Especialista em energia defende Belo Monte e diz que impacto ambiental da usina foi ferozmente reduzido.

Em entrevista à repórter Josette Goulart, do jornal Valor, e engenheira Virginia Parente, conselheira da Eletrobrás e pós-doutora em energia, professora do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo, defende a usina hidrelétrica de Belo Monte e do uso da Amazônia para gerar energia. E diz que o impacto ambiental da usina de Belo Monte foi “ferozmente reduzido”. Veja os principais trechos da entrevista.

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Ambientalmente a questão da hidreletricidade é bastante controversa, basta ver os protestos em torno de usinas como a de Belo Monte. Grandes hidrelétricas são ambientalmente justificáveis?

A hidreletricidade é mundialmente mais justificável do que energia gerada com qualquer combustível fóssil. Falo principalmente de óleos pesados, do próprio carvão, porque o efeito estufa é realidade e a energia é uma das principais fontes desse efeito. Se você tem energia ou algumas fontes que não causam efeito estufa e entre elas, a hidreletricidade, é claro que pula na linha de prioridade e fica na frente de outras. E mais uma vez com isso eu não quero dizer que ela não tenha problemas, porque tem. As novas renováveis, e estamos falando de eólica, biomassa moderna e energia solar, estão no varejo e não chegam a 3% da matriz mundial de oferta de energia. Então não se pode esperar resolver o problema de um mundo que está crescendo apenas com as novas renováveis.

O Brasil consegue gerar mais de 90% de sua energia com renovável e desse total 98% é hidrelétrica, então não dá para se ter o sonho de uma noite de verão achando que se vai substituir isso num passe de mágica. Isso significa que Belo Monte é um mal necessário?

Belo Monte tem características boas e, como qualquer hidrelétrica de grande porte, ressalvas. Não tenho dúvidas de que o Brasil precisa de projetos estruturantes e de grande porte do ponto de vista energético. Não chamaria nem de mal necessário, pois Belo Monte está sendo atacada de vários lados, pelos que não gostam e os que gostam de hidreletricidade. Os que gostam porque acreditam que com as concessões ambientais feitas vai se gerar pouca energia. Mas não é pouca, são 4.500 MW de energia firme. Se pensar em Santo Antonio e Jirau, nenhum dos dois projetos chega a 4.000 MW. As Organizações Não-Governamentais (ONGs), boa parte delas internacionais, criticam Belo Monte pelo fato de estar localizada em meio a Floresta Amazônica.

É preciso explorar a Amazônia?

O meu olhar sobre a Amazônia é a de que ela não é intocável. O cuidado é que tem que ser irretocável. O que significa que não se pode fazer um aproveitamento na Amazônia só do ponto de vista econômico, ou seja, pegar um rio ou um pequeno bioma e destruir. Colocar dez hidrelétricas em uma mesma região. Um estudo do WWF mostra que os rios funcionam como veias que drenam toda a floresta e se cortamos todas as veias, a região apodrece. Então não se pode usar a lógica apenas econômica. Mas a Amazônia não pode ser intocável do ponto de vista hidrelétrico.

No caso de Belo Monte, e até das usinas do Madeira, números como o retorno do investimento não chegaram ao conhecimento dos acionistas, mesmo depois de todos os contratos de fornecimento fechados. Não falta transparência?

É possível que essa seja uma área que precisemos apertar mais, para que a comunicação melhore. Não é fácil comandar uma empresa que tem tantas pautas e o governo como um dos principais acionistas. É preciso satisfazer gregos e troianos e não perder eficiência. E controlar para que custos não fujam ao que foi planejado. E em uma empresa como a Eletrobras, com tradição maior em engenharia do que em economia, esse é um grande desafio. Eu pedi muitas explicações, como conselheira, da participação da Eletrobras em Belo Monte e essas informações me foram dadas. E pedi um olhar multidisciplinar: sociológico, de assistência social, de indenização justa, de minimização de impactos, de prioridade, enfim, precisamos começar mesmo por esse projeto?. Fiz um ‘check list’ de coisas que gostaria de saber para ser convencida, antes de dar um parecer favorável. E eu fui convencida.

Que argumentos foram mais fortes para lhe convencer?

Sobretudo o de que não vai se fazer uma usina usurária. Você tem 11 mil MW instalados para aproveitar um terço disso, justamente porque se abre mão de muitos impactos ambientais, que foram reduzidos. Foram extremamente reduzidos. Ferozmente reduzidos. A ponto de ter sido questionado, tecnicamente, se valia à pena construí-la. Vale, porque o Brasil precisa de quantidades expressivas de energia. O Brasil tem uma legislação ambiental das mais rigorosas do mundo, então aprovar milhares de projetos em picadinho é muito complicado. E com Belo Monte se tem, em uma tacada, quantidade de energia que dá segurança energética ao sistema. Uma Pequena Central Hidrelétrica, por exemplo, vai até no máximo 50 MW. Precisaríamos de 300 PCHs para equivaler a uma Belo Monte. Imagina aprovar 300 projetos, encontrar 300 rios aproveitáveis, fazer com que 300 pequenas obras ficassem prontas ao mesmo tempo. E sem contar que elas custariam duas ou três vezes por unidade de energia o preço do megawatt da grande hidrelétrica.

Esse pensamento vale para a eólica?

A eólica tem uma questão mais grave em relação à intermitência e falta de um histórico maior de medição de vento. Não se tem ainda certeza do fluxo de energia. E mesmo que se tenha, a eólica exige um ‘back up’. Para preservar água no reservatório, por exemplo. Onde vai estocar a energia eólica? Bateria é impensável. Não existe essa tecnologia. A água é a forma de estocar logo, ainda precisamos desse mix de energia, que reduz riscos de abastecimento. Mas é fato que nossa eólica está se comportando quase como uma energia de atacado. Começou com pequenas fazendas e agora elas estão tão grandes que quase são comparadas a hidrelétricas de médio porte. Aí surge outra questão que é como equacionar essa energia que vai entrar nos sistemas de transmissão. Esse é o novo desafio da energia eólica. Estamos falando de parques que vão produzir 250 MW, 100 MW de uma vez. São quantidades expressivas e têm impacto na rede de transmissão. E não temos tradição de transmitir energia eólica nesse montante. Nem o mundo tem.

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