Escândalo do setor do petróleo é muito mais grave do que a Lava Jato mostra

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Charge do Oliveira, reprodução do Diário Gaúcho

Carlos Newton

O Brasil participou da última reunião da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), onde foi representado pelo engenheiro Márcio Felix, assessor do ministro Fernando Bezerra Coelho Filho. Marcio Félix, que levou um chega-pra-lá e teve que deixar de se importar com o monopólio privado dos gasodutos, já adota uma postura alinhada com o governo Temer (é possível encontrar uma linha para seguir?), que é a de não atrapalhar nenhum estrangeiro que queira ocupar posições no Brasil.

Uma dúvida óbvia: “Porque o Brasil na reunião da OPEP?” Elementar, meu caro. O Brasil é hoje um país exportador de petróleo. O Equador, membro da OPEP, exporta 500 mil barris por dia. O Brasil exporta 800 mil barris por dia (dados oficiais da ANP).

A posição que o Brasil adotou, nada diplomática, foi negar a importância da própria OPEP, discursando que o problema de mercado (preço) deve ser resolvida pelo mercado (empresas) e não há nada que deva ser feito, e que não iria reduzir a produção. Árabes chocados.

ENTIDADE PODEROSA – A OPEP foi criada porque o mercado só pagava 1 dólar por barril e nunca permitiria uma elevação na qualidade de vida dos exportadores, e é a antítese da entidade sobrenatural do mercado. Ninguém é obrigado a concordar com a OPEP, mas jamais se pode desprezar seu poder sobre o mercado do petróleo.

Além disso, a OPEP nunca se importou com a produção do Brasil, que ultrapassa há tempos 2 milhões de barris diários. Ela se importa com a exportação do petróleo do Brasil. E o que ela vê de fora é que o avanço da produção do pré-sal para mais de um milhão de barris por dia, com participação crescente das estrangeiras, transformou o Brasil em exportador de petróleo bruto e, como tal, um importante membro a ser angariado na organização.

A declaração do brasileiro, um balde de água fria nos árabes. Para eles, o Brasil não tem o que é necessário: vontade de regular a exportação de forma que o óleo se consuma internamente, excluindo mais uma parcela da abundância de óleo barato do mundo.

PARADOXO BRASILEIRO – Como o índice de desenvolvimento humano dos países da OPEP não é dos mais exemplares, há uma tendência de desprezar seus conselhos, mas, olhando para o próprio umbigo, vê-se que o Brasil é um paradoxo.

O país conta com exportação em 800 mil barris por dia, dos quais 400 mil são de empresas estrangeiras parceiras da Petrobras no pré-sal. Os outros 400 mil a própria estatal exporta, por causa da irresponsável falta de refinarias no país, que obriga a Petrobras a importa 400 mil barris por dia em derivados (os números coincidem: voltamos à situação de 10 anos atrás, temos apenas a autossuficiência volumétrica –  agora sem fogos de artifício).

As empresas instaladas no país exportam a um valor ridículo: 35 dólares o barril, quando o preço internacional é 50. Já os derivados, importamos a 65 dólares o barril. Isso significa que, se tivéssemos mais refinarias, teríamos 30 dólares por barril de valor agregado em cada barril, que tem mercado interno garantido, mesmo na crise atual.

REFINO É DESPREZADO – O paradoxo é que nem empreendedores nem a Petrobras querem operar no refino. E ninguém vê problema nisso. O Brasil vai pagar, somente este ano, 5 bilhões de dólares para chineses refinarem o óleo. Mas outra refinaria aqui, jamais!

Voltando ao assunto, pode causar surpresa o baixo valor do óleo (pré-sal exportado pelas multinacionais “parceiras” da Petrobras). Mas não causa a menor surpresa, porque quem compra são subsidiarias estrangeiras das mesmas empresas e, surpresa menor ainda, quanto menor o valor do barril, menor o imposto arrecadado.

A Agência Nacional do Petróleo manifestou preocupação com a situação e promete que vai investigar. Mas é pizza na certa.

De concreto, o que se tem é que a conquista do pré-sal pela Petrobras é um fato consolidado pela produção de mais de 1 milhão de barris por dia e que todo óleo a que as multinacionais tiverem acesso será exportado cru, deixando de 10 a 30% de seu valor declarado em forma de imposto – algo como 3 a 12 dólares por barril.

SEM PLANEJAMENTO – Enquanto isso, se aguarda o planejamento energético de longo prazo do Brasil, que determinaria se o ideal para nosso progresso é produzir agora, com excedente vendido a preço de banana, ou restringir a exportação (como fizeram os EUA por 40 anos) e equilibrar a produção, refino e consumo.

Sem este planejamento, o governo se torna alvo fácil para ser chamado de entreguista com leilões sem objetivos com resultados pífios para a nação, tão necessitada em energia e emprego.

A Operação Lava Jato mostra apenas a ponta do iceberg da Petrobras. O escândalo no setor do petróleo é muito mais grave do que se pensa. Mas quem se interessa?

 

5 thoughts on “Escândalo do setor do petróleo é muito mais grave do que a Lava Jato mostra

  1. Caro Newton e comentaristas, as Hienas do governo dos 3 podres poderes, estão entregando de mão beijada nossa Soberania, o povo trabalhador se danando pela sobrevivência, Presidentes dos Poderes (Executivo e Congresso acusados de ladroagem em suas diversas formas) a Presidente do stf, está a desejar, a Esperança de ação em sua fala de posse, está virando utopia, os sinistros juízes, lobos, são estupradores da Srª Justiça.
    Pobre País, acorda desse pesadelo, ou 200 milhões, precisarão de uma Lei Aurea, com o reencarne da Princesa Izabel.
    Deus Pai, nos ajude, pelo Amor de Deus.
    A podridão a cada dia piora.

  2. A OPEP decidiu aumentar mais a oferta em guerra contra o EUA pois assim o custo do gás de xisto ficaria caro mas Tio Sam que não brinca fez acordo com o Irã que é rival da Arabia Saudita e adicionou mais 2 milhões de barris causando mais perda para o aliado Saudita num mercado que há dez anos o consumo de petróleo não cresceu mais que 1.1 a 0.9% a.a.p.e. o Brent o top vale USD 45 a meta da OPEP era ganhar a guerra contra o xisto mas até certo valor e não ver seu preço derreter afinal aqueles Sheiks são todos estudados nas melhores universidades e sabem fazer conta e aqui temos poetas econômicos.

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