Esquerda, direita e vice-versa em Portugal (e também no Brasil)

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Charge do Charb, editor assassinado do Charlie Hebdô

António Barreto
Diário de Notícias (Lisboa) 

Está aberto um novo ciclo político em Portugal. Como já houve noutros tempos, de má memória, antes e depois do 25 de Abril. São tempos de fanatismo. De exclusão. De afrontamento sem tréguas. São tempos de esquerda contra a direita, que geram tempos de direita contra a esquerda. Há quem goste. Há quem considere que essa é a grande política, o regresso da política e outras banalidades. Mas sabemos que não é verdade. Com o país assim dividido, perdem-se meios de ação e oportunidades de compromisso e de cooperação.

Há com certeza esquerda e direita. Em muitas coisas, são diversos e querem coisas diferentes. Mas há muito mais. O país e a política não se resumem a isso. Há a cultura, a nação, a religião, a etnia, a região, a idade, a arte, a ciência, o trabalho, o desporto, o amor, boa parte da economia, a educação, a saúde, o património e muito mais onde esquerda e direita não têm qualquer espécie de importância, podem até ser nefastos.

O que nestes tempos de fanatismo marca a diferença entre esquerda e direita é o autor. O que a direita faz é de direita. O que a esquerda faz, de esquerda é. A autoria marca o conteúdo, não o contrário. É o estilo dos déspotas.

DEPENDE DO AUTOR – A mesma coisa, feita por alguém de esquerda ou de direita, é de esquerda ou de direita. Austeridade, poupança, frugalidade ou rigor: se os responsáveis forem de esquerda, é de esquerda. Se forem de direita, é de direita. Medidas da responsabilidade de partidos da direita são fogo para a esquerda, devem ser condenadas e consideradas roubo. Se postas em prática por gente de esquerda, são detestáveis para a direita e consideradas assalto.

Diminuição das garantias, redução das liberdades individuais, restrição de direitos, violação do segredo bancário e do sigilo de correspondência: estes gestos têm duas interpretações. Feitos pela esquerda, de esquerda são, festejados pelas esquerdas e repudiados pelas direitas. Feitos pelas direitas, de direita são, aplaudidos pelas direitas e vilipendiados pelas esquerdas. Gastos com a defesa, despesa com a segurança e equipamentos para as polícias: conforme o governo, assim estes orçamentos serão de esquerda ou de direita, apoiados pela tribo apoiante, condenados pela tribo oposta.

CONFORME OS GOVERNOS – Negócios com capitalistas, entendimentos com multinacionais, favores a empreiteiros, incentivos a investidores, projetos de equipamento e parcerias: são empreendimentos de esquerda ou de direita, conforme os governos que as fazem, não conforme os méritos da obra.

Corrupção, crime e delinquência: é muito fácil, perante uma qualquer destas realidades, verificar que esquerdas e direitas se comportam de modo simétrico. Simpatizam, toleram ou condenam consoante o autor. As políticas e as medidas contra o terrorismo e a violência têm o mesmo destino: se vierem da esquerda, são de esquerda, aplaudidas pela esquerda e condenadas pela direita. Se vierem da direita, são de direita, festejadas pela direita e opostas pela esquerda.

NÃO HÁ VALORES COMUNS – Quase já não há matérias em que a esquerda e a direita democráticas sejam capazes de, sem trauma, estar de acordo. Quase já não há valores comuns. Com esta divisão exclusiva, toda a esquerda deixa de ser democrática para a direita e vice-versa. Nos debates parlamentares, já se fala de esquerda e de direita como se fossem pestes ou pragas sem salvação.

É natural que haja “paz social”, isto é, ausência de greves, enquanto os sindicatos de esquerda tenham acesso ao poder e os partidos de esquerda possam frequentar os corredores do governo. Também é natural que haja “clima optimista” para os negócios, enquanto os patrões tenham fácil contato com os governantes e os partidos da direita sejam bem-vindos nas antecâmaras dos ministérios. Tudo isso é natural e faz parte do jogo político. Infelizmente.

                               (artigo enviado pelo comentarista Guilherme Almeida)

One thought on “Esquerda, direita e vice-versa em Portugal (e também no Brasil)

  1. Iniciada a terceira fase preparatória do XX Congresso do PCP com a publicação das Teses – Projecto de Resolução Política na passada quinta-feira, 22, importa agora garantir uma ampla mobilização dos militantes para a sua discussão em todo o Partido. De facto, quanto maior for a participação de todos neste processo, melhor será o resultado do Congresso e maior será o contributo de cada militante para o reforço orgânico do Partido e para a sua unidade e coesão.

    No entanto, a par da preparação do Congresso – momento de grande importância na vida partidária –, o PCP continua a desenvolver uma intensa acção em defesa dos trabalhadores, do povo e do País. De facto, hoje mesmo teve início a acção de mobilização e luta em torno do emprego, direitos, produção e soberania para levar mais longe a defesa, reposição e conquista de direitos invertendo o rumo de desastre do anterior governo, que debilitou de forma significativa o País e cujas consequências ainda se fazem sentir, e sobretudo para, rompendo com os constrangimentos externos e com os interesses do capital monopolista, abrir caminho à alternativa necessária.

    Neste plano se situa também a intervenção do PCP e da CDU na batalha eleitoral para a Assembleia Legislativa Regional dos Açores de 16 de Outubro com um conjunto diversificado de iniciativas como aquelas que se realizaram na Horta e em Ponta Delgada na sexta-feira e sábado da semana passada com a participação do camarada Jerónimo de Sousa.

    Iniciar-se-á brevemente a segunda fase da campanha «Mais direitos, mais futuro. Não à precariedade» dando combate firme a este flagelo social.

    Desenvolvem-se as lutas inscritas na acção decidida pela CGTP-IN para esta semana, nas empresas e locais de trabalho, em torno da acção reivindicativa. Desenvolve-se também a luta dos reformados, pensionistas e idosos promovida pelo MURPI no dia do idoso (depois de amanhã) por melhores reformas e pensões, a luta das populações em defesa dos serviços públicos e dos micro, pequenos e médios empresários em defesa dos seus interesses específicos.

    O quadro político continua marcado pelas pressões e chantagens dos responsáveis da UE (declarações da semana passada sobre a cativação de fundos comunitários) e do FMI (sobre um suposto segundo resgate e sobre limitações que o Orçamento do Estado para 2017 teria que ter quanto ao valor das reformas, às despesas com a administração pública e à fiscalidade), logo secundados por um conjunto de comentadores e dirigentes políticos ligados ao anterior governo do PSD/CDS interessados em desestabilizar a actual solução política que, apesar do seu alcance limitado, devolveu direitos e rendimentos em que se inclui a gratuitidade dos manuais escolares para os alunos que frequentam o 1.º ano de escolaridade, recentemente iniciado.

    O PCP entende que a discussão em curso sobre as grandes Opções do Plano e Orçamento do Estado para 2017 deve ser feita com seriedade prosseguindo o caminho de defesa e reposição de direitos e rendimentos, aproveitando todas as possibilidades para ir mais longe na elevação das condições de vida dos trabalhadores e do povo.

    Como referiu o Secretário-geral do PCP no debate com o primeiro-ministro na Assembleia da República na passada quinta-feira, «seja na consideração das Grandes Opções do Plano, seja no decorrer da acção legislativa e governativa, uma das linhas orientadoras tem necessariamente que ter presente a resposta aos graves problemas sociais e o combate às desigualdades persistentes, o que implica a recuperação do poder de compra dos trabalhadores e das camadas populares, o direito ao emprego com direitos e de todos os portugueses à saúde, à educação, à segurança social».

    E, entre essas medidas, o PCP propõe a revogação das normas gravosas da legislação laboral, pela defesa da contratação colectiva, contra a precariedade e a exploração; o descongelamento das carreiras na Administração Pública e a eliminação da restrição de direitos; o aumento dos salários, por um salário mínimo nacional de 600 euros no início de 2017; o aumento efectivo das reformas e pensões, num mínimo de 10 euros por mês; o aumento do número de médicos, enfermeiros e assistentes operacionais melhorando as condições de funcionamento do SNS e eliminando as taxas moderadoras; a gratuitidade dos manuais escolares em todo o primeiro ciclo já no próximo ano lectivo; por melhor Segurança Social, garantindo a melhoria das prestações sociais para as famílias, nomeadamente o abono de família e complemento solidário para idosos; por maior justiça fiscal combatendo os privilégios dos grupos económicos, tributando o património mobiliário e o grande património imobiliário e de luxo, aliviando os impostos sobre os trabalhadores, o povo e as micro, pequenas e médias empresas; pela defesa da produção nacional com uma política que promova e reforce o investimento público orientado para o crescimento e o emprego; contra a privatização do Novo Banco, pela defesa da CGD, pública, ao serviço da população e da economia, com respeito pelos trabalhadores; defesa da língua e da cultura, pelo reforço do apoio à actividade artística e cultural.

    O PCP é um Partido necessário, indispensável e insubstituível. Do seu reforço, da dinamização da luta de massas e da unidade e convergência com democratas e patriotas dependerão os novos passos na devolução de direitos e rendimentos, a ruptura com a política de direita e a alternativa patriótica e de esquerda que se impõe.

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