Esquerda-sabão

Jacques Gruman

Mário Henrique Simonsen. Os que têm mais de quarenta anos certamente sabem de quem se trata. Economista que serviu a praticamente todos os generais da ditadura militar, adorava ópera, futebol (tinha o duvidoso gosto de ser torcedor fanático do Vasco da Gama) e era um polemista temível. Durante o governo Geisel, abertura incipiente, escreveu longo artigo para o Jornal do Brasil, comentando O Capital. Claro que, espremida a fruta, sobrava um resíduo amargo.

Dias depois, surpreendentemente, o jornal publica uma carta do Leandro Konder, então exilado na Alemanha. Saudava o artigo de Simonsen, registrava discordâncias e convidava o jornal a promover um debate sobre a obra seminal de Marx. Claro que o assunto parou por aí. A ditadura tinha medo das controvérsias, sobretudo daquelas que poderiam oferecer palco à esquerda. Do episódio, entretanto, ficou o gostinho frustrado do que seria um rico duelo entre dois intelectuais de peso, ideologicamente opostos. Aquela esquerda não se recusava a conhecer o que pensavam seus adversários, nem enfrentá-los na batalha das ideias. Abominava o “não li, não gostei” ou o “li, não gostei, mas não me dou ao trabalho de contestar”, tão comum em certos meios nos dias que correm.

Não faz muito, informei para um círculo restrito de conhecidos que O Globo publicara um artigo do cientista político Clóvis Brigagão a respeito do filme O dia que durou 21 anos. É um documentário, dirigido pelo filho do jornalista Flavio Tavares, que rastreia, com registros sonoros inéditos, a participação norte-americana no golpe de 64. Em resposta, uma pessoa que se diz de esquerda criticou minhas “companhias” e perguntou como eu ousava me referir a alguém assíduo na Globo News, “queridinho da direita”.

Pelas barbas do profeta ! Não sabia que minha televisão tinha sido contaminada pela marca de Caim, definitiva e globalmente condenada por um complô sórdido. Ora, vejam só, a tal pessoa sequer leu o artigo que originou as “acusações”. O que importava era a “cumplicidade” com as organizações Globo. Um raciocínio tosco, típico da esquerda-sabão, escorregadia e cuja espuma não resiste a um sopro. Vamos a alguns fatos.

GARRAFAS AO MAR

Quase ao mesmo tempo das “acusações” que sofri, a Globo News exibia um dos melhores e mais poéticos documentários que já assisti. Garrafas ao mar: a víbora manda lembranças retrata, com rigor, mas em linguagem afetuosa, lírica, parte da vida de Joel Silveira, um dos melhores repórteres do jornalismo brasileiro. A partir de uma série de encontros no apartamento de Joel, Geneton Moraes Neto nos conduz a uma viagem fascinante por personagens da história recente do Brasil, com alguns dos quais Joel teve contato direto. Uma pequena obra-prima, que, se tivesse passado pela censura-sabão, não receberia o nihil obstat. Afinal de contas, pecado dos pecados, o filme tinha sido exibido pela Globo News.

A mesma cegueira valeria para as entrevistas com o cabo Anselmo e figuras proeminentes da ditadura militar, que Geneton conseguiu, causando grande impacto e colaborando para completar a memória dos nossos sufocos e dores. Não se trata de conteúdo, mas de quem assina a carteira de trabalho. Daí para o gueto, a distância é de um polegar. Para a esquerda-sabão, dialogar é capitular, refletir é aderir.

Desmemoriados, por conveniência ou degradação neuronal, fariam bem em dar uma olhada na lista de “vendidos e traidores” que trabalharam na chamada grande mídia (PIG, na denominação pueril dos ensaboados). Vianinha, Paulo Pontes, Dias Gomes, Gianfrancesco Guernieri, Beth Mendes, Francisco Milani, Mário Lago, João Saldanha: todos funcionários do “doutor” Roberto, na TV ou no rádio. Leandro Konder, enquanto teve saúde, colaborou assiduamente n’O Globo. Daniel Aarão Reis ainda o faz. Cláudio Abramo, Aloysio Biondi (de saudosa memória; foi com ele que aprendi o beabá da economia) e César Benjamin escreveram na Folha de S. Paulo. Para os patrulheiros, eis aí um timaço indigno de confiança. Suspeito que, por trás da rotulagem indevida, está uma imensa insegurança, dúvidas sobre convicções e projetos. À falta de um seio farto e inesgotável, escondem-se atrás de um inimigo que materializa todos os seus fantasmas.

AUTOAJUDA

Nesta leitura, Marx seria autor de manuais de autoajuda, com respostas para todas as angústias e perplexidades. O mundo se resume a heróis e vilões. Isso me faz lembrar de um pequeno incidente entre Ziraldo e Pedro de Lara, folclórico personagem de programas de auditório. Ziraldo estava sendo entrevistado numa mesa redonda, quando Pedro percebeu que o tecido da calça do Ziraldo era, digamos, extravagante. Não deu outra: na primeira oportunidade, insinuou que aquilo era roupa gay. Ziraldo rebateu de primeira: “Quem acha que a sexualidade de alguém se mede pelo tecido da calça que veste, não está seguro de sua própria”.

Para os que reduzem tudo a conspirações, adianto: estou ciente de que os meios de comunicação representam interesses de classe. Isso, no entanto, é apenas um começo, uma constatação. Não explica, por exemplo, por quê as esquerdas brasileiras não conseguem produzir alternativas a esses meios, com conteúdo e forma compatíveis com a nossa época, com uma agenda que tenha boa propagação nas grandes massas. Este fracasso é uma tragédia para a construção de um projeto verdadeiramente popular e radicalmente democrático no Brasil. A guerra das ideias não será vencida colocando em quarentena gente como João Ubaldo Ribeiro, Zuenir Ventura, Luis Fernando Veríssimo, Ruy Castro, Carlos Heitor Cony, Roberto da Matta. Os inimigos, à revelia da falange acusadora do PIG, são outros.

Joel Silveira confidenciou ao Geneton que a verdadeira tristeza era o Réquiem, de Mozart. O resto não passava de firula. Frase de efeito do velho repórter. A insegurança juvenil que certas pessoas da esquerda demonstram quando esbarram com a direita orgânica (ou, com inquietante frequência, apenas com o que julgam ser de direita) é igualmente triste. Probleminha: já não são adolescentes.

(Artigo enviado por Mário Assis)

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3 thoughts on “Esquerda-sabão

  1. Simonsen?!?!
    Aquele que Hélio Fernandes definiu magistralmente como “GÊNIO-INCOMPETENTE”??? CITISIMONSEN?!?!?

    Polemista temível?!?!?
    Intelectual de peso?!?!?

    Saudações,

    Carlos Cazé.

  2. Que absurdo patrulhar os escritores e os jornalistas de esquerda por terem trabalhado nas Organizações Globo, na Folha e no Estadão. Felizmente receberam abrigo nas redações desses jornais. O espaço para eles trabalharem na iniciativa privada e no serviço público foi fechado por causa da opção ideológica. Que fazer? Por acaso desejariam que morressem, que enveredassem para a luta armada sem qualquer chance na luta contra o poder constituído?

    Ora, a nossa esquerda não tem e não tinha o direito de criticar, até porque não é mesmo, onde elas estão? Estão encasteladas no poder fazendo tabelinha com a direita e até melhor um pouco do mesmo.

    O importante é viver, sobreviver, amar e lutar sempre pelos seus ideais humanistas e com o talento adquirido tentar melhorar a sociedade para que os cidadãos sejam mais felizes. Isso é o que importa, nada mais. Patrulha nunca mais, até porque estamos vendo que não vale de nada. Os exemplos estão aí vivinhos todos os dias e não precisa enumerá-los, pois são muito feios para quem sonhou um dia com um mundo melhor, solidário, fraternal e mais um pouco igualitário.

  3. Porque “tinha o duvidoso gosto de ser torcedor fanático do Vasco da Gama”, infeliz ? Queira ou não queira, era muito inteligente mesmo. E chamá-lo de gênio-incompetente é mais problema pessoal do que outra coisa.

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