros!

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