Escaramuças iniciais

Carlos Chagas

O Congresso reabre seus trabalhos quarta-feira, quando a chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, levará ao senador José Sarney a mensagem anual da presidente Dilma Rousseff. O clima é tenso entre Executivo e Legislativo, mas não se espera, no texto presidencial, qualquer motivo para o agravamento das relações.

Nem mesmo haverá divergências profundas, de mérito, na votação dos principais projetos em pauta para o primeiro semestre, a chamada Lei da Copa e o novo modelo de repartição pelos estados dos royalties do petróleo.

O atrito entre os dois poderes é fisiológico, de um lado, e ranzinza, do outro. Com o PMDB à frente e sem esquecer o PT, o PP, o PSB e outros, os partidos não estão gostando nem um pouco da degola de ministros, diretores e empresas públicas e altos funcionários indicados por eles na administração federal.

Senão implacável, pois sujeita a contingências políticas, a guilhotina do palácio do Planalto continua a funcionar, ainda agora atingindo o Dnocs, a Petrobrás e o ministério das Cidades, depois da defenestração a conta-gotas de seis ministros. Não se duvida de que outros virão.

A Câmara, primeiro, e o Senado, depois, deverão votar no primeiro semestre a Lei da Copa, de início de acordo com os entendimentos entre o palácio do Planalto e a Fifa, que lentamente começaram a dialogar. Mas pontos de atrito poderão sobrevir, menos pelo conteúdo do projeto, mais pela má vontade que divide os poderes Legislativo e Judiciário.

Tome-se o detalhe sobre a venda de uma determinada marca de cerveja nos estádios, por coincidência aquela que patrocina a entidade internacional de futebol. Mesmo sabendo que o governo curvou-se à exigência, deputados da base oficial, agastados com a perda de cargos, poderão unir-se à oposição e alegar que a lei federal proíbe a venda de bebidas alcoólicas nos estádios.

Da noite para o dia terão virado puritanos empedernidos. Como reagiria a Fifa, interessada no faturamento de suas atividades? Da mesma forma, a meia-entrada para jovens e velhos integra nossa legislação, mas é rejeitada por Joseph Blatter.

Pequenas escaramuças, como a referida, poderão manter nervosas as relações entre Legislativo e Executivo, ainda que nem lá nem cá exista ânimo para confrontos definitivos. Convém aguardar, no entanto.

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O PASSADO E O FUTURO

Velhos jornalistas, até com certa razão, dirigem-se aos jovens lembrando que no tempo deles o Congresso era diferente, eivado de luminares e pleno de altos debates políticos. Falam de Afonso Arinos, Aliomar Baleeiro, Prado Kelly, Milton Campos, Carlos Lacerda, Gustavo Capanema,Vieira de Mello, Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, Amaral Peixoto e outros.

É bom tomar cuidado, porque ninguém garante que daqui a 50 anos os jovens repórteres de hoje não afirmem aos que estarão começando as excelências do Congresso de seus tempos iniciais. “No nosso tempo tínhamos Henrique Eduardo Alves, Geddel Vieira Lima, Eliseu Padilha, Romero Jucá, Romário e Tiririca…”

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