Erros e correria

Carla Kreefft

O governo está com medo de dizer o que talvez seja o mais importante no momento: “empurra não, companheiro”. É mais um erro na lista que vem sendo formada dia a dia pelo governo federal.

Não há dúvidas de que o movimento que ocupa as ruas tem legitimidade e força reivindicatória. Ele preciso ser ouvido e, principalmente, atendido. Mas como fazer isso de forma adequada é a grande questão.

Primeiro, é preciso dizer que o governo demorou a se mover. Talvez por não acreditar na força dos movimentos, a presidente Dilma preferiu ignorá-los. Depois, quando decidiu ir para a televisão em cadeia nacional, fez um discurso vazio, repleto de propostas velhas e de pouca eficácia. Três dias após esse pronunciamento que não agradou ninguém – muito provavelmente nem a ela mesma –, a presidente volta a falar com a população, por meio da televisão, para anunciar um grande pacto com a nação.

Anunciar pacto com a nação é algo típico de presidentes da República brasileiros e, quase sempre, é uma iniciativa que não consegue bons resultados. É alguma coisa assim como ato de desespero.

A proposta que, de certa forma, já está sendo implementada, envolve a realização de um plebiscito para aprovar a reforma política. É bom lembrar que, antes dessa decisão de fazer um plebiscito voltado para a reforma, o governo federal pensou em fazer um plebiscito para avaliar se a população aprovaria ou não a convocação de uma assembleia constituinte com a finalidade exclusiva de fazer a reforma. Essa ideia foi extremamente criticada pelos constitucionalistas e, por isso, abortada rapidamente.

AFOGADILHO

Agora, Dilma discute com partidos, movimentos e lideranças do Congresso como fazer o plebiscito da reforma política. A intenção é correr para que toda a legislação esteja aprovada até outubro e possa valer para a eleição de 2014.

O afogadilho impediu que, pelo menos até o momento, alguém pare para pensar em alguns elementos básicos diante de uma empreitada dessa. O primeiro deles seria a formatação de uma campanha informativa sobre a reforma política. É possível que a maioria dos brasileiros, incluindo alguns que estão nas ruas, não saibam do que se trata. O segundo elemento seria avaliar quais os pontos da proposta de reforma são consensuais e, por isso mesmo, não precisariam da aprovação popular. Somente a partir, seria correto pensar na perguntas que serão feitas ao povo pelo plebiscito. Estudos de viabilidade para apontar custos e prazos também teriam que ser elaborados.

Como nada disso feito, o mais sensato seria evitar a correria, mas o governo não tem tempo a perder e não pode pedir às ruas paciência. Não pode dizer “não empurra não” porque já errou muito. (transcrito do jornal O Tempo)

 

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

5 thoughts on “Erros e correria

  1. Ao que me consta o povo na rua se manifesta por melhorias na saúde, educação, transportes e fim da corrupção. Reforma política neste momento, interessa a quem mesmo? Se o governo insistir com essa agenda, logo o mote das manifestações será “Fora Dilma”!

  2. Pingback: Erros e correria | Debates Culturais – Liberdade de Idéias e Opiniões

  3. A Reforma Política está há décadas para ser implementada, e só agora porque o “governo está com o anzol na garganta” é que querem fazer na base do facão, ou seja, uma reforma aleijada. O povo brasileiro não tem preparo e nem conhecimento de votar em plebiscito e muito menos em referendo. Na realidade o governo quer tirar o dele da reta!
    Eunápolis-Bahia

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *