Escorregam Serra e os tucanos

Carlos Chagas

Quando José Serra começou a perder a presidência da República, em 2010? Quando aceitou um desconhecido para seu companheiro de chapa. Sem participar do processo de escolha de Índio da Costa e, em especial, sem fazer valer sua autoridade de candidato, Serra começou a mostrar-se insosso, amorfo e inodoro, perdendo a eleição para Dilma Rousseff.

Pois não é que agora, na disputa pela prefeitura de São Paulo, o erro se repete? Mais um peso morto sobre os ombros do ex-governador: o PR. Para quê ele precisa do partido que apoiou Lula e Dilma, sendo depois, por corrupção, expulso do governo? Bobagem, se for por causa do minuto e meio de tempo na propaganda eleitoral gratuita na televisão.

Outra vez os tucanos escorregam antes de entrar na reta final. Ainda mais porque o PR, antes de aderir a Serra, propôs-se apoiar Fernando Haddad, desde que a presidente Dilma demitisse Paulo Passos dos Transportes e devolvesse o ministério ao partido.

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LIÇÕES DO PASSADO

Nesta semana politicamente vazia, nada melhor do que buscar no passado algumas lições para o futuro. Nos idos de 1962, portanto cinquenta anos atrás, o Brasil vivia momentos de euforia mesclados com horas de conspiração. O parlamentarismo não funcionava como sistema de governo. O país inteiro clamava pela volta ao presidencialismo, a começar pelo presidente João Goulart, um ano antes garfado em seu direito constitucional de assumir na plenitude dos poderes para os quais tinha sido eleito como vice-presidente, guindado ao poder pela renúncia de Jânio Quadros.

Mesmo assim, lideradas pelo PTB e penduricalhos, respirava-se a atmosfera das reformas de base. Consolidadas as conquistas econômicas e sociais estabelecidas décadas antes por Getúlio Vargas, imaginavam-se novos passos no rumo da igualdade e da justiça econômica. Era a euforia.

Nos bastidores, porém, as elites trabalhavam para impedir avanços populistas. Era a conspiração, para a qual vinham sendo cooptados os militares, afinal dois anos depois levados a vibrar um golpe mortal nas instituições democráticas.

Hoje as forças armadas parecem vacinadas contra aventuras, como antes pareciam, mas vive-se, guardadas as proporções e atualizados os costumes políticos, atmosfera parecida à de 1962. Onde se lia PTB leia-se agora PT. No lugar de João Goulart, um presidente que mandava pouco, está o Lula, um ex-presidente que manda muito.

A oposição radical e intransigente era conduzida pela UDN, instrumento do capital nacional e internacional para a preservação de suas benesses. Agora, nem tão intransigente e até menos radical, é o PSDB que ocupa o lugar.

Apesar dessas diferenças, registra-se no país dicotomia parecida: uns querem avançar, outros, recuar.

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VOTO SECRETO CONTINUA?

Anuncia-se que o senador José Sarney colocará logo em votação a PEC que extingue o voto secreto nas decisões parlamentares sobre cassações de mandato de deputados e senadores. Esperava-se que o fizesse depois que o plenário do Senado decidir secretamente a sorte de Demóstenes Torres, talvez. Antes, nunca.

Estaria em marcha uma operação para salvar o pescoço do representante de Goiás? Fica difícil imaginar boa parte dos senadores deixando de comparecer à sessão de cassação, prevista para agosto. Continuando o voto secreto, com a maioria presente, quem sabe?

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